segunda-feira, 4 de abril de 2016

Sobre quem fica

Acordei pensando em você. Tenho feito muito isto. Confesso. Existem manhãs em que dói menos que de costume. Há outras em que é especialmente doloroso e até perco o fôlego tentando segurar. Parece que isso tem acontecido pra todo mundo agora que você não está aqui. Esta dor ao invés de você. Mas também existiram algumas vezes em que sorri logo que pensei em você. Desse jeito parece que ainda tem este poder sobre mim. É um dom, sabia? Fazer rir de graça. Então tento me apegar a isto pra não perder o fôlego naquelas manhãs. Pensar em como você me fazia rir tem me ajudado a respirar nos dias em que dói demais pensar em você. Dias como hoje. E por isso quis escrever sobre você. Mas ainda é difícil. Então vou escrevendo aos poucos porque preciso dizer estas palavras. Aí vem a dor mais uma vez. Lembro da sua risada. Respiro. Escrevo mais uma linha. Agora fico sem fôlego e então volto outro dia. Outras palavras vão aparecer amanhã. E desta maneira desajeitada eu consigo.

Eu percebi agora o quanto você fazia parte da minha vida. Da vida de todos aqui. Sem exagero. Não entendo como você arranjava tanto tempo pra cuidar de nós. Esta roupa que estou usando agora foi você quem me ajudou a escolher. Aliás, as cobertas e lençóis e travesseiros e panos de prato e talheres e tudo em casa você ajudou a escolher também. Porque você fazia isto? Não sei. Mas que bom que fazia. Minha vida seria um caos sem você. Sou meio distraído, você sabe. Algumas destas linhas foram escritas enquanto eu andava por aí. Um perigo, você iria dizer. Se deixasse, eu seria atropelado na próxima esquina. Mas que bom que você não deixava. Tenho boas roupas e tenho coisas em casa porque você não deixava eu ser atropelado. E isso era apenas a parte que me cabia, até porque você inventava tempo pra cuidar de todos. Sem exagero. E talvez por isso seja mais doloroso não te ter por aqui. Parece que estou mal vestido e que minha casa está uma zona. Parece que serei atropelado na próxima esquina. Parece que minha vida virou aquele caos. Acho que a de todos. E vamos ter que viver assim por um tempo. Por enquanto tento me acostumar com o caos e a olhar antes de atravessar. Até que isso ajuda a distrair. Prestar atenção nessas coisas ajuda a não pensar naquilo. Mas pensei agora. Não tive como evitar.

Pensei naquele dia. Aquele dia ainda sem nome. Desde aquele dia ficou o vazio. E é tão grande. Não existiu vazio como esse que você deixou aqui. Não só em mim. Tem muita gente ainda tentando recolher os caquinhos. Eu não estou melhor. Mas é porque você sempre foi muito espaçosa. Não a toa ficou esse vazio sem medida. Dá até pra ouvir um eco quando eu choro aqui dentro. Sim, eu choro. Confesso também. Mas nem me olha daquele seu jeito debochado. Você chorava muito também. Vai ver era a falta daquele amor que você vivia reclamando que não tinha. Que bobagem. Se esperasse mais alguns anos talvez pudesse notar que era a mais amada. Mas não daquele amor do filme que a gente viu aquele dia. Eu falo de Amor. O nosso Amor. E desse jeito você era a mais amada de todos. Quem sabe isto tenha te estragado um pouco. Mas você insistia em querer aquele amor do filme. Que besteira. Porque o Amor que temos pra você dava de sobrar. Era muito mesmo. Ainda tem, aliás. E ainda sobra. É nosso presente pra você. Continuar sendo amada o mesmo tanto do vazio que deixou. E é todo seu. Espero que baste.

Mas já adianto que não me basta te Amar de longe. Tem muita saudade. E saudade é uma dor exigente. Só passa com a pessoa certa. Não é que nem desânimo que passa com uma volta na cidade. Ou tristeza que passa com uma dose (ou cinco) de tequila. Saudade não sai desse jeito. Ela fica. Adere à pele como aquele perfume que você usava. É profunda. É insistente. E agora que você foi embora só existe este aroma no ar. Está em todos os lugares, me lembrando o tempo todo que algo não está no lugar. Que alguém não está aqui. Só ficou o perfume da lembrança. Ficou a saudade de você.

