terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O trem

―Olá. Importa-se se eu sentar aqui?
―Claro que não. O trem está lotado?
―Na verdade eu não olhei o trem todo. Esta é a primeira cabine que encontrei com um assento vazio. Mas se for um incomodo, eu procuro outro lugar.
―Imagina! Pode ficar a vontade.
―Obrigado. ... Você aceita? São morangos que eu mesmo plantei e colhi.
―Nossa, como são vermelhos! Você é agricultor ou algo assim?
―Morava num sítio. Coisa pequena, uns cinco alqueires. Agora estou justamente de mudança.
―Hum, esses morangos são deliciosos mesmo. Mas o que aconteceu? Não suportou mais morar por lá?
―Na verdade vou noivar. Pelo menos eu espero.
―Logo notei que alguém seria o motivo da mudança. É um buque de rosas vermelhas ali naquela sacola?
―É sim. Esse aqui é o anel que escolhi. E agora, reparando bem, você é uma mulher tão bonita quanto ela.
―Obrigada.
―Então pode me dar sua opinião? Acha que ela vai gostar do anel?
―É maravilhoso! Aposto que ela também vai gostar. A propósito, você está vindo de onde?
―Estou vindo da estação da cidade de Amizade. Conhece?
―Conheço sim. Sempre gostei muito daquele lugar.
―Pois bem, foi lá que conheci minha garota. Mas fiquei por aquelas bandas por muito tempo, tanto que nem tenho a conta. Aquele lugar fica tão irritante depois de uns tempos, mas eu não pude fazer muita coisa. No começo minha garota também gostava de lá, então eu precisei esperar a vontade dela de sair daquela cidade. Um dia, sem mais nem menos, ela sumiu. Foi embora sem mim. Descobri que ela tinha pegado este trem e debandado pra estação de Amor, uma cidadezinha que nunca conheci, e agora eu estou indo pra lá procurar por ela e dizer o que eu sempre senti. Você conhece essa cidade?
―Também a conheço.
―Pela expressão no seu rosto, parece que não gostou muito de lá.
―É sim. Bom... no começo achei o lugar incrível. É uma cidade bem pequena, não moram muitas pessoas por lá. Mas como ia dizendo, no começo era o lugar mais lindo que tinha conhecido. Acordava com o Sol no meu rosto todos os dias e o tempo todo uma brisa fresca soprava em todo lugar que eu ia. Aquelas casinhas antigas, todas branquinhas, as pessoas sorrindo da janela sempre que diziam um olá para mim. Até hoje não consigo esquecer o perfume daquele lugar. É difícil descrever. É um perfume que enche as narinas com um aroma morno, doce e irresistível.
―E por que, ainda assim, saiu de lá sem gostar da cidade?
―É que apesar de ser um lugar inacreditavelmente lindo e acolhedor, lá o tempo passa como em todos os outros lugares e ele é tão implacável como em qualquer outra cidade. Depois de alguns anos morando por lá parecia que meu coração já não batia no mesmo ritmo de antes e, como quando o corpo rejeita um órgão recém transplantado - mesmo sabendo que daquilo depende sua vida - meu corpo passou a rejeitar aquele lugar. Então não queria mais acordar lá, a brisa se tornou um vento frio, não suportava mais a brancura das casas velhas e aqueles sorrisos pareciam forçados para mim. Já o perfume continuava o mesmo e era a única coisa que me prendia lá. Mas depois de um tempo já não valia mais a pena e então fui embora.
―Que triste. E para onde você foi depois disso?
―Fui para Solidão. É bem longe de Amor e não é um lugar tão incrível assim, mas aquela cidade me deu espaço pra respirar e colocar algumas coisas no lugar. É da estação de Solidão que peguei este trem.
―Senti a mesma coisa em Amizade. Depois de um tempo meu corpo passou a rejeitar aquele lugar, como aconteceu a você em Amor.
―Amor e Amizade são cidades bem parecidas, para dizer a verdade. Mas Amizade não tem aquele perfume doce e que no final faz toda a diferença. É... acho que é isso mesmo. É o perfume que faz toda a diferença. Acho que, como eu, você não vai esquecer aquele perfume.
―Só irei descobrir quando chegar lá.
―Mas é bem assim. A gente só sabe quando conhece Amor. Só de falar não faz sentido, tem que conhecer mesmo.
―Espero que sim.
―Mas e se não encontrar sua garota por lá?
―Tenho certeza que ela foi parar lá. Ela ouviu sobre as coisas de Amor e não falava de outro lugar nos últimos tempos. Quando ela sumiu, tive certeza de que era para lá que foi. Ela sempre foi muito sonhadora, sabe?
―E por que você não pediu a mão dela em Amizade, antes de ela partir?
―Não sei. Às vezes achava que Amizade era o lugar perfeito para nós dois. Só nos últimos tempos, quando minha garota não parava de falar de Amor, foi que cansei daquele lugar. Apesar de sempre ter gostado da minha garota, nunca tive coragem de dizer o que sinto por ela. Acho que a culpa é do lugar. Não sei explicar, mas eu me sentia mais seguro em Amizade e, como minha garota sempre esteve por lá, não me incomodava com a cidade.
―Entendo. Amizade é um lugar que faz esse tipo de coisa com a gente. Talvez em Amor, com aquele perfume inesquecível, você crie a coragem para dizer todas essas coisas que você sente.
―Vou sim. Foi falta minha não ter dito antes. Só quando soube que minha garota não queria mais estar em Amizade, que ela queria viver em Amor, foi que percebi o quanto sempre detestei aquele lugar. Agora espero encontrá-la e pedir a mão dela em casamento.
―E você não tem medo de que ela tenha ido com outro homem para lá?
―Não. Ela não... Por que ela faria isso?
―Bem. Ela nunca soube, por falta sua, que você gostava dela. Talvez ela tenha ido à Amor para encontrar um outro homem que possa dizer as coisas que sente.
―Isso não pode ser. Como ela faria isso comigo?
―Sabe como as pessoas são. Elas, por mais que esteja estampado na nossa cara o que sentimos, ainda assim exigem que a gente fale e prove que aquilo é verdade.
―Mas e agora? Não sei o que pensar direito? E se ela encontrar esse outro homem antes de eu poder lhe dizer a verdade?
―Acho que é melhor você tentar encontrá-la e ver em que as coisas vão dar. No seu lugar eu faria a mesma coisa. Bom, para falar a verdade eu fiz a mesma coisa que você tempos atrás e fui à busca de um homem que ainda não tinha conhecido. Como a sua garota, eu também era muito sonhadora. Para mim ele podia estar em qualquer lugar e eu o procurei em muitas cidades, viajando neste mesmo trem, e por fim acabei encontrando ele em Amor. Ele era o homem que eu sempre quis ter conhecido e como fui feliz. Também não tive coragem de dizer o que sentia e também acho que ele não gostava muito daquela cidade porque um dia ele foi embora e eu não tive a chance de dizer o que sinto. Mas como eu disse a você, a gente só pode saber quando conhece Amor. Não posso garantir que vá conseguir encontrar sua garota por lá e nem que ela esteja sozinha, mas com certeza vale a tentativa.
―Agora você está indo atrás desse homem pra dizer o que sente por ele?
―Não mais. Eu já o procurei em muitos lugares. Fico feliz apenas de saber que eu o encontrei, de saber que ele existe e está por aí. Mas alimento a esperança de que um dia nós dois nos encontraremos em algum outro lugar. Sabe como as coisas são: quando procuramos, perdemos, e quando paramos de procurar, encontramos. Além do mais, esse é o único trem por essas bandas e com certeza, num dia qualquer e sem esperar, nós dois vamos subir nesse mesmo trem e seguir pro mesmo lugar.
―Espero que você o encontre.
―Eu também espero que você consiga dizer o que sente para sua garota. E olha só como o tempo é implacável, mesmo dentro deste trem. Veja! Já chegamos à estação da cidade de Amor. E sinta o perfume! Ele me traz muitas lembranças, doces momentos. Posso até ouvir os sinos da igrejinha tocando lá longe.
―Não quer descer aqui também? Talvez seu homem esteja por aqui.
―Não vou descer. Como disse, eu não o estou procurando. Vou descer em outra estação. Mas boa sorte para você. Desejo que seu coração encontre o ritmo desse lugar, assim como o meu um dia encontrou, mas perdeu.
―Então me dê um abraço. Foi incrível te conhecer e conversar com você. Não sei explicar... parece que alguma coisa mudou, mas tudo continua como antes. Sinto que quero te encontrar outra vez, em outro lugar que não tenha tantas lembranças como este.
―Digo o mesmo. Só não esqueça que Amor não é a única cidade que este trem visita. Depois de um tempo esse lugar nos faz pensar isso, então nós nunca desejamos ir embora. Amor prende as pessoas que nela se perdem, portanto tome cuidado. Se não encontrar aqui o que procura, como um dia eu encontrei e perdi, lembre-se que existem outros lugares para ir e a que este mesmo trem pode levar.
―Obrigado pelo aviso. Mas a propósito, para onde você está indo agora?
―É uma estação depois da estação de Amor. Chama-se Realidade. Espero poder encontrar outra vez meu ritmo nesta nova cidade. Agora, adeus e até outra viagem!
―Adeus! E boa sorte no caminho à frente.
―O mesmo para você. Mas... veja! Você está esquecendo o buque da sua garota.
―Rosas são presentes para mulheres, então pode ficar com elas. Será uma boa lembrança e o perfume é bem parecido com o deste lugar. Espero poder te encontrar neste mesmo trem um dia.

