Não era possível saber quanto tempo ficou ali. Talvez já tivessem passado duas semanas, ou dois meses, não sabia. Depois de um tempo não se preocupava mais com isso. O cubículo havia tirado tudo dele, a humanidade, a vontade e agora ele era o que sempre disseram que era: nada. Não sabia dizer se tinha vontade de sair daquele lugar, se iria sair, procurava não manter esperanças. Tudo o conseguia fazer era ficar deitado horas naquele pedaço de colchão, absolutamente imóvel. Suas forças já não eram mais usadas, não gritava nem se debatia quando queria e mesmo se queria, mesmo quando batiam nele sem motivo. Para ele, tudo não tinha sentido.
Naquela manhã, ou tarde, ou noite, os homens de branco entraram em seu quarto. O levaram ao banheiro, ou o que quer que fosse, mas ele não reagiu, não podia. O banho frio, a insuportável água sempre gelada e alheia aos seus gritos. Não precisava mais de amarras, porque não queria contrariar os homens de branco, mesmo que preferisse apanhar de porrete. Depois de quase se afogar, vestiram-no, uma roupa diferente do pano que costumava usar. Não se impressionou. Ao invés de o levarem de volta para o seu cubículo, os homens de branco tomaram outro rumo. Através de um imenso corredor conseguia ver o lado de fora pelas janelas. Quis sorrir, mas não conseguiu. Era dia, talvez uma linda manhã de outono. No final do corredor havia uma porta aberta, e nesta altura apenas um homem de branco o acompanhava. A porta foi aberta e depois de um tempo, que não pôde ser contado, estava do lado de fora.
A claridade o cegou por alguns instantes. Após alguns segundos conseguiu divisar um lindo jardim. Jamais conseguiria imaginar um jardim num lugar tão maldito. O homem de branco, o que geralmente o batia mais forte com o porrete, agora parecia impossivelmente gentil. Mas não ligava para isso, queria sentir a grama sob os pés, ouvir os pássaros cantarem, ver um mundo que havia sumido de seus olhos e de suas lembranças há muito tempo. Num banco distante, uma distinta senhora estava sentada. O homem de branco o levou até ela e logo em seguida se retirou. Reconheceu a senhora que tentava se manter alheia a todos os louquinhos que perambulavam pelo jardim. Era sua mãe. Ela parecia tão diferente da mulher que ele sempre conheceu, mas não se impressionou com isso, não podia.
Ele sentou-se ao lado dela e não falou. Sua mãe também permaneceu em silêncio e muitos minutos se passaram assim, sem se olharem. “O médico disse que você teve uma recuperação muito rápida”, disse a mãe, com uma doçura que não lhe era típica. “Graças a Deus encontrei este lugar para você, é o melhor de todos, veja este recorte”, ela abriu a bolsa e tirou uma pequena revista que parecia meio gasta, talvez de tanto ser lida, e datava três de julho de 1972, e na capa a foto do jardim em que se encontrava com os dizeres “Excelência no tratamento de demências”. Devolveu a revista à mãe, “Ainda mês passado receberam um prêmio”, retorquiu ela enquanto ele voltava a admirar o jardim, as rosas, os botões de cravos, queria deitar sobre uma jabuticabeira e beber a água que escorria numa fontezinha ali perto. “Se está preocupado com os boatos sobre o seu estado, fique tranquilo, eu disse para todos que você precisou se ausentar para se especializar em outro país, todos acreditaram. Ainda bem que a primeira coisa que fiz foi te mandar pra esta ‘casa de repouso’. Ninguém desconfiará que você perdeu o juízo”. A habitual frieza da mãe havia voltado.
Naquele momento não se importava mais com o que a mãe dizia, estava tão extasiado com o jardim, tão fascinado que as palavras dela voavam com a brisa que passava por entre os dois. “O médico disse que você pode ter alta a qualquer momento, pois se recuperou como o esperado”, ainda completou, como que esperando uma reação do filho. “Você parece tão melhor!”, quando a mãe disse isso ele se virou rapidamente para fitá-la. A mãe se assustou, achando que ele fosse reagir como fez antes de ela interná-lo. Ele não fez nada, apenas sorriu. “Acho que deixarei você aqui mais alguns dias, já que parece gostar daqui, e quando sair...” Neste momento a mãe não soube como completar a frase. Nunca em sua vida planejou alguma coisa com o filho. Tudo o que fez foi... Ela nunca fez coisa alguma com ele. Sentiu-se encabulada, então levantou: “Espero que esteja ainda melhor quando voltar para te buscar”, disse com a mesma dureza que sempre lhe foi particular, a doçura havia sumido sem deixar qualquer rastro. Ainda assim ele não esboçou qualquer reação. Ele se levantou, olhou para a mãe e estendeu a mão. “Até mais tarde” ele disse. A mãe não conseguiu esconder o incômodo, mas apertou a mão do filho, mesmo porque jamais teve coragem ou vontade de abraçá-lo, mesmo que fosse a coisa certa a se fazer naquele momento, ou em todos os outros momentos da vida dos dois. Virou-se sem se despedir e o filho ficou olhando por um tempo até ela desaparecer dentro do prédio. Ela sentiu o olhar do filho a cada passo que dava.
Ele aproveitou cada momento que passou naquele jardim. Colheu jabuticabas e as comeu, nunca havia comido jabuticabas. E como o gosto era maravilhoso. Colheu cada flor, explorou cada canto. Molhou o rosto na fonte com água fresca e sentiu-se novo. Um homem de branco veio em sua direção, mas não se assustou. Pegou-o pelo braço e com a mesma rudeza de sempre o levou através do jardim, através do corredor, e esperou que fosse entrar no cubículo novamente, mas dessa vez o levaram para um quarto de verdade, com todas as coisas que um quarto deveria ter. Depois que o homem de branco saiu, sentou-se perto da janela e continuou a passear com o olhar pelo jardim, a colher as flores, a comer jabuticabas.
Estava fora do cubículo, ninguém mais o batia, sem mais banhos frios. Ainda assim não gostaria de passar o resto da vida naquele lugar. Agora conseguia desejar, e queria uma vida pra ele. Não uma vida melhor, porque ele nunca teve uma vida. Iria viver a partir de agora. Sua mãe, como disse, voltou para tirá-lo de lá. Como não trouxe coisa alguma, apenas a roupa do corpo, saiu sem nada. Sua mãe trouxe outras roupas. Assinado alguns papéis, saíram do maldito prédio e entraram no carro, onde o motorista olhava estranhamente para os dois. Não ligava. A certa altura da viagem a mãe pediu para que o motorista parasse o veículo. A mãe e o filho desceram do carro e surpreendentemente ela propôs uma ‘saudável caminhada’ pela cidade. Então caminharam, mas não lado a lado. Ele ia a frente, enquanto a mãe ia logo atrás. Mas ele não se importava.