Eu sei que você não queria ir. Mas esta é uma das poucas coisas que não escolhemos na vida e, de uma certa maneira, une à todos numa coisa só. E então agora terei que pedir desculpas à todos que já passaram por isto. Desculpem-me aqueles que algum dia tiveram que ficar aqui enquanto aqueles que ama partiram, porque eu sinto que esta dor é apenas minha. É como se fosse sentida pela primeira vez no mundo. Algum dia irei me juntar à vocês. Mas por enquanto ficarei aqui sozinho. Respirando. E lembrando. Ao menos agora eu pude escrever sobre a saudade que ficou. E agora, minha amiga, você pode ficar tranquila sabendo que já escrevi sobre você. E eu posso ficar em paz por um tempo. Só até precisar escrever outra vez. Existem mais coisas pra dizer porque tem ainda muito Amor sobrando. Esta era a reserva pro resto da vida. É o que ficou de você pra gente. E isto, por si só, já é tudo.

Obrigado pela companhia. Até mais tarde.

domingo, 19 de agosto de 2012

Aproximar-se, permitir, apaixonar-se

Ainda deitado em sua cama, ele abriu os olhos e era dia. O Sol invadia o quarto através da janela que esqueceu aberta. Esfregou nervosamente os olhos e esperou até acostumar-se com a claridade e, um tanto zonzo, encarou duramente o relógio pendurado na parede à frente. Marcava seis horas da mais pura inconveniência e deboche. Os ponteiros se riam dele e o corpo lhe doía - o braço mais que o resto, pois teve de aguentar o peso durante todo o sono. Havia uma sensação insistente de que acabara de deitar-se para dormir e também a certeza de que o dia começava na hora errada. Tentou apenas ignorar a invasão - virou o corpo para o outro lado, cobriu a cabeça com os travesseiros e esbravejou como se o tempo pudesse ser obrigado a retroceder... nada adiantou.

Contrariado, odiou-se por ter deixado a janela aberta, e contrariado se levantou. Demorou um pouco até conseguir manter o equilíbrio e só então pôde dar passos decididos em direção àquela perturbadora com a intenção de fechá-la, voltar para a cama e continuar a dormir o sono dos merecedores e dos despreocupados - deixar as coisas como estavam, como deveriam estar. Porém desistiu assim que descansou suas mãos sobre o parapeito. Lá fora o horizonte, que aos poucos tomava cor, se expandia. A terra tomava forma à medida que o Sol se pronunciava timidamente, como se não soubesse que era rei. Não pode segurar o sorriso que, tímido como o amanhecer, crescia como se não soubesse que era possível. O sorriso amanhecia seu rosto.

Então veio o sentimento que até este momento tentou ignorar. Era aquele sentimento que espera o segundo exato para invadir, o habilidoso aproveitador das mais pequenas e inacreditáveis oportunidades. Começou ali, discreto, em um canto esquecido do peito, e a sensação entendeu o convite feito pelo sorriso e espalhou-se. O sentimento tomou-lhe conta de cada pequeno espaço e, com paciência divina, lhe conquistou o olhar. E o conquistado, entregue e rendido de bom grado, tomou o fôlego da brisa que chegava junto da luz. O vento lhe contava segredos que até então não estava disposto a ouvir, e os ouvia com carinho. E o calor do Sol lhe beijava o corpo, suspirando umas verdades que antes tomava como mentiras, e agora as acreditava com estima.

Não pôde resistir ao desejo de superar a janela e ganhar a paisagem. O Sol o convidava, chamando-o pelo nome e cantando cada sílaba - uma melodia que lhe foi conduzida pela primeira vez. Os pés descalços tocavam delicadamente o solo, que correspondia gentil ao afago. Flutuava. O olhar, preenchido com as visões do amanhecer, tinha um brilho que não existiu antes em seus olhos castanhos - uma claridade nova se evaporava deles. Resplandecia. Caminhou a passos curtos, saboreando a imensidão já velha conhecida, mas completamente nova. Talvez, se pudesse, teria percebido que era ele o que havia de novo naquela paisagem, um outro que não teve o devido tempo para reconhecer-se. Mas essa preocupação não o perturbou, pois naquele momento um desejo lhe desenhava os pensamentos. Parou e suspirou a oração ao vento e desejou. Quis que o mundo tivesse espaços mais abertos, que houvessem idéias mais soltas e corações que batessem mais alto. Desejava-o a si. Então, já desprendido, correu livremente e confidenciou segredos e pensamentos. E seu coração gritava... não se continha, não cabia mais naquele peito. Era um outro. Era novo.

