terça-feira, 20 de setembro de 2011

Contradito

É assustador como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. Tudo parece conspirar para que o controle das coisas que fazemos, dizemos e queremos seja completamente perdido. Desse jeito é incrivelmente fácil se perder num turbilhão de escolhas e fazer justamente a errada ou a que perturba muito mais o nosso mundinho miúdo. E dessa maneira eu me sinto um forasteiro dentro dos meus próprios domínios e não reconheço nenhum recanto dessa coisa que chamo de vida; nenhuma paisagem, que era para ser completamente minha, é familiar. Sinto que vi essas coisas todas pela primeira vez e não sei exatamente que lugar é e muito menos onde tenho que chegar. Se é que essa vontade de chegar a algum lugar existe, e se existe, também não parece que foi uma escolha minha. Parece que eu sempre fui alguém do lado de fora olhando pra dentro, assistindo cada ação, cada caminho e cada decepção, e explodindo de emoção com sentimentos que pareciam ser de outra pessoa, de uma outra vida, de outro mundinho miúdo. Talvez devesse ter saído antes do filme acabar.

Então no meio da exibição acontece alguma coisa. Já tinha me levantado e amaldiçoado o cineasta com péssimo gosto. Mas de repente, no meio de todas as imagens difusas e diálogos perdidos e sem sentido, você me aparece e muda tudo. Volto a me sentar, um pouco inclinado pra frente, com os cotovelos apoiados nas pernas, querendo entender tudo o que aconteceu até então, tentando entender o que te levou até ali. Me perco nesses pensamentos e continuo assistindo suas falas, suas ações e acho engraçado a maneira como você fez tudo parecer mais interessante e mais real. Então, pro meu espanto, você pula pra fora da tela e vem na minha direção e me puxa de volta pro meu próprio filme, que agora, mais do que antes, parece tão meu. Cada recanto, cada detalhe, cada momento e cada paisagem são minhas, e tudo me pertence agora que você apareceu. É incrível! E tenho certeza de que tudo é meu porque uma estranha surgiu, invadiu e me fez perceber que esse mundo precisava ser reconquistado, repovoado. E agora me vejo tentando entender se você também é minha ou se veio aqui só pra me mostrar que todas as outras coisas me pertenciam. Não ligo muito pra isso, não nesse momento. E então fico tantando entender o grande mistério que é você.

É incrível como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. E a parte mais engraçada de tudo isso são as coisas que faço e só agora percebi. Mesmo querendo te ter sempre por perto, te deixo partir pra ir buscar as coisas que você perdeu pelo caminho e que agora parecem tão necessárias pra você. Não sou a pessoa mais sentimental, mas as lágrimas correm fácil quando você não está por aqui; chego a derramar algumas com os comerciais de margarina, a felicidade deles é comovente. Mas quando você volta, preciso desesperadamente parecer bem, mesmo sabendo que logo mais tarde você voltará ao lugar que veio e que esse tempo entre a partida e a chegada será uma tortura cruel e desnecessária. Quando me canso de todas essas coisas, tento te dizer a minha verdade, mas tudo o que você ouve são as suas mentiras e, quando você fala, não consigo escutar mais nada, principalmente a minha voz. E acho que por isso só vou conseguir te encontrar me perdendo, ou vou precisar te perder pra poder me encontrar. Ainda não sei qual é a escolha mais certa, ou menos errada, ou mais vantajosa, ou menos dolorosa... não sei. Talvez nunca saiba.

É inacreditável como as coisas acontecem quando decididamente não respeitamos nosso bom senso.  Essas escolhas parecem tão confusas e acho que seria prudente escolher nenhuma delas e deixar que as coisas aconteçam por si só, deixar que outros façam as escolhas que não sei ou não consigo fazer. Caminhar agora é muito mais difícil, ainda mais nessa paisagem, nesse filme, nesse mundinho miúdo que é todo meu e me pertenceu desde o começo da exibição. Mas, pro meu azar, não reconheço o protagonista e não dou fé em suas ação. Acho que você apareceu pra mostrar as coisas que tenho e pra deixar bem claro que eu não me pertenço e que as escolhas não são minhas. Não tenho um destino e talvez as coisas não vão melhorar tanto assim. Mas acho que não ter um destino não é tão ruim. Talvez o problema seja não saber como voltar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Odiar

