Às oito da manhã o relógio tocou. Era uma melodia tão gentil que parecia querer acalentar ainda mais o sono ao invés de tentar acordar. Às nove, ainda tentado não começar tudo outra vez, lá fora o som do dia já entrava timidamente pelas janelas e perturbava o sono. Não deveria estar ali deitado, era o que o barulho dos carros e das pessoas passando apressados lá fora gritavam. Mas dentro do quarto não foi permitido ao dia reinar. Ele, o dia, deveria ficar lá fora e existir apenas para as pessoas barulhentas e com motivos pra sair por aí fazendo o que sempre fazem, todo dia. Mas dentro do quarto, ali não, não nesse dia que é resultado de tudo o que aconteceu nos anteriores. Sim, os outros dias, aqueles em que parecia tudo tão certo e tão explícito, mas que de repente transformaram a vontade de começar a rotina em um asco para começar mais outra. Esse era um desses dias. Sem dúvida existia algo lá fora que amedrontava tanto que forçava a querer a segurança do quarto onde o tempo pudesse ficar esquecido, os compromissos cancelados e as necessidades fossem negligenciadas.
Não... não é algo. O que força o dia a ficar lá fora é alguém. Alguém lá fora, no meio daquele dia todo que começava era a razão, tinha a culpa, causou tudo isso e fez o sono conturbado, do sonho fez pesadelo noturno, da vontade fez o medo e desespero... fez do sorriso alguma coisa indefinida e desfigurada, perdido no meio do rosto. Sim, esse alguém faz desejar que o dia seguinte jamais chegue, que a noite nunca termine e que nada precise começar. Mas infelizmente o mundo não respeita esse tipo de desejo, ele não obedece a nossa vontade e então os dias sempre invadem seu quarto, derrubam a sua porta sem cerimonia e sem culpa, te jogam pra fora da cama, te arrastam pelo chão e o levam pra onde se tem que estar. Com certeza nenhum sorriso estaria no seu rosto, porque não havia nada nesse dia que pudesse fazer sorrir. Nada.
Andar pelas ruas tomando o mesmo caminho e vendo as mesmas pessoas de todos os dias com certeza daria a uma pessoa qualquer um falso sentimento de pertencimento, de bem estar ou qualquer coisa parecida. Mas nesse dia em especial esses sentimentos não vieram. Até apareceram, mas foram dispensados antes mesmo de tomarem conta do corpo e foram chutados pra bem longe, como inquilinos indesejados que há muito incomodavam. Viver parecia tão desnecessário naquele dia. Tentava esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado da rua e tomar outro caminho mais tranquilo e solitário, tentando da melhor maneira que podia evitar os olhares, os apertos de mãos e a fatídica pergunta "tudo bem?". Nada ia bem e era torturante dizer "sim, tudo indo bem... e com você?", no máximo dizia um manjado e sem vergonha "hummm... mais ou menos". Mas não conseguia sorrir. Isso nunca. Era impossível esboçar um sorriso quando nada ia bem e só quem conhecia ou realmente se importava perceberia. Mas essas pessoas que nos conhecem bem e se importam são raras hoje em dia e é tão incrível quando conseguimos garimpar uma por aí! Tais pessoas não estavam andando pelas ruas nesse dia ou tomaram caminhos diferentes ou também estavam escondendo os rostos daqueles que na verdade não estão se importando com você quando dizem "tudo bem?".
Depois de um caminho que parecia exageradamente maior que o de costume, chega onde deveria estar e nada é diferente, as mesmas coisas e pessoas. Mas então acontece, tão rápido como o sono que chega nas noites frias e tranquilas de outono e tão esperado como o calor depois de um dia frio, ou o frio depois de uma noite quente. Aquele alguém que tornou este dia tão difícil aparece bem na sua frente com passos tão decididos e um olhar tão próximo vindo na sua direção. Você não consegue esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado ou tomar outro caminho mais tranquilo e solitário. Você não consegue evitar o olhar que te convida pra um abraço e inevitavelmente você abre o primeiro sorriso do dia, o mais largo e sincero provocado sem querer, sem medo. Você simplesmente sorri e diz "sim, agora está tudo bem".

