Ninguém previu aquela tarde de chuva, nem mesmo aquele monte de gente da televisão e nem o Garoto que espera sob a cobertura de um ponto de ônibus no meio da grande cidade. Talvez seja por isso que ele, com a cabeça seca e pés molhados, não gosta muito daquela gente de televisão. Ao menos a chuva não era tão forte, mas mesmo assim ele tem um medo sem tamanho de pegar um resfriado, ainda mais nas suas férias. Seria muito ruim perder alguns dias preso a cama. Aquela gente de televisão nunca acerta.
O Garoto balança os pés e segura as bordas do banco com as mãos enquanto observa as gotas que caiam nas poças ali perto e quase não presta atenção numa figura que vinha andando em direção ao mesmo ponto de ônibus. Mas, enquanto olha para o chão, vê um sapato grande demais para qualquer pé pisar na poça e, subindo um pouco o olhar curioso, vê calças também muito grandes para quaisquer pernas. Eram vermelhas, cheias de lantejoulas, com pequenos círculos amarelos e presas por suspensórios que se cruzavam no peito. E a camisa, a peça mais discreta, tinha listras verdes e violetas. No rosto, a exagerada maquiagem estava escorrendo um pouco, mas o nariz vermelho tinha um brilho especial por causa da água e não se incomodava com as pequenas gotas que caiam em tempo marcado. Ao encarar o nariz vermelho, os pés do Garoto se aquietaram. O Palhaço, enquanto caminha lentamente com um pequeno guarda-chuva, pequeno mesmo, tanto que mal o cobria e tão vermelho quanto o nariz, olha por alguns instantes o Garoto sentado e de olhar curioso. Com um breve suspiro o Palhaço se senta, fecha o pequeno guarda-chuva vermelho e, como o Garoto fazia a pouco, começa a observar as gotas de água caírem nas poças ali perto. O Garoto acompanha cada movimento do Palhaço, esperando que ele fizesse alguma coisa extraordinária. Mas o Palhaço, sem tirar os olhos das gotas que se desmanchavam no chão, apenas diz:
―Você consegue ver essas gotas de água. - faz uma pausa e inclina o ouvido em direção ao Garoto, como se esperasse uma resposta, mas o Garoto permanece quieto, apenas olhando aquela figura colorida - Talvez você consiga ver, mas será que pode enxergá-las? - então o nariz vermelho do Palhaço se desvia para o olhar atento do menino.
O Garoto, que continua parado e não diz e nem pensa algo para responder, ainda espera a coisa extraordinária, que até então não havia acontecido. Os dois continuam da mesma maneira por um tempo como dois pássaros que esperam a chuva passar, empoleirado em um galho, imóveis e pacientes. O Garoto, agora com as mãos juntas sobre o colo, parece procurar alguma coisa dentro do Palhaço, mas nenhum dos dois diz alguma coisa ou faz algum movimento durante esse tempo. E então, diante do silêncio, o Palhaço continua:
―Eu vejo as gotas e você também. Todo mundo consegue ver aquelas gotas, assim como vêem tudo o que existe por aí. Eles vêem essa chuva caindo, essa rua, essas casas a nossa volta e eles vêem umas as outras. Mas eles não sabem enxergar. Tudo o que eles têm são apenas imagens, figuras que eles não sabem perceber nem entender diferenças entre elas. Eles apenas vêem e tudo é igual para eles. Para o olhar desatento dessas pessoas aquelas gotas são iguais umas as outras, a rua é a mesma que as demais e as casas também são todas parecidas. E as pessoas? Se viram uma, viram todas e não há diferença entre uma e outra. Essas pessoas não sabem enxergar.
Então o Garoto volta a observar as gotas caindo no chão, tentando descobrir se podia enxergá-las. O Palhaço sorri, um riso discreto, que se escondia atrás da tinta no seu rosto.
―Eu aposto que você pode enxergá-las. - diz o Palhaço ao perceber a preocupação do menino - Os pequenos enxergam tudo e sempre sabem como fazer isso. São os grandes que só sabem ver, porque eles esqueceram ou se cansaram de enxergar. E mais, são eles quem ensinam as crianças a apenas ver. - o Garoto volta a olhar o Palhaço, que continua - Sabe, acho que os grandes fazem isso porque tem inveja das crianças. Você não acha?
O Garoto não sabe.
