É assustador como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. Tudo parece conspirar para que o controle das coisas que fazemos, dizemos e queremos seja completamente perdido. Desse jeito é incrivelmente fácil se perder num turbilhão de escolhas e fazer justamente a errada ou a que perturba muito mais o nosso mundinho miúdo. E dessa maneira eu me sinto um forasteiro dentro dos meus próprios domínios e não reconheço nenhum recanto dessa coisa que chamo de vida; nenhuma paisagem, que era para ser completamente minha, é familiar. Sinto que vi essas coisas todas pela primeira vez e não sei exatamente que lugar é e muito menos onde tenho que chegar. Se é que essa vontade de chegar a algum lugar existe, e se existe, também não parece que foi uma escolha minha. Parece que eu sempre fui alguém do lado de fora olhando pra dentro, assistindo cada ação, cada caminho e cada decepção, e explodindo de emoção com sentimentos que pareciam ser de outra pessoa, de uma outra vida, de outro mundinho miúdo. Talvez devesse ter saído antes do filme acabar.
Então no meio da exibição acontece alguma coisa. Já tinha me levantado e amaldiçoado o cineasta com péssimo gosto. Mas de repente, no meio de todas as imagens difusas e diálogos perdidos e sem sentido, você me aparece e muda tudo. Volto a me sentar, um pouco inclinado pra frente, com os cotovelos apoiados nas pernas, querendo entender tudo o que aconteceu até então, tentando entender o que te levou até ali. Me perco nesses pensamentos e continuo assistindo suas falas, suas ações e acho engraçado a maneira como você fez tudo parecer mais interessante e mais real. Então, pro meu espanto, você pula pra fora da tela e vem na minha direção e me puxa de volta pro meu próprio filme, que agora, mais do que antes, parece tão meu. Cada recanto, cada detalhe, cada momento e cada paisagem são minhas, e tudo me pertence agora que você apareceu. É incrível! E tenho certeza de que tudo é meu porque uma estranha surgiu, invadiu e me fez perceber que esse mundo precisava ser reconquistado, repovoado. E agora me vejo tentando entender se você também é minha ou se veio aqui só pra me mostrar que todas as outras coisas me pertenciam. Não ligo muito pra isso, não nesse momento. E então fico tantando entender o grande mistério que é você.
É incrível como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. E a parte mais engraçada de tudo isso são as coisas que faço e só agora percebi. Mesmo querendo te ter sempre por perto, te deixo partir pra ir buscar as coisas que você perdeu pelo caminho e que agora parecem tão necessárias pra você. Não sou a pessoa mais sentimental, mas as lágrimas correm fácil quando você não está por aqui; chego a derramar algumas com os comerciais de margarina, a felicidade deles é comovente. Mas quando você volta, preciso desesperadamente parecer bem, mesmo sabendo que logo mais tarde você voltará ao lugar que veio e que esse tempo entre a partida e a chegada será uma tortura cruel e desnecessária. Quando me canso de todas essas coisas, tento te dizer a minha verdade, mas tudo o que você ouve são as suas mentiras e, quando você fala, não consigo escutar mais nada, principalmente a minha voz. E acho que por isso só vou conseguir te encontrar me perdendo, ou vou precisar te perder pra poder me encontrar. Ainda não sei qual é a escolha mais certa, ou menos errada, ou mais vantajosa, ou menos dolorosa... não sei. Talvez nunca saiba.
É inacreditável como as coisas acontecem quando decididamente não respeitamos nosso bom senso. Essas escolhas parecem tão confusas e acho que seria prudente escolher nenhuma delas e deixar que as coisas aconteçam por si só, deixar que outros façam as escolhas que não sei ou não consigo fazer. Caminhar agora é muito mais difícil, ainda mais nessa paisagem, nesse filme, nesse mundinho miúdo que é todo meu e me pertenceu desde o começo da exibição. Mas, pro meu azar, não reconheço o protagonista e não dou fé em suas ação. Acho que você apareceu pra mostrar as coisas que tenho e pra deixar bem claro que eu não me pertenço e que as escolhas não são minhas. Não tenho um destino e talvez as coisas não vão melhorar tanto assim. Mas acho que não ter um destino não é tão ruim. Talvez o problema seja não saber como voltar.
