sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Desconserto

Bruno é um respeitável senhor com seus pesados setenta e dois anos, dos quais cinquenta foram ao lado da esposa que venera como nenhum homem de sua idade saberia venerar uma mulher. Ele acorda um pouco antes do Sol e prepara seu famoso cafezinho e seu filho chega logo depois, antes de ir ao trabalho, para tomar um copo na companhia do pai. Os dois tem uma conversa rápida e a esposa de Bruno se levanta a tempo de dar um beijo no menino antes de ele sair. É dessa maneira que todas as manhãs começam naquela casa e ainda assim Bruno tem aquela sensação de coisa boa que somente essas simplicidades podem lhe garantir. O cheiro do café fervendo na garrafa e a visão da esposa sentada a sua frente o faz lembrar da manhã em que a conheceu. Sabia, naquela desavisada manhã de chuva há mais de cinquenta anos, que tinha conhecido a mulher com quem queria estar ao lado todos os dias. Não demorou muito e a insistência do jovem Bruno levou os dois ao casamento, ao único filho e a essas manhãs com café, filho e adoração. Além dos pesados anos, Bruno carregava um amor desmedido por sua esposa. Mas ela é e sempre foi fria e altiva, nunca dando o braço a torcer e, de fato, Bruno nunca ouviu palavras carinhosas daquela boca pequena e adorada. Bruno não se importava com a falta de demonstração de amor, apesar de ele mesmo sempre dizer e fazer coisas que homens de sua idade não saberiam dizer e fazer. Por ela, aquela visão que não perde seu brilho desde aquela desavisada manhã há cinquenta anos, Bruno faria e faz qualquer coisa. É um homem bom que sabe amar como nenhum homem de sua idade saberia, mas infelizmente o motivo de seu sorriso não sabe sorrir. Bruno, com seus pesados setenta e dois anos, não sabe o que é sentir-se amado.

Maria é uma mulher que corre contra-mão das mulheres de hoje em dia e ela sabe muito bem disso. Não trabalha, pois prefere ficar em casa e cuidar de suas coisas com um zelo admirável que não existe no mundo desde quando sua avó era jovem e sonhadora. Gosta da transformação, através de suas mãos, de coisas sujas e bagunçadas em coisas limpas e em seus devidos lugares. Ama cada retrato pendurado nas paredes, imagens que contam uma história que gosta de visitar todos os dias. Ama cozinhar, e como cozinha bem! Ama cada peça de louça, tanto quanto ama lavá-las. Ama cada mobília em seu devido aposento, numa disposição que sempre foi a mesma e com a decoração que foi dela própria: cada cortina, vaso de flores, bibelôs, livros nas estantes, rendas, tapetes, mesas de centro, eletrodomésticos, pinturas, espelhos... tudo era dela, lhe pertenciam. Na verdade Maria era a própria casa e adora quando o aroma de limpeza e de boa comida invade o ar e abraça a chegada do marido depois de um cansativo dia de trabalho. Talvez Maria amasse mais a própria casa do que amava o marido, ou talvez na mesma medida, mas era certo que não poderia viver sem qualquer um dos dois. Cumpria, com louvor, as suas obrigações de casa e de cama e sente orgulho de si mesma. Maria é feliz, mas infelizmente o mundo não é mais o mesmo de quando sua avó era jovem e sonhadora. Maria fingia não ouvir os maldosos comentários de suas amigas, que eram como as mulheres de hoje em dia são, tentando esconder o quanto a dilacerava se sentir feliz por ser uma mulher que significasse pouca coisa nos dias de hoje. Dentro de casa, Maria sabia a exata medida da felicidade. Fora dela, aos olhos do mundo de hoje em dia, era uma mulher submissa, ultrapassada e burra por amar ser como era. Maria, com seu zelo desmedido ao escolher ser dona de casa, não saía para o mundo lá fora há um bom tempo.