E com um sorriso discreto e escondido no meio de seu rosto, ele passou pela porta e desceu na estação. Um letreiro ao alto indicava o destino em letras exageradamente vermelhas: Estação da Cidade de Amor. O perfume era realmente incrível.

Ela olhava para o mesmo letreiro, com o destino que um dia também foi o seu, e sentia o perfume das flores exageradamente vermelhas que descansavam em seu colo. E agora o aroma trazia com ele uma nova, doce e incrível lembrança.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Presente

Como é difícil encarar o fato de que você nunca esteve aqui. Você foi embora e nem me deu ao menos a chance de saber o seu nome, de conhecer o seu rosto, de saber dos seus gostos e das coisas que você odeia. Não me deram a mínima chance de conhecer seu endereço, de saber dos seus medos, qual o seu prato favorito, se gosta da manhã, da tarde ou da noite. Eu não conheço o seu time, os empregos que você teve, se você gosta de andar de carro ou a pé. Não sei qual a sua estação favorita, o dia do seu aniversário e nem quantos anos você tem agora. Mas acho que não me importaria de saber todas essas coisas se ao menos eu soubesse o motivo de você nunca ter estado aqui do meu lado. Adoraria saber, mesmo se fosse um motivo bobo ou se fossem aquelas coisas pequenas as quais os adultos dão importância demais. Adoraria saber que a culpa não foi minha, mesmo que eu não pudesse fazer coisa alguma naquela época. Queria que fosse um mal entendido, uma brincadeira de mal gosto ou um dia ruim. Mas o que eu tenho é nada. Nenhum nome e nenhum motivo. Apensa silêncio e um vazio.

Como é difícil esperar por alguém que nem ao menos tem um rosto, que é apenas uma idéia. É como se  fosse uma tela em branco que eu pudesse pintar com as cores que eu quiser, fazendo os traços da minha maneira e preenchendo os espaços vazios com um pouco dos sonhos e das expectativas que tive em noites longas demais. Isso é muito perigoso e tenho medo de o meu quadro não ser nada como realmente você é. Com certeza não é. Mas apesar disso é engraçado as coisas serem desse jeito porque aqui dentro, onde tudo é possível, você pode ser um tanto mais alto e em outros momentos um tanto baixinho. Às vezes você têm bigodes e às vezes é careca. Um senhor azedo sentado num banco de praça, ou um jovem sonhador demais. Rico, ou pobre. Cheio de amigos, ou sozinho. Um homem íntegro, um malandro. E me perco muitas vezes montando um quebra cabeças que sempre tem um resultado diferente, que sempre tem peças faltando, sempre com espaços vazios.

Quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho de altura, subia no galho mais alto da árvore mais alta onde eu pudesse ver o horizonte e tentava encontrar ao menos a direção que você tomou há tanto tempo. Aquilo era incrivelmente divertido pra mim. Não sentia medo, por mais alto que eu estivesse ou por mais distante que você estivesse. Não sabia me sentir triste por você não estar lá e não saber que direção você tomou, talvez porque não me ensinaram que a sua ausência fosse algo triste ou inaceitável. Na verdade me parecia que era uma coisa comum você não estar ali, como se acontecesse com todo mundo, e com pouco mais de um metro e pouquinho a sua ausência não doía. E além do mais, naquele tempo, pra mim você poderia ter ido em direção a uma aventura. Talvez você fosse um pirata, ou um homem de negócios. Poderia ser um bombeiro ou um detetive. Você podia ser aqueles homens que buscam ruínas no meio de grandes florestas, podia ser um médico nos campos de batalha espalhados pelo mundo. Você podia ser qualquer coisa. E você era tudo, inclusive o vazio. Talvez esse seja o único grande presente que você tenha me dado porque lá em cima, no último galho, a imaginação ficava mais perto do céu, mais perto dos ventos que desciam até onde eu estava e levavam as grandes idéias pra bem longe, talvez pra mais perto de você. Eu enchia o vento com bons e incríveis pensamentos só sobre você. Ficava muito feliz quando percebia que todo mundo tinha pessoas que eram apenas uma coisa só na vida, enquanto que eu tinha alguém que era tudo. Eu sempre tentei te fazer presente, mesmo sendo um grande vazio. Você era um segredo, ninguém podia saber que você existia aqui dentro de mim fazendo coisas inacreditáveis mundo afora. Parecia que a sua partida incomodava mais as pessoas a minha volta do que a mim mesmo, então por isso te escondia em cima daquela árvore.

Naquele tempo jamais passou pela minha cabeça despreocupada o quanto seria doloroso o vazio que, por descuido ou egoísmo, você deixou. E agora me pergunto o que faria se você me aparecesse e abraçasse e dissesse olhando nos olhos que sentiu a minha falta, que teve saudade de alguém que você nunca conheceu. Talvez eu falasse de todas as coisas que você perdeu, de todos os anos que saíram voando por aí e eu nem percebi. Falaria dos primeiros passos, do primeiro dente a crescer e a cair. Da primeira professora, do primeiro amigo, da primeira surra, da última despedida. Da primeira bronca e da última cintada. Do primeiro amor, da primeira briga, da primeira desilusão. Do primeiro porre, da primeira burrada, do último lugar em que estive.  Falaria do primeiro e do último sonho. Talvez te falasse de todas as coisas que você era e fazia quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho. Talvez quisesse apenas te ouvir ou talvez simplesmente pedisse pra você ir embora. Não sei se diria que você perdeu tempo demais porque na verdade não existiu tempo pra nós dois. Nunca senti a sua falta e só hoje percebi o porque. Os espaços que eram para serem seus foram preenchidos por outras pessoas tão incríveis quanto as coisas que escondi no galho mais alto da árvore mais alta. Essas pessoas fizeram apenas uma coisa que eu não consegui imaginar pra você: elas cuidaram de mim. E hoje não sobrou nada de mim pra você. Não há espaço, está tudo preenchido. Não perdemos tempo, mas nós nos perdemos e agora é tarde demais. Tempo é tudo o que não tivemos.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Medo

Eu comecei, por medo de terminar.
Me escondi, por medo de ficar sozinho.
Insisti, por medo de desistir.
Eu joguei, por medo de perder.
Saí por aí, por medo de ficar.
Eu sorri, por medo de chorar.
Agora eu sou, por causa do medo de estar.
E foi pelo medo de fazer sentido que eu escrevo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Janela

Agora penso em você com mais frequência do que pensava antes de você partir. Às vezes tenho que me esforçar pra lembrar que você foi pra não voltar mais, e às vezes tenho que me convencer de que fui eu quem deixou você ir. Não tenho certeza se foi imprudência minha permitir você passar por aquela porta. Não tenho certeza se eu deveria ter dito alguma coisa que pudesse te trazer de volta. Não tenho certeza se deveria ter me escondido tanto do mundo, fechado todas as minhas portas e todas as minhas janelas, se deveria ter expulsado todos que tentaram entrar outra vez na minha vida desde que você se foi. A verdade é que eu tenho tentado te deixar partir da minha mente, assim como você fez quando saiu por aquela porta. Parece que aqui dentro você insiste em ficar.

