Bruno é um respeitável senhor com seus pesados setenta e dois anos, dos quais cinquenta foram ao lado da esposa que venera como nenhum homem de sua idade saberia venerar uma mulher. Ele acorda um pouco antes do Sol e prepara seu famoso cafezinho e seu filho chega logo depois, antes de ir ao trabalho, para tomar um copo na companhia do pai. Os dois tem uma conversa rápida e a esposa de Bruno se levanta a tempo de dar um beijo no menino antes de ele sair. É dessa maneira que todas as manhãs começam naquela casa e ainda assim Bruno tem aquela sensação de coisa boa que somente essas simplicidades podem lhe garantir. O cheiro do café fervendo na garrafa e a visão da esposa sentada a sua frente o faz lembrar da manhã em que a conheceu. Sabia, naquela desavisada manhã de chuva há mais de cinquenta anos, que tinha conhecido a mulher com quem queria estar ao lado todos os dias. Não demorou muito e a insistência do jovem Bruno levou os dois ao casamento, ao único filho e a essas manhãs com café, filho e adoração. Além dos pesados anos, Bruno carregava um amor desmedido por sua esposa. Mas ela é e sempre foi fria e altiva, nunca dando o braço a torcer e, de fato, Bruno nunca ouviu palavras carinhosas daquela boca pequena e adorada. Bruno não se importava com a falta de demonstração de amor, apesar de ele mesmo sempre dizer e fazer coisas que homens de sua idade não saberiam dizer e fazer. Por ela, aquela visão que não perde seu brilho desde aquela desavisada manhã há cinquenta anos, Bruno faria e faz qualquer coisa. É um homem bom que sabe amar como nenhum homem de sua idade saberia, mas infelizmente o motivo de seu sorriso não sabe sorrir. Bruno, com seus pesados setenta e dois anos, não sabe o que é sentir-se amado.Maria é uma mulher que corre contra-mão das mulheres de hoje em dia e ela sabe muito bem disso. Não trabalha, pois prefere ficar em casa e cuidar de suas coisas com um zelo admirável que não existe no mundo desde quando sua avó era jovem e sonhadora. Gosta da transformação, através de suas mãos, de coisas sujas e bagunçadas em coisas limpas e em seus devidos lugares. Ama cada retrato pendurado nas paredes, imagens que contam uma história que gosta de visitar todos os dias. Ama cozinhar, e como cozinha bem! Ama cada peça de louça, tanto quanto ama lavá-las. Ama cada mobília em seu devido aposento, numa disposição que sempre foi a mesma e com a decoração que foi dela própria: cada cortina, vaso de flores, bibelôs, livros nas estantes, rendas, tapetes, mesas de centro, eletrodomésticos, pinturas, espelhos... tudo era dela, lhe pertenciam. Na verdade Maria era a própria casa e adora quando o aroma de limpeza e de boa comida invade o ar e abraça a chegada do marido depois de um cansativo dia de trabalho. Talvez Maria amasse mais a própria casa do que amava o marido, ou talvez na mesma medida, mas era certo que não poderia viver sem qualquer um dos dois. Cumpria, com louvor, as suas obrigações de casa e de cama e sente orgulho de si mesma. Maria é feliz, mas infelizmente o mundo não é mais o mesmo de quando sua avó era jovem e sonhadora. Maria fingia não ouvir os maldosos comentários de suas amigas, que eram como as mulheres de hoje em dia são, tentando esconder o quanto a dilacerava se sentir feliz por ser uma mulher que significasse pouca coisa nos dias de hoje. Dentro de casa, Maria sabia a exata medida da felicidade. Fora dela, aos olhos do mundo de hoje em dia, era uma mulher submissa, ultrapassada e burra por amar ser como era. Maria, com seu zelo desmedido ao escolher ser dona de casa, não saía para o mundo lá fora há um bom tempo.
Clara ainda mora com a mãe e visita o pai quando tem tempo sobrando, o que é raro, e há alguns anos, quando seus pais estavam se separando, a menina usava todas as forças que tinha para fingir que estava tudo bem. Conseguia isso com grande esforço e deixando uma ideia tomar conta de sua vida, a de que existiam pessoas com problemas piores por aí. Clara tentava esconder o sentimento de abandono, de quando era uma garotinha frágil e sozinha no meio de um pai que não amava sua mãe e tenta esquecer as noites em que se escondia embaixo de sua cama e tapava os ouvidos com muita força para não ouvir as brigas dos dois. E hoje a mulher Clara sabe cuidar muito bem de outras pessoas, muito mais do que sabe cuidar da sua própria vida. Sempre disposta a ajudar qualquer um que peça qualquer coisa, ela não sabe medir o tamanho dos favores e muito menos dizer não. Talvez, se cuidasse do sofrimento dos outros, ela poderia ignorar o próprio sofrimento e assim parecer forte, quando na verdade estava desmoronando. Talvez por isso escolheu fazer medicina, uma escolha que atenderia todos esses medos infantis e pudesse trazer um tanto de paz ao seu espírito perturbado por esses fantasmas do passado. Por isso todos sempre esperaram de Clara um porto seguro e conforto quando tudo o mais era desespero. Familiares, amigos e desconhecidos sempre recorrem a ela quando tudo dava errado e Clara sempre estava ali para ajudar. Mas ninguém possui tempo ou disposição em perguntar se tudo estava bem com ela. Clara, sabendo que a sua vida é um punhado de sentimentos mal resolvidos e revoltados por não receberem atenção há tanto tempo, sofre sozinha e ninguém sabe disso. Talvez nem ela mesma.
Augusto é um desprezível homem de negócios. Ama ninguém, não tem apreço por coisa alguma e nunca preocupou-se com qualquer pessoa. Seu maior orgulho é seu iate que, segundo ele mesmo diz, é para fugir dos problemas que tem.
Augusto é um desprezível homem de negócios. Ama ninguém, não tem apreço por coisa alguma e nunca preocupou-se com qualquer pessoa. Seu maior orgulho é seu iate que, segundo ele mesmo diz, é para fugir dos problemas que tem.