E sua vida, que até então era desenhada somente de contornos não preenchidos, - arte sem suas cores - pintou-se. Seu peito, antes sem sentido, agora entendia o motivo da respiração. Seus pés, que antes desconheciam seus caminhos, agora os sabiam e o levava com diligência. Sua casa, que era vazia, encheu-se de quadros em suas paredes, tapetes pela sala, de janelas abertas e cortinas que dançavam ao vento - era maior. E agora o coração batia completo, e leve conduzia a ele todo. Era mais vivo.

Não se assustou com o dia que se desmanchava, nem com a luz que ficava distante. O Sol fazia seu caminho até detrás da colina sem pressa, escondendo sua luz e seu calor. Mas não se desesperou, pois sabia que amanheceria mais uma vez, e outra e mais outra. De volta à sua casa, arrastou a cama e a deixou bem à frente da paisagem lá fora - agora a cama lhe parecia mais aconchegante. E deitado observava esperançoso e paciente a janela aberta que assim permaneceria... esperando. Esperando.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Querida Felicidade,

Como tem passado? Há tanto tempo não a vejo que me surpreendo quando me percebo esquecendo do seu sorriso, cada dia um pedacinho mais. Hoje ele me pareceu menor. Mas deve ser apenas impressão, porque ontem mesmo falei de você na mesa daquele bar para uns amigos e eles me disseram que a viram e que continua deslumbrante o seu sorriso. Disso eu ainda tenho certeza, que ele é deslumbrante. Recordo perfeitamente que ele começava discreto no cantinho esquerdo da boca como quem não quer nada, como um segredo, e então crescia e delicadamente coloria o seu rosto com cores que eu ainda não havia visto, cores que não existiam antes do seu sorriso. Tudo a volta sorria junto a ele, e eu sorria junto também. Hoje daria um mundo para vê-lo novamente, daria o universo para dividir um com você. Mas agora você está tão distante e me odeio por tê-la deixado partir. Você e seu sorriso.

Lembra daquele dia no parque? Eu estava caminhando pela grama e olhava o céu, completamente desorientado, zanzando e perdido. Então, de repente, você me apareceu e mudou aquele dia. Você sempre teve essa mania deliciosa de aparecer quando eu menos te esperava, me surpreendendo sempre e enchendo de sol aqueles dias nublados, de cor esses dias cinzentos e de vida a minha vida morta. E que sabor enebriante teve aquela sua conversa naquele parque. Era hipnotizador assistir à seus lábios se movimentando tão docemente. Era como se eles inventassem uma palavra nova toda vez que as ouvia, como se eu as tivesse ouvido pela primeira vez. Naquele dia todas as conversas invejaram os seus lábios gentis e desejaram serem ditas por eles. Mas agora é triste perceber que há tempos esses meus ouvidos não dividem uma dança com a sua doce voz. E com essa distância toda, me odeio por tê-la deixado partir. Você e seus lábios.

Você ainda usa aquele mesmo perfume? Espero que sim, porque aquele aroma está impregnado em minha memória. Ele se instalou em seu trono e reina minha imaginação desde o dia em que o senti pela primeira vez. Suave e marcante. Único. Perco o compasso da respiração e suspiro lentamente toda vez que me lembro da maneira gentil que seu perfume ganhava os ares e planava até mim. E era como se pedisse licença para que eu pudesse senti-lo e, com a permissão, gentilmente invadia meu fôlego, ocupando cada pequeno espaço e deixando minha respiração solta, levíssima. Jamais desejei respirar tanto o ar quanto aquele que você banhava com seu perfume delicado e perfeitamente delicioso. E agora não há mais lugar em que seu perfume passeie distraidamente e nem pessoa em quem seu aroma suavemente descanse desde quando você se foi. Me odeio por tê-la deixado partir. Você e seu perfume.

Mas há apenas uma pergunta da qual preciso ouvir a resposta, antes mesmo de todas as outras. Há apenas uma questão não respondida que me toma parte de mim todos os dias, quando me levanto pela manhã. Responda-me, quando você voltará? Como um pai que procura o filho, perdido na multidão por descuido, por um pequeno segundo que não recebeu a atenção merecida, a minha pergunta procura a resposta. E como este pai, me culpo pela falta, pelo espaço vazio. Eu a perdi em meio a multidão. Diga-me então quando você irá voltar e me perdoar por tê-la deixado partir, pois tudo o que preciso agora é do seu sorriso deslumbrante, iluminando tudo e a mim. Preciso da sua doce voz, dos seus lábios gentis. Preciso do seu perfume, respirar o seu ar. Preciso de você. Somente você.