É engraçado como a gente tenta consertar as coisas dentro da nossa mente. Lá dentro, escondida de todos os nossos erros, a vida encontra um caminho mais seguro e não se desvia das pequenas coisas que não prestamos muita atenção. Mas isso só acontece depois que tudo já foi perdido, como agora. E parando pra pensar, existiram tantos pequenos detalhes que simplesmente ficaram fora das nossas prioridades, tantos sonhos e expectativas que nunca conseguiram ganhar o mundo e foram condenadas a me assombrar pelo resto dos meus dias, desde o momento em que você saiu por aquela porta. Mas é imprudência achar que tudo pode tomar um caminho diferente se tivéssemos prestado mais atenção a essas pequeninas coisas que ficaram pelo caminho, e é idiotice achar que se pode retomar o passado e continuar com as coisas boas que existiram. De qualquer maneira, não é possível retomar o passado a não ser aqui dentro, onde todos os dias são nublados e todas as janelas estão fechadas pro mundo lá fora. E acho que é nessas horas que precisamos nos esforçar e lembrar que o passado também é feito de momentos ruins, aqueles em que você ficou sozinho quando queria companhia, ou chorou quando queria ser consolado, ou simplesmente foi embora quando queria ter ficado.

Você foi embora, mas deixou seu coração preso ao parapeito da janela. E agora, toda vez que tento abri-la lá está ele, batendo e sangrando, tirando minha atenção do que acontece lá fora. Me perco tentando entender como ele foi parar lá, porque ele ficou ali enquanto você ficava cada vez mais longe de todo nosso passado. Mas talvez a culpa não seja sua. Você sempre foi tão prudente e cuidadosa com tudo. Já eu não era. Sempre desastrado, sempre deixando tudo pro tempo resolver enquanto esquecia que o tempo não sabe o que fazer com as coisas que deixamos pra trás. O tempo apenas assiste a tudo e não se preocupa com as coisas que tiram o nosso sono. Eu te deixei pra trás na esperança de que dessa vez o tempo pudesse abrir uma exceção, que tivesse piedade de mim e que mantivesse o passado intocável e indolor. Exigi que o tempo apagasse você, como quando erramos um traço do desenho que não saía como imaginamos. E é claro que isso não aconteceu. O traço permaneceu e o desenho ficou preso a janela e me atormentou desde o momento em que você passou por aquela porta.

Mas não fiquei pensando isso o tempo todo, porque é impossível estar na companhia da tristeza por tanto tempo. Em algum momento ela se cansa da gente e vai embora. Também é impossível sentir saudade do mesmo passado o tempo todo e, quando parei de tentar entender porque você partiu e de quem foi a culpa, percebi que nada do que eu fizesse ou pensasse poderia mudar todas essas pequenas coisas. Eu não poderia te impedir se você decidiu ir embora. Não poderia te fazer me amar se você escolheu o contrário. Não poderia mudar nada que já tivesse sido feito, pois nenhum erro, pequeno ou grande, poderia ter um outro fim. Quando você saiu por aquela porta, saiu já sem nenhum amor, mas eu tive que aprender a deixar de te amar. E isso leva muito tempo.

Então levei o tempo que precisei levar, colocando as coisas no lugar, peça por peça, até que tudo tivesse encontrado seu caminho. E por último deixei seu coração, que até então estava preso a janela. Naquele momento percebi que fui eu quem o deixou ali, fui eu quem quis sofrer daquele jeito e quis que o mundo visse o meu sofrimento aqui do lado de dentro. Então, tomando fôlego, o peguei em minhas mãos com um pouco de medo, confesso, medo de ser afetado por ele, mas não fui. Então, cheio de esperança, o dobrei várias vezes e escrevi um recado em uma de suas asas. Joguei janela afora e tão rápido ele ganhou o céu que depois de um tempo não pude mais vê-lo. E agora espero pacientemente que ele chegue até seu destino para que você leia, em uma de suas asas, o pequeno recado com os dizeres: "Por favor, não volte mais".

E agora, na esperança de que alguma brisa renove o ar que ficou preso aqui dentro por tanto tempo, eu deixo a janela aberta.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O jardim

Vinha caminhando pela rua, sua mãe logo atrás como que assistindo cada passo que dava. O Sol parecia mais quente e os passos mais conscientes; todo o resto era mais vibrante. De alguma maneira fazer aquilo parecia novo para ele: um pé, depois o outro, cuidado com as irregularidades da calçada, olhar para os lados, atravessar a rua. De alguma maneira ele era uma pessoa nova.

Descendo a ladeira, rapidamente reparou um louquinho que subia a rua, vindo na sua direção, cumprimentando compulsivamente cada pessoa em seu caminho. A essa medida o louco estava tão perto que seria impossível mudar o rumo, voltar para trás ou atravessar a rua. O louquinho se aproximava, apertando mãos alheias; algumas correspondiam, outras nem tanto, outras o ignoravam. Um frio perpassou o corpo, aquele louquinho com certeza o cumprimentaria, apertaria sua mão e repetiria o mesmo “cê tá bom?”. O frio transformou-se em medo e o louco estava a alguns passos de distância. Agora era impossível qualquer evasão, pois o louco estava logo a sua frente. O louco estendeu a mão, fixou o olhar, um olhar perdido e desvairado, e pronunciou as mesmas três palavras que havia repetido umas sete vezes pelo caminho. A respiração parou, suas mãos começaram a suar. Não sabia como reagir. O louquinho repetiu: “cê tá bom, bom, cê tá bom?”.

Meio encabulado, ele cumprimentou o louquinho e com um sorriso perguntou: “E como você está?”. O louquinho respondeu “bom tamém!” e esboçou algo parecido com um sorriso. Despediram-se e o louquinho foi em direção à mãe, que com um sutil desvio de olhar, passou direto pelo louquinho e segurou firmemente o braço do filho. O louquinho pareceu não se importar e continuou seu caminho, cumprimentando todas as outras pessoas que caminhavam por ali. A mãe continuou a segurar o braço do filho e ele não protestou nem estranhou o repentino contato. Tudo lhe foi tirado quando estava naquele cubículo da melhor "casa de repouso" daquele lado do país e agora tudo o que pensava era em ter uma vida, a vida que nunca teve, a vida que nunca o permitiram ter.

Dois meses passaram tão rápido depois de ter saído da casa de repouso e da ilustre bondade dos homens de branco que lá cuidavam dele. Durante este tempo ele tentou construir por si mesmo algo que pudesse lhe dar felicidade. A primeira coisa que fez foi deixar o emprego, tinha dinheiro e tempo para decidir como conduzir a própria vida. Ignorou todas as reclamações da mãe, que agora não eram tão mais cortantes como antes, na verdade ele nem dava mais ouvidos a elas. Deixou a casa da mãe em seguida e comprou uma pequena fazenda distante da cidade, e ele próprio construiu o imenso jardim que ocupava a maior parte da propriedade. Ele plantou cada jabuticabeira, cada árvore, cada flor, cada fonte de água. Ali, distante de tudo, distante de todos, ele plantou sozinho a própria vida. Não havia a interferência de ninguém, e estava completamente seguro de tudo. Não havia mais medo nem repressão, mais ninguém pra cobrar coisas, ninguém mais pra dizer que futuro deveria escolher ou com quem deveria se parecer, quem deveria ser seu herói, seu espelho. Sua vida se esvaziou de tudo aquilo e encheu-se de Sol, de jabuticabas... adorava jabuticabas.