É insuportável ver você do outro lado, tão distantemente próximo de mim. Não tenho coragem de atravessar e a pior sensação é de ficar um milímetro mais longe de você, dos seus passos. Como eu queria que os caminhos fossem os mesmos, mas, além de não serem, um dia os dois terão direções opostas e não sei se vão voltar para o mesmo lugar onde estamos agora. Muito provavelmente nunca irão. Eu preciso entender que são caminhos diferentes, mais do que qualquer outra coisa que vem acontecendo nos últimos tempos. Mas te ver caminhando aí do meu lado me faz pensar de um jeito muito errado, faz pensar que o caminho é o mesmo, que você está comigo e não apenas perto de mim. Como eu odeio isso. 

Não consigo ficar bravo pelas coisas odiáveis que você faz. Não consigo não rir das suas piadas sem graça. Não sei te dizer adeus quando você precisa partir. Não sei não sorrir quando te vejo por aí, mesmo que nem te diga um "olá". Apenas por saber que você existe e está em algum lugar por aí me faz sorrir. Não sei dizer não, mesmo que isso seja tudo o que você precisa ouvir de mim. Odeio isso tudo.

Sei que você quer que eu entenda, que eu saia por aí tentando me distrair ou simplesmente esqueça tudo isso. Mas já deve ter ficado bem claro, pelo menos pra mim, que não sei fazer nenhuma dessas coisas. Eu sou minha pior decepção. Ficam apenas tentativas, e todas mais cedo ou mais tarde se tornam  frustradas, sem sentido ou eu canso facilmente delas. Você sabe que odeio isso.

Te quero sempre por perto, e quando está perto quero mais perto ainda e mais. Quero aquela sensação incômoda de proximidade, aquele medo de não saber o que pode acontecer estando tão perigosamente próximo de alguém. A pior parte é que sei que nada acontece e nada acontecerá por mais perigosamente próximo eu esteja de você, por mais que eu odeie isso tudo.

Tenho que aprender que isso tudo pode ser uma incrível mentira que disse pra mim, numa noite longa e divertida onde é mais fácil de se acreditar nesse tipo de verdade. É um sonho, apesar de na maior parte do tempo ele causar muito mais medo e angústia que o mais terrível pesadelo noturno de verão, numa cama qualquer, em qualquer lugar. Alguém, por favor, faça isso tudo parar ou torne tudo verdade. Já não consigo caminhar com todo esse peso nas costas. E pro meu desespero você está ganhando velocidade, tão rápido me deixando pra trás, como se não se importasse. Não me estende a mão, não chama ajuda, apenas me vê diminuir o passo e ir definhando, tombando, caindo. Odiei isso mais que todas as outras coisas.

Agora você consegue enxergar o grande problema? Não consigo te odiar. Tudo o que odeio são coisas que eu mesmo faço ou que eu mesmo provoquei ou quis que acontecessem. Você tem razão, e nunca me prometeu coisa alguma. Nunca me disse que ia estar sempre por perto. Nunca prometeu que me faria sorrir, que queria me ouvir. Nunca me prometeu que se importa com o que faço ou penso. Nunca prometeu que me ajudaria quando eu precisasse. Mas eu sim. Eu prometi todas essas coisas e disse com cada palavra. Parece que eu fui impulsionado por uma força que não estava fora de mim, era uma força que vinha de dentro e que me escravizou, me flagelou e me obrigou a te dizer tudo o que te disse, desde o primeiro dia em que ouvi sua voz. Me fez te prometer todas essas coisas que você nunca quis fazer por mim. Eu te prometi estar por perto e te ouvir. Prometi te fazer rir, sonhar. Prometi te levantar quando caísse no meio do caminho, no meio da tempestade e da solidão. Prometi secar as suas lágrimas e dividir o seu fardo ou carregá-lo todo para você. Infelizmente pra mim, você nunca precisou de todas essas coisas e agora estou aqui, caído no meio do meu caminho, com uma carga insuportavelmente além das minhas forças, me sentindo um inútil, ultrapassado, sendo sozinho, perdido no meio do meu caminho enquanto você ganha o mundo à sua frente. Te vejo cada vez mais distante, mais profundamente distante, pra nunca mais voltar. Ainda me pergunto se vou te ver outra vez, mas essa é outra daquelas mentiras que conto pra mim.