Saudades,

Aquele Que A Deixou Partir.

PS: O inverno começa em breve. Não demore a voltar.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Cidadezinha

Há uma pequena cidade, num lugar de gente pequena. Pequenas são as casas, são os sonhos, os medos e pequena é a vida naquele canto esquecido. Aqueles que lá moram sempre moraram e não conseguem imaginar como pode ser um outro lugar fora dali - se é que existe. Ninguém jamais saiu daquela cidadezinha e nem pensam sair. Se perguntados sobre o motivo de morarem lá e há quanto tempo, seus moradores não sabem como responder e tudo o que pensam e dizem é que sempre foi deste jeito e que sempre será. Não existe espaço para grandes mudanças naquela cidadezinha.

Mas aconteceu que, num tempo muito pequeno, alguns poucos habitantes começaram a adoecer e um após o outro caiam de cama. E logo todos os moradores estavam doentes. Tudo começava com um desconforto discreto nas pontas dos pés, mas até aí o doente não desconfiava porque todos costumavam andar com os pés nus, e então pensavam: "Devem estar cansados estes pés descalços". Depois o desconforto começava numa dor lá pela boca do estômago e tudo o que entrava saía no mesmo instante, e então os moradores só podiam tomar uma sopa rala e sem graça. Mas ainda não desconfiavam que algo estava errado e logo pensavam: "Deve ser aquela safra de abobrinha que não vingou bem". E quando nada parecia poder piorar, então subia um peso pelas costas como se tivessem derrubado uns dois ou três sacos de milho sobre os ombros, e o peso ia aumentado e aumentando até o doente não conseguir ficar mais em pé por muito tempo. Só aí os moradores começaram a desconfiar de que algo não ia bem. A esta altura já metade da população não podia mais andar direito e ninguém entendia de onde isso vinha. Uns diziam que era pecado contra o Divino, e alguns afirmavam que os males vieram das cidades vizinhas, daquele amontoado de gente doente. Mas, por mais que tentassem entender, a situação continuava a piorar.

E as discussões se seguiram desta maneira, não tão acaloradas porque poucos ainda tinham forças para falar. O falatório continuou até que um morador teve uma pequena ideia: "Precisamos de um doutor". Todos pararam as pequenas discussões e, com um aceno discreto de cabeça, concordaram. E assim foi feito. Os que ainda tinham foças colocaram uma pequena placa na entrada da cidade e um tempo depois apareceu um tal doutor. Era todo de branco, com uma cara velha e amarrada. Uns achavam que se parecia muito com a cara do cavalo xucro do Seu Miguel. O doutor foi chegando, achou um canto numa casinha e começou a fazer seu trabalho.

O primeiro atendido foi o próprio Seu Miguel, que ficou de pé na sala de atendimento enquanto o doutor, sem olhar, pediu para ele tirar a camisa e o chapéu e deitar numa cama ali ao lado. O doutor despendurou alguma coisa do pescoço, colocou nos ouvidos e a outra ponta colocou no peito do paciente. O objeto tinha um toque gelado, e Seu Miguel, se tivesse mais forças, iria rir da cara de cavalo xucro do doutor. "É problema de coração.", saiu da boca do doutor com uma voz grave e sem emoção. "Mas, Seu doutor, não é meu peito que dói. Tem uma coisa nos pés, na boca do estômago e nas costas, mas não tem nada no peito.", retorquiu o Seu Miguel numa voz mirrada. "Veja bem, Meu senhor, a minha especialidade é o coração. Passei metade da minha vida dedicada a esta parte do corpo e agora tenho certeza quando digo que o problema é neste coração velho! Tome estes remédios e diminua a quantidade de gordura, e então tudo vai ficar bem.", decretou com aquela voz que não se alterava com o passar das palavras, monótona e sem vida. Seu Miguel se levantou, colocou novamente a camisa e o chapéu, pegou os remédios e saiu cabisbaixo. Lá fora a fila era grande, e todos olharam para Seu Miguel e comentaram: "Ele já parece mais saudável! Este doutor é dos bons".