Clara ainda mora com a mãe e visita o pai quando tem tempo sobrando, o que é raro, e há alguns anos, quando seus pais estavam se separando, a menina usava todas as forças que tinha para fingir que estava tudo bem. Conseguia isso com grande esforço e deixando uma ideia tomar conta de sua vida, a de que existiam pessoas com problemas piores por aí. Clara tentava esconder o sentimento de abandono, de quando era uma garotinha frágil e sozinha no meio de um pai que não amava sua mãe e tenta esquecer as noites em que se escondia embaixo de sua cama e tapava os ouvidos com muita força para não ouvir as brigas dos dois. E hoje a mulher Clara sabe cuidar muito bem de outras pessoas, muito mais do que sabe cuidar da sua própria vida. Sempre disposta a ajudar qualquer um que peça qualquer coisa, ela não sabe medir o tamanho dos favores e muito menos dizer não. Talvez, se cuidasse do sofrimento dos outros, ela poderia ignorar o próprio sofrimento e assim parecer forte, quando na verdade estava desmoronando. Talvez por isso escolheu fazer medicina, uma escolha que atenderia todos esses medos infantis e pudesse trazer um tanto de paz ao seu espírito perturbado por esses fantasmas do passado. Por isso todos sempre esperaram de Clara um porto seguro e conforto quando tudo o mais era desespero. Familiares, amigos e desconhecidos sempre recorrem a ela quando tudo dava errado e Clara sempre estava ali para ajudar. Mas ninguém possui tempo ou disposição em perguntar se tudo estava bem com ela. Clara, sabendo que a sua vida é um punhado de sentimentos mal resolvidos e revoltados por não receberem atenção há tanto tempo, sofre sozinha e ninguém sabe disso. Talvez nem ela mesma.

Augusto é um desprezível homem de negócios. Ama ninguém, não tem apreço por coisa alguma e nunca preocupou-se com qualquer pessoa. Seu maior orgulho é seu iate que, segundo ele mesmo diz, é para fugir dos problemas que tem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sozinha

Sentada sozinha numa romântica mesa do restaurante que ela conhecia bem. Há muitos anos morava na casa em frente e sempre assistia pela sua janela aquelas cenas que só se viam nos filmes. Muitos casamentos começaram ali, bem a sua frente, quando era apenas um criança sonhadora. Cresceu pendurada a antiga janela, sonhando com o dia em que um rapaz fizesse o mesmo pedido a que estava tão habituada, e mesmo quando não morava mais na antiga casa em frente ao restaurante, continuava sonhando com o dia em que esse amedrontado rapaz pedisse algo que ela já saberia a resposta, pois a ensaiou durante toda a sua infância. E era nesses momentos, quando estava meio perdida no mundo dos sonhos, que ouvia a voz de sua mãe pedindo que ela saísse daquela janela e fosse brincar lá fora e que voltasse um pouquinho pra realidade. Mas ela não ouvia, e agora ela achava engraçado olhar a sua antiga casa pela janela do restaurante, imaginando se deste ponto de vista ela poderia ver a vida que seus pais tinham juntos - as brigas frequentes, as lágrimas e as decepções que aconteciam bem ao seu lado, mas estava ocupada demais sonhando com o rapaz amedrontado que lhe faria um pedido. Eles eram ótimos pais, mas não eram um bom casal e não sabiam estar próximos um do outro sem discutir sobre qualquer coisa. Quando seus pais se separaram ela já era crescida, quase uma mulher, e alguns anos depois foi para a faculdade, para o emprego dos seus sonhos e para a sua nova casa. Sozinha.