―Tenho certeza que sim. Os grandes têm inveja dos pequenos porque esqueceram-se de como é ser um. Muitos deles tentam ser uma outra vez, mas ficam apenas na tentativa e nunca será a mesma coisa. Não é fácil não ser, sabia? E é por isso que eles sofrem. Mas os grandes têm essa mania de não reconhecer, viver e muito menos aceitar
a dor. Elas preferem muito mais ocupar esse espaço com um monte de
outras coisas, ocupando cada segundo da vida apressada deles com um monte de coisas que inventaram justamente para isso, para esquecer da dor. Como eles são burros. Só estão piorando tudo.
Neste momento, enquanto o Palhaço volta a observar a chuva caindo e o Garoto perde o olhar no pequeno guarda-chuva vermelho, um carro passa muito rápido por eles e faz jorrar toda a água das poças onde as gotas se desmanchavam ali perto. Depois que o carro vira a esquina, não muito longe de onde estavam, o Palhaço começa a rir uma risada diferente das que o Garoto costuma ouvir por aí. Risada de palhaço mesmo, única, contagiante e de verdade. A coisa extraordinária! O Garoto ri uma risada diferente das que costumava rir. Os dois gargalham segurando o estômago, mais molhados que antes, até doer barriga, até quando o motivo se perdeu. Algazarra, gargalhada, riso, sorriso, respiração ofegante.
Neste momento, enquanto o Palhaço volta a observar a chuva caindo e o Garoto perde o olhar no pequeno guarda-chuva vermelho, um carro passa muito rápido por eles e faz jorrar toda a água das poças onde as gotas se desmanchavam ali perto. Depois que o carro vira a esquina, não muito longe de onde estavam, o Palhaço começa a rir uma risada diferente das que o Garoto costuma ouvir por aí. Risada de palhaço mesmo, única, contagiante e de verdade. A coisa extraordinária! O Garoto ri uma risada diferente das que costumava rir. Os dois gargalham segurando o estômago, mais molhados que antes, até doer barriga, até quando o motivo se perdeu. Algazarra, gargalhada, riso, sorriso, respiração ofegante.
―Está vendo!? - diz o palhaço com um grande sorriso - Estão sempre com pressa! E aposto que o motorista nos viu aqui.
―Mas não enxergou a gente. - diz o Garoto, com o mesmo largo sorriso no rosto ensopado.
E riram outra vez. O Garoto quase que não nota o ônibus que pára e abre as portas à sua frente e por um segundo se esqueceu que era este ônibus que esperava para voltar pra casa. O garoto olha para o grande que dirige o ônibus, que esbraveja se o menino vai subir ou não, que tem horários a cumprir, que não tem tempo para ficar esperando. O Garoto desce do banco, já sem o grande sorriso, sobe o primeiro degrau com um pouco de dificuldade e, ainda no degrau, volta a olhar o Palhaço, que continua com o mesmo grande sorriso, com as mesmas grandes roupas e com o pequeno guarda-chuva vermelho sobre o colo.
―Você é engraçado. - diz calmamente o menino com um pequeno sorriso enquanto as portas do ônibus se fecham com a mesma pressa do condutor.
E enquanto partia, o Garoto esfrega as mãos no vidro embaçado da janela e enxerga o Palhaço acompanhar com o olhar o ônibus até sumir, lá longe, atrás das gotas de chuva que escorriam pelo vidro.
―Mas não enxergou a gente. - diz o Garoto, com o mesmo largo sorriso no rosto ensopado.
E riram outra vez. O Garoto quase que não nota o ônibus que pára e abre as portas à sua frente e por um segundo se esqueceu que era este ônibus que esperava para voltar pra casa. O garoto olha para o grande que dirige o ônibus, que esbraveja se o menino vai subir ou não, que tem horários a cumprir, que não tem tempo para ficar esperando. O Garoto desce do banco, já sem o grande sorriso, sobe o primeiro degrau com um pouco de dificuldade e, ainda no degrau, volta a olhar o Palhaço, que continua com o mesmo grande sorriso, com as mesmas grandes roupas e com o pequeno guarda-chuva vermelho sobre o colo.
―Você é engraçado. - diz calmamente o menino com um pequeno sorriso enquanto as portas do ônibus se fecham com a mesma pressa do condutor.
E enquanto partia, o Garoto esfrega as mãos no vidro embaçado da janela e enxerga o Palhaço acompanhar com o olhar o ônibus até sumir, lá longe, atrás das gotas de chuva que escorriam pelo vidro.