E com os outros moradores foi a mesma história. Quanto mais insistissem que não havia dor nenhuma no peito, mais o doutor respondia da mesma maneira, passando os mesmos cuidados com voz inalterada e a mesma cara velha e amarrada. Quando todos já haviam sido tratados, o doutor partiu da cidade com a certeza de que o tratamento seria eficiente. "Mais um trabalho muito bem feito.", dizia para si mesmo. Porém, alguns dias depois da partida, o primeiro tratado morreu. Os familiares não sabiam explicar, pois o ex-vivo havia parado de reclamar do incômodo nos pés, da dor na boca do estômago e do peso nas costas. Mas numa manhã, meio de chuva e de Sol, o Seu Miguel havia deixado a cidadezinha da única maneira que algum morador poderia deixa-la. E depois dele, outros moradores também tomaram o mesmo destino e as discussões novamente ganharam um pouco mais daquela lenha mirrada: "É pecado!" falavam uns, "É castigo do Divino!" tentavam gritar outros, "São males das outras cidades!" diziam vozes sumidas. Até que um morador, muito do esperto, ponderou: "Acho que agora precisamos de um outro doutor. Mas um que não fale só de coração". Os moradores no começo pareciam mais resistentes, mas como ideia melhor não apareceu, então assim foi feito.

E dessa vez a placa na entrada da cidade pedia por outro doutor, um que não entendia apenas de coração. E outro doutor logo apareceu e arrumou um canto para fazer seu trabalho. Mas a história não foi muito diferente, pois este doutor insistia que o problema era na cabeça. E quanto mais tentassem explicar que tinha uma coisa nos pés, no estômago e nas costas, mais o outro doutor afirmava: "É na cabeça, meu Senhor! Estudei por anos esta parte do corpo, o que me autoriza e dá certeza em dizer que o problema é nesta cabeça velha.", dizia com a voz inalterada e tediosa, prescrevendo seus remédios e cuidados que os doentes deveriam tomar. E mais a frente, quando todos estavam convencidos do problema de cabeça, o outro doutor partiu com a certeza de que o tratamento correto foi dado aos moradores. "Mais um trabalho excelentemente guiado!", pensava consigo mesmo o outro doutor, enquanto saía da cidade. Mas não demorou muito para que mais pessoas saíssem da cidade da única maneira que um habitante poderia sair. Morreram a dona Maria, o seu Geraldo, o Mané da esquina, o Zé, o doidinho da goiabeira, a Florinda boleira, a Florinda costureira, o seu Manoel, a Zefinha do seu Manoel, a dona Aparecida, o padeiro Pedro, o pedreiro Pedro, o padre...

Agora poucos moradores sentam em suas cadeiras em frente às casas, lá pelo comecinho da noite. Não há mais tanto burburinho, nem mais fofoca. Não tem mais missa, não teve a festa de São João. Nem mesmo chove naquele canto esquecido do mundo. Caem apenas umas gotas tristes, como se elas mesmas tivessem perdido a esperança de chover. E lá pelas tantas, há uma nova placa na entrada da cidadezinha, meio pendida e meio malfeita, com os seguintes dizeres: "Procura-se alguém, qualquer um, que cure".

terça-feira, 20 de março de 2012

Memória

Ele voltou para a casa de seus pais e era a mesma que podia lembrar, e o outono também era parecido com todos os outros que já havia visto em sua cidade natal. Nasceu numa manhã de outono que se parecia muito com aquela. As bagagens já haviam sido colocadas ao lado da cama do antigo quarto que ainda mantinha na parede alguns cartazes, fotos e outras lembranças de um tempo que parecia muito distante quando ele parou para olhar. Eram pedaços de um passado que ele quis deixar para trás quando foi embora, e agora estava de volta tentando reencontrar esse mesmo passado que agora lhe escapa. Deitou-se na cama com o lençol recém trocado e ali ficou por um tempo longo demais e, ao levantar, um pouco aliviado do cansaço e da longa viagem, decidiu visitar as pessoas e os amigos que havia deixado quando decidiu partir - seus pais haviam tomado o cuidado de preparar um caderno com nomes, endereços e telefones. Seus antigos amigos também eram os mesmos, a não ser pelas rugas cavadas pelo tempo e os cabelos brancos que tomavam conta ou eram escondidos. Ele tentava não parecer envergonhado quando os antigos amigos traziam as fotos e as recordações do passado que ele não conseguia relembrar. Em desespero, tentava alimentar a sensação de que tudo estava exatamente da mesma maneira, apenas um pouco mais desgastado pelo tempo. Acreditar nisso era uma maneira de fugir do pavor de estar perdendo, aos poucos, o que era seu e também a si mesmo.