Você se foi, mas eu não te perdi justamente porque você nunca me pertenceu. Você nunca deitou sobre o meu peito. Nunca dividiu a minha cama. Nunca tivemos uma história pra ser contada, pelo menos não a que eu sempre quis contar pra todo mundo que pudesse ouvir. Nunca tivemos nada, não juntos, como eu tanto quis. Somos nada, um sonho, uma loucura minha. Já isso eu adoro.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Ciência

O seguinte estudo tem como objetivo analisar o desenvolvimento do espécime Guilermu campesius, cujo habitat encontra-se em distantes terras esquecidas pela humanidade e pelo bom senso. Pertencente ao reino dos tolos, filo dos esperançosos, classe dos puros, ordem dos fracos, família dos nômades e gênero dos listrados, os de sua espécie atualmente encontram-se em iminente extinção. De fato, os integrantes de seu bando, apesar de numerosos, possuem hábitos fora do comum se comparados com os de outros bandos da mesma espécie. Os machos abandonam fêmea e filhote antes do nascimento. Parece comum às fêmeas a escolha de machos expulsos de outros bandos. O bando apresenta rituais de confraternização sazonais, geralmente a cada ciclo lunar, e todos os seus membros parecem conhecer os hábitos uns dos outros. Geralmente estão em disputas, principalmente por território e por comida, mas, apesar desse tipo de comportamento, são visíveis os laços que mantém esse grupo tão incomum unido.

Há quatro anos o espécime partiu sozinho, separando-se de seu bando natal e agregando-se a outros espécimes incontáveis que, por motivos parecidos, encontram-se na mesma situação. Num ambiente completamente estranho, alheio e hostil, tentam criar algo que os diferencie do bando em que nasceram e cresceram, numa tentativa de auto-afirmação e talvez como forma de, futuramente, estarem aptos para liderar seus próprios bandos. De acordo com as observações feitas nesse novo habitat, os efeitos causados em campesius são diversos e controversos, ora manifestando comportamentos de euforia, ora momentos de desagrado e visível incômodo. Várias vezes tentou retornar ao seu ambiente original, mas por alguma razão, ainda não observada e compreendida, o espécime em estudo sempre volta para o segundo habitat. Esse movimento é repetido incontáveis vezes ao longo dos meses. Fica difícil elencar possíveis motivos para que o espécime apresente tal comportamento.

Descrita a origem e a atual situação do espécime, chegamos ao impasse em que este estudo se encontra. Nas últimas semanas foram observados comportamentos anormais que nunca surgiram durante todo o período em que este estudo foi executado. Campesius tem preferido o isolamento, passando boa parte do tempo em um estado contemplativo e distante. Nas suas atividades diárias é observável uma mudança qualitativa na forma como desempenha tais funções, sendo observado uma perda de interesse nas coisas que antes o deixavam em um estado de prazer. É recorrente uma expressão muito característica e curiosa e, na maioria das vezes, um líquido cristalino e salgado escorre pelo seu rosto. E o fato ainda mais curioso: quando na presença de um determinado espécime, há extremas mudanças de comportamento, tanto físicas como psíquicas. Campesius apresenta taquicardia, aumento da pressão arterial e da temperatura corporal. Através de análises foi possível comprovar um aumento muito significativo do hormônio ocitocina no sangue de campesius, e ao mesmo passo uma atividade fora do normal é observada no seu sistema nervoso, especificamente na amígdala. Literalmente, campesius é um, quando longe deste espécime em especial, e outro completamente diferente quando este específico espécime está por perto. É um fenômeno extremamente curioso e interessante.

Desse modo, o presente estudo foi concluído, pois, devido às limitações que a técnica científica apresenta, não é possível concluir o que estes fenômenos observados no espécime Guilermu campesius realmente significam. Estudos futuros, talvez, consigam decifrar este enigma intrigante. Mas para nós, como seres humanos, fica claro o que se passa com ele.