terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sorrir

Às oito da manhã o relógio tocou. Era uma melodia tão gentil que parecia querer acalentar ainda mais o sono ao invés de tentar acordar. Às nove, ainda tentado não começar tudo outra vez, lá fora o som do dia já entrava timidamente pelas janelas e perturbava o sono. Não deveria estar ali deitado, era o que o barulho dos carros e das pessoas passando apressados lá fora gritavam. Mas dentro do quarto não foi permitido ao dia reinar. Ele, o dia, deveria ficar lá fora e existir apenas para as pessoas barulhentas e com motivos pra sair por aí fazendo o que sempre fazem, todo dia. Mas dentro do quarto, ali não, não nesse dia que é resultado de tudo o que aconteceu nos anteriores. Sim, os outros dias, aqueles em que parecia tudo tão certo e tão explícito, mas que de repente transformaram a vontade de começar a rotina em um asco para começar mais outra. Esse era um desses dias. Sem dúvida existia algo lá fora que amedrontava tanto que forçava a querer a segurança do quarto onde o tempo pudesse ficar esquecido, os compromissos cancelados e as necessidades fossem negligenciadas.

Não... não é algo. O que força o dia a ficar lá fora é alguém. Alguém lá fora, no meio daquele dia todo que começava era a razão, tinha a culpa, causou tudo isso e fez o sono conturbado, do sonho fez pesadelo noturno, da vontade fez o medo e desespero... fez do sorriso alguma coisa indefinida e desfigurada, perdido no meio do rosto. Sim, esse alguém faz desejar que o dia seguinte jamais chegue, que a noite nunca termine e que nada precise começar. Mas infelizmente o mundo não respeita esse tipo de desejo, ele não obedece a nossa vontade e então os dias sempre invadem seu quarto, derrubam a sua porta sem cerimonia e sem culpa, te jogam pra fora da cama, te arrastam pelo chão e o levam pra onde se tem que estar. Com certeza nenhum sorriso estaria no seu rosto, porque não havia nada nesse dia que pudesse fazer sorrir. Nada.

Andar pelas ruas tomando o mesmo caminho e vendo as mesmas pessoas de todos os dias com certeza daria a uma pessoa qualquer um falso sentimento de pertencimento, de bem estar ou qualquer coisa parecida. Mas nesse dia em especial esses sentimentos não vieram. Até apareceram, mas foram dispensados antes mesmo de tomarem conta do corpo e foram chutados pra bem longe, como inquilinos indesejados que há muito incomodavam. Viver parecia tão desnecessário naquele dia. Tentava esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado da rua e tomar outro caminho mais tranquilo e solitário, tentando da melhor maneira que podia evitar os olhares, os apertos de mãos e a fatídica pergunta "tudo bem?". Nada ia bem e era torturante dizer "sim, tudo indo bem... e com você?", no máximo dizia um manjado e sem vergonha "hummm... mais ou menos". Mas não conseguia sorrir. Isso nunca. Era impossível esboçar um sorriso quando nada ia bem e só quem conhecia ou realmente se importava perceberia. Mas essas pessoas que nos conhecem bem e se importam são raras hoje em dia e é tão incrível quando conseguimos garimpar uma por aí! Tais pessoas não estavam andando pelas ruas nesse dia ou tomaram caminhos diferentes ou também estavam escondendo os rostos daqueles que na verdade não estão se importando com você quando dizem "tudo bem?".

Depois de um caminho que parecia exageradamente maior que o de costume, chega onde deveria estar e nada é diferente, as mesmas coisas e pessoas. Mas então acontece, tão rápido como o sono que chega nas noites frias e tranquilas de outono e tão esperado como o calor depois de um dia frio, ou o frio depois de uma noite quente. Aquele alguém que tornou este dia tão difícil aparece bem na sua frente com passos tão decididos e um olhar tão próximo vindo na sua direção. Você não consegue esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado ou tomar outro caminho mais tranquilo e solitário. Você não consegue evitar o olhar que te convida pra um abraço e inevitavelmente você abre o primeiro sorriso do dia, o mais largo e sincero provocado sem querer, sem medo. Você simplesmente sorri e diz "sim, agora está tudo bem".

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Olhar

Fiquei parado na sua frente e não sabia se dizia alguma coisa ou te deixava sair. Tudo o que fiz foi te olhar, mas não como sempre olhava pra você, não com os mesmos olhos. Eram outros, que guardei comigo por muito tempo e esse olhar não perdeu sequer um pouco do brilho que teve desde o começo. A minha esperança é que meus olhos pudessem falar, que você pudesse entendê-los e que você pudesse olhar tudo aquilo que eu não fui e não sou capaz de te dizer. O meu maior medo é de o brilho não ser suficiente e eu ser obrigado a dizer exatamente as palavras que nunca puderam ganhar o ar e encontrar descanso em seus ouvidos. Mas não houve um dia em que eu não desejasse que você pudesse ouvi-las, para que eu pudesse então ouvir as suas. E agora penso que o meu desejo de te ouvir é mais urgente do que o meu desejo de ser ouvido.

Agora tudo o que quero é que você fique parado aí na minha frente e tente entender o que eu não consigo e não posso te dizer. Mas não fomos ensinados a ouvir o silêncio e não entendemos os olhares. E mesmo se soubéssemos essas coisas, ainda assim seria exigido dizer e mais ainda provar que tudo é verdade. Para o meu desespero, é exatamente isso que foge do meu controle. Seria tudo tão mais simples se você pudesse me entender, mas tudo o que ouço de você é um "não consigo entender porque você tá tão quieto". Mal consigo respirar quando escuto o seu "foi alguma coisa que eu fiz?". Como queria poder dizer "sim, a culpa é toda sua". Mas não posso, me falta ar. Não quero dizer coisa alguma pra você.

O que eu quero é que você estivesse aoi meu lada desde o começo, naquela tarde quente e apressada em que eu vi, pela primeira vez, a razão de todo esse silêncio. Queria que você soubesse, com apenas um ohar, toda a incrível admiração e desejo que sinto. E como quero que aquele dia fosse apagado, destruído ou ao menos esquecido como um sonho conturbado de uma longa e quente noite de sono. Essas coisas não são mais possíveis. 

Esse silêncio é enlouquecedor. E apesar de você ser o motivo da minha loucura, essa foi uma loucura que eu mesmo quis pra mim e não posso ser trancado num sanatório qualquer onde eu pudesse estar distante da minha humanidade, longe de toda vontade que sempre me quer levar de volta pra você. Você me fez prisioneiro, mas eu sou meu próprio carcereiro, meu próprio punidor e fui eu mesmo quem me algemou. Não há nenhuma vontade de fugir.

Ainda assim te deixo partir e espero pela mesma tarde quente e apressada em que você entenderá e assim eu poderei me libertar e finalmente dizer que você foi, é e sempre será o mais bonito e intenso motivo do meu sofrimento. Então continue parado aí enquanto me vê dizer "te amo".