Estava esfriando, e a conversa com os antigos amigos também. Então voltou para a casa, que agora parecia que nunca havia abandonado, e entregou-se a um demorado banho quente. Muito quente. E debaixo da água que caía abundantemente, não conseguia ouvir nada além das gotas batendo pesadas em seu corpo e que escorriam sem rumo até alcançarem os seus pés. Fechou os olhos e afundou-se em pensamentos, completamente imerso num oceano vazio onde o tempo passava preguiçosamente. Debaixo da água não havia mais sons e não havia mais corpo, apenas os pensamentos, e naquele vazio ele percebeu que sua vida foi tediosa e agora lhe escorria lentamente, como a água que banhava seu corpo e desaparecia logo depois, esvaziando-se lentamente até o ralo. Pelo menos a vida que podia lembrar, e essa era sem emoção, sem aventura e sem culpa. Deu-se o luxo de odiar-se e tentou desejar algo diferente para si, reconstruir-se. Quem sabe perder o medo e desencilhar-se das correntes que ele mesmo obrigou a usar. Em uma última tentativa de redenção, tentou  resgatar estórias passadas de ousadia, mas nada ocupava esse lugar. Sobraram somente as estórias de medo e de cautela. O resto eram apenas imagens desfocadas, lugares abandonados e sorrisos amarelos - era nada. Por tudo o que lutou e fez, o que realizou intensamente? Havia algum motivo - pequeno, que seja - para se orgulhar, ou mesmo dar um largo sorriso e gargalhar ao contar suas estórias para amigos na mesa de um bar qualquer? Se as escrevesse em um livro, quanto pagariam por sua vida?

Abriu os olhos, a água escondia algumas lágrimas. Com a cabeça fora da água ouviu, lá da cozinha, sua mãe cozinhando. E o aroma era delicioso. Seu pai, no escritório, gritava para a mãe onde estavam os seus óculos e ela gritava que não sabia. Com o corpo fora da água tudo pareceu ter mais sentido. Apenas pareceu, mas acreditava que era suficiente e agarrou-se a essa sensação - como quem abraça a amada no momento do reencontro - para não afundar novamente, como havia acontecido nos últimos meses. Talvez pudesse contar estórias na mesa de um bar qualquer e com um sorriso largo no rosto. Talvez pudessem comprar sua vida naquele livro esquecido no canto de uma livraria qualquer. E isso tudo bastava. Queria apenas poder lembrar, pois outra parte já havia escorrido.

Demorou um pouco mais que o prudente no banho, só para poder ouvir sua mãe gritar o seu nome e para se apressar. Logo depois ela gritava o pai da mesma maneira, alto e docemente. Já no quarto, enquanto escolhia algumas roupas, guardava as demais de volta ao antigo armário. Se fechasse os olhos, talvez pudesse recuperar os segredos que escondia ali dentro quando era adolescente, mas agora estava vazio e as lembranças ficavam cada vez mais distantes, inalcançáveis, inacessíveis. Agora quase poderia jurar que, quando saísse do quarto e encontrasse seus pais na cozinha, eles estariam exatamente como estavam há muito tempo atrás, jovens e despreocupados. Qual foi sua surpresa quando os viu muito velhos. Mas permaneceu em silêncio. Tentava ficar quito o quanto possível, porque sabia que não poderia preencher os espaços vazios da conversa com coisas do passado. Naquela conversa morna, gostava do sorriso que os pais velhos davam de vez em quando, contando velhas estórias, e tentava encontrar escondido neles alguma pequena luz que iluminasse a completa escuridão de seus pensamentos. Agora precisava acreditar em tudo o que lhe contavam sobre ele mesmo, e isso consumia toda sua sanidade. Antes estivesse enlouquecendo, desejava.

Terminou de comer e voltou ao quarto, em silêncio. Quando a noite chegava e ele deitava para dormir, sua mente era perturbada por dores terríveis - que durante o dia eram suportáveis, mas a noite eram sobrehumanas - e por um medo que tomava conta de tudo e ocupava cada espaço do seu pensamento: quando acordasse amanhã, o que mais teria desaparecido? Conseguiria ao menos se dar conta do que estava faltando, notar que algo mais havia sumido, mais um outro pedaço dele mesmo? Mesmo assombrado, caiu no sono. Talvez o sonho pudesse ser um pedaço perdido, perguntava-se isso toda manhã. Enquanto dormia, a doença o consumia, ocupava cada espaço das suas memórias. As suas lembranças amarelavam-se, desprendiam, despencavam e eram levadas pela brisa do outono, como as folhas das árvores lá fora. Lentamente. Lentamente...