Talvez ela não soubesse de início porque ainda estava sentada ali, naquela mesa do restaurante, quando tudo o queria era ir pra casa e terminar aquela noite. Talvez mais tarde se arrependesse de ter saído, mas isso não iria acontecer ali, pois naquele momento tudo o que queria era ir para casa. Pagou a conta do jantar e levantou-se bem devagar e, andando sozinha pela rua, talvez ela não tivesse percebido que o tempo passava rápido. Talvez não tivesse percebido que estava tarde demais para se andar por aí sem companhia, mas não foi sua culpa. Se dependesse de sua vontade, agora estaria segurando o braço direito de alguém e teria no rosto um lindo e indiscreto sorriso, mas a vida é escritora sádica e irônica. Ela sempre sonhou com o homem que pediria sua mão e que os dois pudessem ter aquela vida de cinema com o "felizes para sempre", mas esse homem, até aquele momento, não havia chegado. Talvez ela não pudesse perder as esperanças, mas com certeza estava cansando daquilo tudo. Há um bom tempo já não via os filmes com seus forçados "felizes para sempre", que aliás era o único lugar onde via tal coisa. Da janela de sua antiga casa ela sempre via o começo, que era o que estava em todos os filmes, mas o durante e o depois ela nunca conseguiu ver, pois a história sempre acabava nessa parte. Talvez se tivesse olhado com mais atenção para dentro da antiga casa onde morava poderia ter visto o depois do pedido de seus pais, a continuação, o que acontece depois do "felizes para sempre", mas estava ocupada demais assistindo apenas o começo de tudo isso. Essa noite ela pensava nessas coisas mais do que quando apenas se preocupava com o pedido, quando era apenas uma criança e morava na antiga casa, em frente ao restaurante.

Parecia que, por enquanto, Alguém permitiu que nada de ruim lhe acontecesse e talvez esse mesmo Alguém não tivesse permitido, apenas por enquanto, que um amedrontado rapaz lhe fizesse o pedido que ela ainda estava esperando. A longa caminhada chegava a seu destino e ela ficou alguns longos minutos parada em frente a casa que conseguiu com o próprio trabalho. Ela a admirava por fora e tentava se imaginar como um desconhecido qualquer que parasse em frente à uma bela casa, e que este desconhecido se colocasse a imaginar as pessoas que moravam lá dentro. Quem sabe esse desconhecido imaginasse um casal de sorte por morar em uma casa tão admirável e que eles tivessem um casal de filhos de sorte por terem pais tão agradáveis. E, sem querer, ela sorriu diante de seu devaneio e entrou em sua casa com a sensação de que realmente alguém estaria ali dentro a esperando e que perguntaria a ela como foi o dia, e que entraria nos quartos com paredes coloridas e estantes cheias de brinquedos e daria um pequeno beijo no rosto de duas lindas crianças. A sensação passou assim que abriu a porta. Ela estava sozinha.

Deitada sozinha na cama de uma casa que ela conhecia bem. Ela nem se incomodava mais com as discussões constantes do casal que morava bem ao lado de sua janela e nem tentava mais entender o que poderia ter dado de errado no meio do caminho deles - apesar de o começo ter sido perfeito, pois ela o havia assistido de sua janela na antiga casa. Há muitos anos morava um tanto longe dali, onde existiam dores que ela nem se dava conta, e agora a companhia na cama era seu próprio sofrimento. Depois de um tempo esse ilustre companheiro não mais a incomodava, pois sabia que os sofreres não podem se acumular infinitamente. Um novo sofrer ocupa o lugar de uma antiga ferida, alguns menores e outros mais espaçosos. E assim a vida segue em frente, aos tropeços. Mesmo que às vezes ela tenha desejado ardentemente que as coisas parassem de acontecer tão rapidamente e que tivesse tempo para respirar. Mas ainda assim o vento continuava a soprar, seus pais continuavam a envelhecer, mais um dia vinha depois da noite ou mais uma noite depois do dia. Ela teve de se habituar ao curto fôlego que lhe foi permitido respirar. E assim a vida segue a arrastando, mas ela já está acostumada. Estava sozinha e, apenas por enquanto, aquilo lhe parecia suficiente.