A mãe foi visitá-lo algumas poucas vezes, e com o tempo ela própria desistiu de fazer o filho desistir de toda aquela bobageira. Ele não cederia, nem pelo melhor futuro pré-programado. Aos poucos ela percebeu o quanto o filho tinha certeza daquilo tudo, e aos poucos a vida dela própria encheu-se de Sol, de jabuticabas e de flores. Alguma coisa naquele jardim invadiu seu interior, antes intransponível, e nela germinou coisas que nunca antes ela havia deixado crescer. E é claro que ela nunca percebeu que algo estava crescendo dentro dela, o filho nunca esperou que ela fosse notar que ela também havia mudado, assim como também ele mudou. Talvez fosse melhor assim. E ele pensou em como seria bom se as pessoas pudessem transformar a si mesma e as coisas ao seu redor, ou pelo menos passassem a enxergar o mundo de uma forma diferente sem precisarem de um cubículo, de banhos gelados ou de um jardim. Mas logo afastou este pensamento. Imaginar um mundo assim seria loucura.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um outro lugar

Não era possível saber quanto tempo ficou ali. Talvez já tivessem passado duas semanas, ou dois meses, não sabia. Depois de um tempo não se preocupava mais com isso. O cubículo havia tirado tudo dele, a humanidade, a vontade e agora ele era o que sempre disseram que era: nada. Não sabia dizer se tinha vontade de sair daquele lugar, se iria sair, procurava não manter esperanças. Tudo o conseguia fazer era ficar deitado horas naquele pedaço de colchão, absolutamente imóvel. Suas forças já não eram mais usadas, não gritava nem se debatia quando queria e mesmo se queria, mesmo quando batiam nele sem motivo. Para ele, tudo não tinha sentido.

Naquela manhã, ou tarde, ou noite, os homens de branco entraram em seu quarto. O levaram ao banheiro, ou o que quer que fosse, mas ele não reagiu, não podia. O banho frio, a insuportável água sempre gelada e alheia aos seus gritos. Não precisava mais de amarras, porque não queria contrariar os homens de branco, mesmo que preferisse apanhar de porrete. Depois de quase se afogar, vestiram-no, uma roupa diferente do pano que costumava usar. Não se impressionou. Ao invés de o levarem de volta para o seu cubículo, os homens de branco tomaram outro rumo. Através de um imenso corredor conseguia ver o lado de fora pelas janelas. Quis sorrir, mas não conseguiu. Era dia, talvez uma linda manhã de outono. No final do corredor havia uma porta aberta, e nesta altura apenas um homem de branco o acompanhava. A porta foi aberta e depois de um tempo, que não pôde ser contado, estava do lado de fora.

A claridade o cegou por alguns instantes. Após alguns segundos conseguiu divisar um lindo jardim. Jamais conseguiria imaginar um jardim num lugar tão maldito. O homem de branco, o que geralmente o batia mais forte com o porrete, agora parecia impossivelmente gentil. Mas não ligava para isso, queria sentir a grama sob os pés, ouvir os pássaros cantarem, ver um mundo que havia sumido de seus olhos e de suas lembranças há muito tempo. Num banco distante, uma distinta senhora estava sentada. O homem de branco o levou até ela e logo em seguida se retirou. Reconheceu a senhora que tentava se manter alheia a todos os louquinhos que perambulavam pelo jardim. Era sua mãe. Ela parecia tão diferente da mulher que ele sempre conheceu, mas não se impressionou com isso, não podia.

Ele sentou-se ao lado dela e não falou. Sua mãe também permaneceu em silêncio e muitos minutos se passaram assim, sem se olharem. “O médico disse que você teve uma recuperação muito rápida”, disse a mãe, com uma doçura que não lhe era típica. “Graças a Deus encontrei este lugar para você, é o melhor de todos, veja este recorte”, ela abriu a bolsa e tirou uma pequena revista que parecia meio gasta, talvez de tanto ser lida, e datava três de julho de 1972, e na capa a foto do jardim em que se encontrava com os dizeres “Excelência no tratamento de demências”. Devolveu a revista à mãe, “Ainda mês passado receberam um prêmio”, retorquiu ela enquanto ele voltava a admirar o jardim, as rosas, os botões de cravos, queria deitar sobre uma jabuticabeira e beber a água que escorria numa fontezinha ali perto. “Se está preocupado com os boatos sobre o seu estado, fique tranquilo, eu disse para todos que você precisou se ausentar para se especializar em outro país, todos acreditaram. Ainda bem que a primeira coisa que fiz foi te mandar pra esta ‘casa de repouso’. Ninguém desconfiará que você perdeu o juízo”. A habitual frieza da mãe havia voltado.

Naquele momento não se importava mais com o que a mãe dizia, estava tão extasiado com o jardim, tão fascinado que as palavras dela voavam com a brisa que passava por entre os dois. “O médico disse que você pode ter alta a qualquer momento, pois se recuperou como o esperado”, ainda completou, como que esperando uma reação do filho. “Você parece tão melhor!”, quando a mãe disse isso ele se virou rapidamente para fitá-la. A mãe se assustou, achando que ele fosse reagir como fez antes de ela interná-lo. Ele não fez nada, apenas sorriu. “Acho que deixarei você aqui mais alguns dias, já que parece gostar daqui, e quando sair...” Neste momento a mãe não soube como completar a frase. Nunca em sua vida planejou alguma coisa com o filho. Tudo o que fez foi... Ela nunca fez coisa alguma com ele. Sentiu-se encabulada, então levantou: “Espero que esteja ainda melhor quando voltar para te buscar”, disse com a mesma dureza que sempre lhe foi particular, a doçura havia sumido sem deixar qualquer rastro. Ainda assim ele não esboçou qualquer reação. Ele se levantou, olhou para a mãe e estendeu a mão. “Até mais tarde” ele disse. A mãe não conseguiu esconder o incômodo, mas apertou a mão do filho, mesmo porque jamais teve coragem ou vontade de abraçá-lo, mesmo que fosse a coisa certa a se fazer naquele momento, ou em todos os outros momentos da vida dos dois. Virou-se sem se despedir e o filho ficou olhando por um tempo até ela desaparecer dentro do prédio. Ela sentiu o olhar do filho a cada passo que dava.

Ele aproveitou cada momento que passou naquele jardim. Colheu jabuticabas e as comeu, nunca havia comido jabuticabas. E como o gosto era maravilhoso. Colheu cada flor, explorou cada canto. Molhou o rosto na fonte com água fresca e sentiu-se novo. Um homem de branco veio em sua direção, mas não se assustou. Pegou-o pelo braço e com a mesma rudeza de sempre o levou através do jardim, através do corredor, e esperou que fosse entrar no cubículo novamente, mas dessa vez o levaram para um quarto de verdade, com todas as coisas que um quarto deveria ter. Depois que o homem de branco saiu, sentou-se perto da janela e continuou a passear com o olhar pelo jardim, a colher as flores, a comer jabuticabas.

Estava fora do cubículo, ninguém mais o batia, sem mais banhos frios. Ainda assim não gostaria de passar o resto da vida naquele lugar. Agora conseguia desejar, e queria uma vida pra ele. Não uma vida melhor, porque ele nunca teve uma vida. Iria viver a partir de agora. Sua mãe, como disse, voltou para tirá-lo de lá. Como não trouxe coisa alguma, apenas a roupa do corpo, saiu sem nada. Sua mãe trouxe outras roupas. Assinado alguns papéis, saíram do maldito prédio e entraram no carro, onde o motorista olhava estranhamente para os dois. Não ligava. A certa altura da viagem a mãe pediu para que o motorista parasse o veículo. A mãe e o filho desceram do carro e surpreendentemente ela propôs uma ‘saudável caminhada’ pela cidade. Então caminharam, mas não lado a lado. Ele ia a frente, enquanto a mãe ia logo atrás. Mas ele não se importava.

sábado, 5 de novembro de 2011

As algemas

Estava escuro, devia ser noite. Abriu os olhos e estava num quarto, pelo menos era o que parecia. Havia um colchão jogado num canto, uma pequena janela com grades e apenas isso. Não havia cobertores, apenas frio. Desesperado, tentou de várias maneiras sair dali. Gritando, se debatendo contra as paredes, jogando as poucas coisas que haviam por ali. Depois de várias tentativas aqueles homens de branco invadiram o cubículo e bateram com pedaços de pau, seguraram firmemente até ele não conseguir mais se mover e então uma picada. Apagou. Não sonhou com muitas coisas, apenas escuridão, vazio, medo.

Quando acordou, havia alguém no cubículo, um homem de branco com comida. Estava com fome, mas a comida não tinha gosto, não tinha vontade de comê-la, mas estava com fome. Comeu o mais rápido que pôde para não sentir nojo, precisava comer. Lambuzou-se todo, perdendo todos os modos que sua mãe lhe ensinara debaixo de muitos tapas e maldizeres. Ao ver a porta aberta quis fugir. Tentou, mas os homens de branco eram mais rápidos, mais espertos, mais inumanos.

Durante vários dias a única coisa que conheceu foi aquele cubículo e os homens de branco. Não queria falar com ninguém, na verdade não podia, não conseguia, pois algo o impedia. Passava o tempo olhando o mesmo ponto. Fazia tudo nas calças. O mundo se resumia àquele cubículo, e nada mais. Por isso sentia aquela necessidade de gritar, bater, derrubar, cuspir pra então os homens de branco virem e apagá-lo. Preferia assim, pois não conseguia dormir. A única coisa de que tinha certeza era de que aquele não era o seu lugar. Tudo era vazio e desconhecido. Agora até preferia estar com a mãe, ouvir suas indelicadezas, queria ouvir o chefe gritar com ele, queria por o mesmo terno todos os dias. Ali não podia fazer coisa alguma, tudo fugia de seu controle.

Havia dias em que os homens de branco o tiravam de seu cubículo e o levavam para um banheiro, ou algo parecido com um. Amarravam suas mãos e ele não podia se mover. Sem roupas, uma torrente de água muito fria caía de um cano na parede. Gritava, afogava-se. Em outros dias ligavam-no a fios e sentia uma corrente passar por todo o seu corpo, que ficava rígido. Depois destes cuidados não conseguia se mover, não conseguia pensar, não conseguia ver nem sentir coisa alguma. Alternavam-se dias de lucidez e de escuridão. Havia momentos em que preferia ser apagado. Não tentava mais fugir, nem reagir. Apenas obedecia, agia como os homens de branco queriam que agisse. Sentia-se como se estivesse vestindo o terno de todas as manhãs.

No cubículo não existia tempo, não existiam dias nem noites. Isso era enlouquecedor. Mas já tinha aprendido que não podia gritar, mesmo se a vontade fosse maior que suas forças. Não podia bater, cuspir, xingar... Se essas coisas todas fossem feitas os homens de branco com certeza bateriam nele novamente, o xingariam novamente, gritariam com ele. Agora se limitava a comer, e deitar-se. Depois de algumas semanas já havia se esquecido de como era estar sob o Sol da manhã e ouvir os pássaros cantarem. Já havia esquecido do orvalho, da chuva e das nuvens que imitavam todas as coisas do mundo. Porém não podia sentir falta disso, porque sua vida medíocre se limitava ao escritório e almoçar e jantar com a mãe. Mas ali não podia gritar, não podia ficar com raiva, não podia porque doía. E como odiava os banhos frios, mais do que apanhar. Mesmo assim tinha vontade de Sol, de chuva e de orvalho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A quebra

O despertador tocou, eram seis e meia da manhã. Olhou por algum tempo o teto, talvez com a esperança de que o dia não precisasse começar ou que ele não precisasse ir trabalhar. Porém isso não aconteceu. Levantou, tomou banho, colocou o terno, amarrou a gravata, tudo muito sistemático. E depois de alguns anos isso se tornara tão inconsciente pra ele, tão fora de sua vontade e automatizado que nem percebia que estava tudo errado, com o cabelo mal penteado, o terno amarrotado e a gravata fora de linha. Então agarrou a maleta, ajeitou os óculos e ajeitou a gravata pela última vez. Comeu qualquer coisa e saiu antes que alguém resolvesse reclamar que estava todo desleixado.

No carro, o rádio ligado com as notícias da manhã e lá fora estava insuportavelmente quente. Não se impressionava mais com o monte de asneiras que o radialista comentava entre uma notícia e outra, o mais eram os mesmos acidentes, as mesmas mortes, os mesmos roubos, o mesmo congestionamento. Como a cidade havia mudado naquelas poucas décadas. Trânsito parado e nada mais a se fazer, mas ainda bem que acordou mais cedo. O barulho das buzinas era tão alto que ultrapassavam o vidro do sedan. Seus dias sempre começavam assim.

Quando chegou ao escritório sua secretária já o abordava, ditando todos os compromissos do dia que mal acabara de começar. Ele a ouvia e ao mesmo tempo a ignorava. Aliás, ele era assim com todas as pessoas com quem conversava. Ele era uma presença ausente. Finalmente sentou em sua cadeira e puxou para si a imensa pilha de processos que deveriam ser analisados, carimbados e encaminhados até o fim do dia. E a cada amontoado de papéis grampeados ele repassava cada momento passado na faculdade de advocacia. Ele nunca soube ao certo porque quis ser advogado, na verdade ele nem queria esta profissão. “A profissão é quem escolheu você”, repetia várias vezes sua mãe com o mesmo olhar implacável e ela fazia questão de lembrá-lo da tradição familiar de advogados respeitáveis. Seus avós, seus tios e primos eram advogados, todos tinham um nome e um escritório próprio. Ele foi o único que quis trabalhar como servidor público, na verdade fora a única coisa que conseguira. E o barulho das máquinas de escrever era tão insuportável quanto o das buzinas no trânsito.

Como não gostava da profissão que o escolheu, tudo que fazia parecia insuficiente. Insuficiente para o chefe, para a mãe e especialmente para ele próprio. Tudo o que fazia naquele escritório com cheiro de naftalina carecia de sentido para ele, assim como também sua vida não possuía sentido algum. Parecia destinado àquilo, e realmente nunca almejara qualquer outro emprego; a única coisa que vinha a sua lembrança era ter de ser advogado. Não quis ser astronauta, muito menos bombeiro, não teve tempo pra isso, pois só conhecera a advocacia e a advocacia o escolhera, como repetia sua mãe todos os dias. Seu pai foi um dos advogados mais renomados do país, e foi porque não é mais. Morreu há uns vinte anos. As lembranças do pai não eram muitas, a única coisa que fortemente lembrava era de sua mãe dizendo: “Você tem de ser igual ao seu pai, ser um advogado melhor do que ele, o que eu acho muito difícil”.

Como queria que o tempo passasse depressa, mas o tempo nunca o obedecia. Os minutos iam se arrastando junto com cada folha de processo lido, com cada carimbo, cada assinatura. A hora do almoço não chegava. O telefone tocava a cada dez minutos. Era seu chefe, que das férias cobrava o serviço. Era como se o velho soubesse cada processo não lido ou mal avaliado, sem contar o jogo de interesses com determinadas papeladas. Era um estorvo. Era uma tortura.

Não estava muito animado para o almoço. Seria o mesmo de sempre, como era de costume. Comeria com sua mãe, sentada do outro lado da mesa, as comidas sem gosto ditas ‘saudáveis’. Como detestava almoçar com a mãe. Na verdade detestava qualquer coisa que a incluísse. Não deu ao menos um irmão para ele, a velha egoísta e sovina. Ouvia em silêncio todas as reclamações dela: o jeito desleixado de ele se vestir, de andar, de falar, de como se arrependia de tê-lo tido, “nem para ser igual a seu pai, quando você vai me dar algum orgulho?”. Isso o destruía. Mas em alguns dias ele tinha uma boa desculpa para almoçar fora, talvez almoçar com os amigos, que não eram muitos, na verdade ele não tinha amigo algum, mas inventava qualquer coisa para ficar sozinho.

Como ele gostava de ficar sozinho deitado no chão, segurando os próprios joelhos. Nesses momentos fechava os olhos e imaginava um mundo melhor, uma vida mais cheia de sentido. Mas não conseguia pensar em muita coisa, não conseguia ter uma visão pois só apareciam processos, cobranças e reclamações. A sensação de não estar em lugar algum, na sua própria companhia, tentando enxergar alguma saída que não existia, nem hipoteticamente, já era o suficiente para ele e, no final disso tudo, sempre voltava pra realidade, a dura e implacável verdade de si mesmo e sentia nojo de si mesmo.

Em todos os dias de sua vida a mesma rotina se repetia. Não conseguia chorar, nem gritar, nem mudar qualquer coisa que fosse; tudo continuava sendo o mesmo. Num dia como outro qualquer acordou, tomou banho, se arrumou, foi pro trabalho, ouviu o chefe reclamar, almoçou com a mãe... Durante todo o dia sentia os olhos pesados, como se quisessem chorar. Sentiu o peito aberto, como se quisesse sangrar. Os pensamentos estavam soltos e seu corpo todo dormente. Nenhuma palavra entrou, nenhuma outra saiu de sua mente. Era como se estivesse ficando completamente desligado, perdido, insensível. No jantar ouviu as reclamações da mãe, o ambiente hostil de sempre, e ouviu claramente ela dizer: “Me arrependo profundamente de ter um filho fracassado como você”. Talvez tenha sido a única coisa que conseguiu ouvir naquele dia, e depois dessas poucas palavras tudo o que conseguia distinguir era um zumbido na sua cabeça que começou discreto e distante e ia aumentando, se aproximando, deixando ele cada vez mais apavorado,  mais perdido. Entrou no quarto, jogou as coisas no chão, tirou o terno que o parecia sufocar, perdeu o controle de si mesmo. Parecia que alguma coisa estava prestes a explodir seu peito, sair sem pedir licença. Alguma coisa estava invadindo sua mente, ou simplesmente se manifestando, não teve tempo de cogitar a possibilidade de que essa coisa sempre esteve dentro dele e que agora queria finalmente sair.

Permaneceu por horas deitado no chão, completamente nu, mas ainda tinha a sensação do terno apertando sua pele. E o zumbido, muito mais perto e perturbador. As lágrimas escorriam como nunca, inundando seu rosto, quentes, salgadas, e, sem rumo, alcançavam o chão. No dia seguinte, o mesmo.  Não conseguia se mover, nem pensar, nem entender o que a empregada gritava repetidamente ao entrar no quarto ao encontra-lo daquele jeito. Em pânico ela gritou pela mãe que logo entrou no quarto de pijamas e cabelo desgrenhados e, de longe, sem tocar nele, correu para a sala e pegou o telefone. Um tempo depois uns homens de branco invadiram o quarto e o tiraram do chão. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas o contato foi agressivo e inesperado pra ele. Começou a se debater querendo se livrar dos homens de branco, mas eles eram mais fortes, mais agressivos do que ele. Rapidamente colocaram algumas roupas nele, mas aquelas roupas não eram dele, mas eram tão insuportavelmente apertadas quanto o terno que era obrigado a vestir todos os dias. Sentiu uma pequena dor e então tudo começou a ficar escuro e não conseguia mais se debater. O aperto contra a pele diminuiu. O zumbido foi se dissolvendo, se distanciando, sumindo... Caiu.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O louco

Vinha caminhando pela rua, sua mãe logo atrás como que assistindo cada passo que dava. O Sol parecia mais quente, os passos mais conscientes e todo o resto era mais vibrante. De alguma maneira fazer aquilo parecia novo para ele: um pé, depois o outro, cuidado com as irregularidades da calçada, olhar para os lados, atravessar a rua. De alguma maneira ele era uma pessoa nova.

Descendo a ladeira, rapidamente reparou um louquinho que subia a rua, vindo na sua direção, cumprimentando compulsivamente cada pessoa em seu caminho. A essa medida o louco estava tão perto que seria impossível mudar o rumo, voltar para trás ou atravessar a rua. O louquinho se aproximava, apertando mãos alheias. Algumas correspondiam, outras nem tanto, outras o ignoravam. Um frio perpassou seu corpo, aquele louquinho com certeza o cumprimentaria, apertaria sua mão e repetiria o mesmo “cê tá bom?”. O frio transformou-se em medo e o louco estava a alguns passos de distância. Agora era impossível qualquer evasão, pois o louco estava logo a sua frente. O louco estendeu a mão, fixou o olhar, um olhar perdido e desvairado, e pronunciou as mesmas três palavras que havia repetido umas sete vezes pelo caminho. A respiração parou, suas mãos começaram a suar. Não sabia como reagir. O louquinho repetiu: “cê tá bom, bom, cê tá bom?”.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Contradito

É assustador como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. Tudo parece conspirar para que o controle das coisas que fazemos, dizemos e queremos seja completamente perdido. Desse jeito é incrivelmente fácil se perder num turbilhão de escolhas e fazer justamente a errada ou a que perturba muito mais o nosso mundinho miúdo. E dessa maneira eu me sinto um forasteiro dentro dos meus próprios domínios e não reconheço nenhum recanto dessa coisa que chamo de vida; nenhuma paisagem, que era para ser completamente minha, é familiar. Sinto que vi essas coisas todas pela primeira vez e não sei exatamente que lugar é e muito menos onde tenho que chegar. Se é que essa vontade de chegar a algum lugar existe, e se existe, também não parece que foi uma escolha minha. Parece que eu sempre fui alguém do lado de fora olhando pra dentro, assistindo cada ação, cada caminho e cada decepção, e explodindo de emoção com sentimentos que pareciam ser de outra pessoa, de uma outra vida, de outro mundinho miúdo. Talvez devesse ter saído antes do filme acabar.

Então no meio da exibição acontece alguma coisa. Já tinha me levantado e amaldiçoado o cineasta com péssimo gosto. Mas de repente, no meio de todas as imagens difusas e diálogos perdidos e sem sentido, você me aparece e muda tudo. Volto a me sentar, um pouco inclinado pra frente, com os cotovelos apoiados nas pernas, querendo entender tudo o que aconteceu até então, tentando entender o que te levou até ali. Me perco nesses pensamentos e continuo assistindo suas falas, suas ações e acho engraçado a maneira como você fez tudo parecer mais interessante e mais real. Então, pro meu espanto, você pula pra fora da tela e vem na minha direção e me puxa de volta pro meu próprio filme, que agora, mais do que antes, parece tão meu. Cada recanto, cada detalhe, cada momento e cada paisagem são minhas, e tudo me pertence agora que você apareceu. É incrível! E tenho certeza de que tudo é meu porque uma estranha surgiu, invadiu e me fez perceber que esse mundo precisava ser reconquistado, repovoado. E agora me vejo tentando entender se você também é minha ou se veio aqui só pra me mostrar que todas as outras coisas me pertenciam. Não ligo muito pra isso, não nesse momento. E então fico tantando entender o grande mistério que é você.

É incrível como as coisas acontecem quando não respeitamos o próprio bom senso. E a parte mais engraçada de tudo isso são as coisas que faço e só agora percebi. Mesmo querendo te ter sempre por perto, te deixo partir pra ir buscar as coisas que você perdeu pelo caminho e que agora parecem tão necessárias pra você. Não sou a pessoa mais sentimental, mas as lágrimas correm fácil quando você não está por aqui; chego a derramar algumas com os comerciais de margarina, a felicidade deles é comovente. Mas quando você volta, preciso desesperadamente parecer bem, mesmo sabendo que logo mais tarde você voltará ao lugar que veio e que esse tempo entre a partida e a chegada será uma tortura cruel e desnecessária. Quando me canso de todas essas coisas, tento te dizer a minha verdade, mas tudo o que você ouve são as suas mentiras e, quando você fala, não consigo escutar mais nada, principalmente a minha voz. E acho que por isso só vou conseguir te encontrar me perdendo, ou vou precisar te perder pra poder me encontrar. Ainda não sei qual é a escolha mais certa, ou menos errada, ou mais vantajosa, ou menos dolorosa... não sei. Talvez nunca saiba.

É inacreditável como as coisas acontecem quando decididamente não respeitamos nosso bom senso.  Essas escolhas parecem tão confusas e acho que seria prudente escolher nenhuma delas e deixar que as coisas aconteçam por si só, deixar que outros façam as escolhas que não sei ou não consigo fazer. Caminhar agora é muito mais difícil, ainda mais nessa paisagem, nesse filme, nesse mundinho miúdo que é todo meu e me pertenceu desde o começo da exibição. Mas, pro meu azar, não reconheço o protagonista e não dou fé em suas ação. Acho que você apareceu pra mostrar as coisas que tenho e pra deixar bem claro que eu não me pertenço e que as escolhas não são minhas. Não tenho um destino e talvez as coisas não vão melhorar tanto assim. Mas acho que não ter um destino não é tão ruim. Talvez o problema seja não saber como voltar.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Odiar

É insuportável ver você do outro lado, tão distantemente próximo de mim. Não tenho coragem de atravessar e a pior sensação é de ficar um milímetro mais longe de você, dos seus passos. Como eu queria que os caminhos fossem os mesmos, mas, além de não serem, um dia os dois terão direções opostas e não sei se vão voltar para o mesmo lugar onde estamos agora. Muito provavelmente nunca irão. Eu preciso entender que são caminhos diferentes, mais do que qualquer outra coisa que vem acontecendo nos últimos tempos. Mas te ver caminhando aí do meu lado me faz pensar de um jeito muito errado, faz pensar que o caminho é o mesmo, que você está comigo e não apenas perto de mim. Como eu odeio isso. 

Não consigo ficar bravo pelas coisas odiáveis que você faz. Não consigo não rir das suas piadas sem graça. Não sei te dizer adeus quando você precisa partir. Não sei não sorrir quando te vejo por aí, mesmo que nem te diga um "olá". Apenas por saber que você existe e está em algum lugar por aí me faz sorrir. Não sei dizer não, mesmo que isso seja tudo o que você precisa ouvir de mim. Odeio isso tudo.

Sei que você quer que eu entenda, que eu saia por aí tentando me distrair ou simplesmente esqueça tudo isso. Mas já deve ter ficado bem claro, pelo menos pra mim, que não sei fazer nenhuma dessas coisas. Eu sou minha pior decepção. Ficam apenas tentativas, e todas mais cedo ou mais tarde se tornam  frustradas, sem sentido ou eu canso facilmente delas. Você sabe que odeio isso.

Te quero sempre por perto, e quando está perto quero mais perto ainda e mais. Quero aquela sensação incômoda de proximidade, aquele medo de não saber o que pode acontecer estando tão perigosamente próximo de alguém. A pior parte é que sei que nada acontece e nada acontecerá por mais perigosamente próximo eu esteja de você, por mais que eu odeie isso tudo.

Tenho que aprender que isso tudo pode ser uma incrível mentira que disse pra mim, numa noite longa e divertida onde é mais fácil de se acreditar nesse tipo de verdade. É um sonho, apesar de na maior parte do tempo ele causar muito mais medo e angústia que o mais terrível pesadelo noturno de verão, numa cama qualquer, em qualquer lugar. Alguém, por favor, faça isso tudo parar ou torne tudo verdade. Já não consigo caminhar com todo esse peso nas costas. E pro meu desespero você está ganhando velocidade, tão rápido me deixando pra trás, como se não se importasse. Não me estende a mão, não chama ajuda, apenas me vê diminuir o passo e ir definhando, tombando, caindo. Odiei isso mais que todas as outras coisas.

Agora você consegue enxergar o grande problema? Não consigo te odiar. Tudo o que odeio são coisas que eu mesmo faço ou que eu mesmo provoquei ou quis que acontecessem. Você tem razão, e nunca me prometeu coisa alguma. Nunca me disse que ia estar sempre por perto. Nunca prometeu que me faria sorrir, que queria me ouvir. Nunca me prometeu que se importa com o que faço ou penso. Nunca prometeu que me ajudaria quando eu precisasse. Mas eu sim. Eu prometi todas essas coisas e disse com cada palavra. Parece que eu fui impulsionado por uma força que não estava fora de mim, era uma força que vinha de dentro e que me escravizou, me flagelou e me obrigou a te dizer tudo o que te disse, desde o primeiro dia em que ouvi sua voz. Me fez te prometer todas essas coisas que você nunca quis fazer por mim. Eu te prometi estar por perto e te ouvir. Prometi te fazer rir, sonhar. Prometi te levantar quando caísse no meio do caminho, no meio da tempestade e da solidão. Prometi secar as suas lágrimas e dividir o seu fardo ou carregá-lo todo para você. Infelizmente pra mim, você nunca precisou de todas essas coisas e agora estou aqui, caído no meio do meu caminho, com uma carga insuportavelmente além das minhas forças, me sentindo um inútil, ultrapassado, sendo sozinho, perdido no meio do meu caminho enquanto você ganha o mundo à sua frente. Te vejo cada vez mais distante, mais profundamente distante, pra nunca mais voltar. Ainda me pergunto se vou te ver outra vez, mas essa é outra daquelas mentiras que conto pra mim.

Você se foi, mas eu não te perdi justamente porque você nunca me pertenceu. Você nunca deitou sobre o meu peito. Nunca dividiu a minha cama. Nunca tivemos uma história pra ser contada, pelo menos não a que eu sempre quis contar pra todo mundo que pudesse ouvir. Nunca tivemos nada, não juntos, como eu tanto quis. Somos nada, um sonho, uma loucura minha. Já isso eu adoro.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Ciência

O seguinte estudo tem como objetivo analisar o desenvolvimento do espécime Guilermu campesius, cujo habitat encontra-se em distantes terras esquecidas pela humanidade e pelo bom senso. Pertencente ao reino dos tolos, filo dos esperançosos, classe dos puros, ordem dos fracos, família dos nômades e gênero dos listrados, os de sua espécie atualmente encontram-se em iminente extinção. De fato, os integrantes de seu bando, apesar de numerosos, possuem hábitos fora do comum se comparados com os de outros bandos da mesma espécie. Os machos abandonam fêmea e filhote antes do nascimento. Parece comum às fêmeas a escolha de machos expulsos de outros bandos. O bando apresenta rituais de confraternização sazonais, geralmente a cada ciclo lunar, e todos os seus membros parecem conhecer os hábitos uns dos outros. Geralmente estão em disputas, principalmente por território e por comida, mas, apesar desse tipo de comportamento, são visíveis os laços que mantém esse grupo tão incomum unido.

Há quatro anos o espécime partiu sozinho, separando-se de seu bando natal e agregando-se a outros espécimes incontáveis que, por motivos parecidos, encontram-se na mesma situação. Num ambiente completamente estranho, alheio e hostil, tentam criar algo que os diferencie do bando em que nasceram e cresceram, numa tentativa de auto-afirmação e talvez como forma de, futuramente, estarem aptos para liderar seus próprios bandos. De acordo com as observações feitas nesse novo habitat, os efeitos causados em campesius são diversos e controversos, ora manifestando comportamentos de euforia, ora momentos de desagrado e visível incômodo. Várias vezes tentou retornar ao seu ambiente original, mas por alguma razão, ainda não observada e compreendida, o espécime em estudo sempre volta para o segundo habitat. Esse movimento é repetido incontáveis vezes ao longo dos meses. Fica difícil elencar possíveis motivos para que o espécime apresente tal comportamento.

Descrita a origem e a atual situação do espécime, chegamos ao impasse em que este estudo se encontra. Nas últimas semanas foram observados comportamentos anormais que nunca surgiram durante todo o período em que este estudo foi executado. Campesius tem preferido o isolamento, passando boa parte do tempo em um estado contemplativo e distante. Nas suas atividades diárias é observável uma mudança qualitativa na forma como desempenha tais funções, sendo observado uma perda de interesse nas coisas que antes o deixavam em um estado de prazer. É recorrente uma expressão muito característica e curiosa e, na maioria das vezes, um líquido cristalino e salgado escorre pelo seu rosto. E o fato ainda mais curioso: quando na presença de um determinado espécime, há extremas mudanças de comportamento, tanto físicas como psíquicas. Campesius apresenta taquicardia, aumento da pressão arterial e da temperatura corporal. Através de análises foi possível comprovar um aumento muito significativo do hormônio ocitocina no sangue de campesius, e ao mesmo passo uma atividade fora do normal é observada no seu sistema nervoso, especificamente na amígdala. Literalmente, campesius é um, quando longe deste espécime em especial, e outro completamente diferente quando este específico espécime está por perto. É um fenômeno extremamente curioso e interessante.

Desse modo, o presente estudo foi concluído, pois, devido às limitações que a técnica científica apresenta, não é possível concluir o que estes fenômenos observados no espécime Guilermu campesius realmente significam. Estudos futuros, talvez, consigam decifrar este enigma intrigante. Mas para nós, como seres humanos, fica claro o que se passa com ele.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Sorrir

Às oito da manhã o relógio tocou. Era uma melodia tão gentil que parecia querer acalentar ainda mais o sono ao invés de tentar acordar. Às nove, ainda tentado não começar tudo outra vez, lá fora o som do dia já entrava timidamente pelas janelas e perturbava o sono. Não deveria estar ali deitado, era o que o barulho dos carros e das pessoas passando apressados lá fora gritavam. Mas dentro do quarto não foi permitido ao dia reinar. Ele, o dia, deveria ficar lá fora e existir apenas para as pessoas barulhentas e com motivos pra sair por aí fazendo o que sempre fazem, todo dia. Mas dentro do quarto, ali não, não nesse dia que é resultado de tudo o que aconteceu nos anteriores. Sim, os outros dias, aqueles em que parecia tudo tão certo e tão explícito, mas que de repente transformaram a vontade de começar a rotina em um asco para começar mais outra. Esse era um desses dias. Sem dúvida existia algo lá fora que amedrontava tanto que forçava a querer a segurança do quarto onde o tempo pudesse ficar esquecido, os compromissos cancelados e as necessidades fossem negligenciadas.

Não... não é algo. O que força o dia a ficar lá fora é alguém. Alguém lá fora, no meio daquele dia todo que começava era a razão, tinha a culpa, causou tudo isso e fez o sono conturbado, do sonho fez pesadelo noturno, da vontade fez o medo e desespero... fez do sorriso alguma coisa indefinida e desfigurada, perdido no meio do rosto. Sim, esse alguém faz desejar que o dia seguinte jamais chegue, que a noite nunca termine e que nada precise começar. Mas infelizmente o mundo não respeita esse tipo de desejo, ele não obedece a nossa vontade e então os dias sempre invadem seu quarto, derrubam a sua porta sem cerimonia e sem culpa, te jogam pra fora da cama, te arrastam pelo chão e o levam pra onde se tem que estar. Com certeza nenhum sorriso estaria no seu rosto, porque não havia nada nesse dia que pudesse fazer sorrir. Nada.

Andar pelas ruas tomando o mesmo caminho e vendo as mesmas pessoas de todos os dias com certeza daria a uma pessoa qualquer um falso sentimento de pertencimento, de bem estar ou qualquer coisa parecida. Mas nesse dia em especial esses sentimentos não vieram. Até apareceram, mas foram dispensados antes mesmo de tomarem conta do corpo e foram chutados pra bem longe, como inquilinos indesejados que há muito incomodavam. Viver parecia tão desnecessário naquele dia. Tentava esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado da rua e tomar outro caminho mais tranquilo e solitário, tentando da melhor maneira que podia evitar os olhares, os apertos de mãos e a fatídica pergunta "tudo bem?". Nada ia bem e era torturante dizer "sim, tudo indo bem... e com você?", no máximo dizia um manjado e sem vergonha "hummm... mais ou menos". Mas não conseguia sorrir. Isso nunca. Era impossível esboçar um sorriso quando nada ia bem e só quem conhecia ou realmente se importava perceberia. Mas essas pessoas que nos conhecem bem e se importam são raras hoje em dia e é tão incrível quando conseguimos garimpar uma por aí! Tais pessoas não estavam andando pelas ruas nesse dia ou tomaram caminhos diferentes ou também estavam escondendo os rostos daqueles que na verdade não estão se importando com você quando dizem "tudo bem?".

Depois de um caminho que parecia exageradamente maior que o de costume, chega onde deveria estar e nada é diferente, as mesmas coisas e pessoas. Mas então acontece, tão rápido como o sono que chega nas noites frias e tranquilas de outono e tão esperado como o calor depois de um dia frio, ou o frio depois de uma noite quente. Aquele alguém que tornou este dia tão difícil aparece bem na sua frente com passos tão decididos e um olhar tão próximo vindo na sua direção. Você não consegue esconder o rosto, fingir que não viu, passar para outro lado ou tomar outro caminho mais tranquilo e solitário. Você não consegue evitar o olhar que te convida pra um abraço e inevitavelmente você abre o primeiro sorriso do dia, o mais largo e sincero provocado sem querer, sem medo. Você simplesmente sorri e diz "sim, agora está tudo bem".

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Olhar

Fiquei parado na sua frente e não sabia se dizia alguma coisa ou te deixava sair. Tudo o que fiz foi te olhar, mas não como sempre olhava pra você, não com os mesmos olhos. Eram outros, que guardei comigo por muito tempo e esse olhar não perdeu sequer um pouco do brilho que teve desde o começo. A minha esperança é que meus olhos pudessem falar, que você pudesse entendê-los e que você pudesse olhar tudo aquilo que eu não fui e não sou capaz de te dizer. O meu maior medo é de o brilho não ser suficiente e eu ser obrigado a dizer exatamente as palavras que nunca puderam ganhar o ar e encontrar descanso em seus ouvidos. Mas não houve um dia em que eu não desejasse que você pudesse ouvi-las, para que eu pudesse então ouvir as suas. E agora penso que o meu desejo de te ouvir é mais urgente do que o meu desejo de ser ouvido.

Agora tudo o que quero é que você fique parado aí na minha frente e tente entender o que eu não consigo e não posso te dizer. Mas não fomos ensinados a ouvir o silêncio e não entendemos os olhares. E mesmo se soubéssemos essas coisas, ainda assim seria exigido dizer e mais ainda provar que tudo é verdade. Para o meu desespero, é exatamente isso que foge do meu controle. Seria tudo tão mais simples se você pudesse me entender, mas tudo o que ouço de você é um "não consigo entender porque você tá tão quieto". Mal consigo respirar quando escuto o seu "foi alguma coisa que eu fiz?". Como queria poder dizer "sim, a culpa é toda sua". Mas não posso, me falta ar. Não quero dizer coisa alguma pra você.

O que eu quero é que você estivesse aoi meu lada desde o começo, naquela tarde quente e apressada em que eu vi, pela primeira vez, a razão de todo esse silêncio. Queria que você soubesse, com apenas um ohar, toda a incrível admiração e desejo que sinto. E como quero que aquele dia fosse apagado, destruído ou ao menos esquecido como um sonho conturbado de uma longa e quente noite de sono. Essas coisas não são mais possíveis. 

Esse silêncio é enlouquecedor. E apesar de você ser o motivo da minha loucura, essa foi uma loucura que eu mesmo quis pra mim e não posso ser trancado num sanatório qualquer onde eu pudesse estar distante da minha humanidade, longe de toda vontade que sempre me quer levar de volta pra você. Você me fez prisioneiro, mas eu sou meu próprio carcereiro, meu próprio punidor e fui eu mesmo quem me algemou. Não há nenhuma vontade de fugir.

Ainda assim te deixo partir e espero pela mesma tarde quente e apressada em que você entenderá e assim eu poderei me libertar e finalmente dizer que você foi, é e sempre será o mais bonito e intenso motivo do meu sofrimento. Então continue parado aí enquanto me vê dizer "te amo".