segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Medo

Eu comecei, por medo de terminar.
Me escondi, por medo de ficar sozinho.
Insisti, por medo de desistir.
Eu joguei, por medo de perder.
Saí por aí, por medo de ficar.
Eu sorri, por medo de chorar.
Agora eu sou, por causa do medo de estar.
E foi pelo medo de fazer sentido que eu escrevo.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Janela

Agora penso em você com mais frequência do que pensava antes de você partir. Às vezes tenho que me esforçar pra lembrar que você foi pra não voltar mais, e às vezes tenho que me convencer de que fui eu quem deixou você ir. Não tenho certeza se foi imprudência minha permitir você passar por aquela porta. Não tenho certeza se eu deveria ter dito alguma coisa que pudesse te trazer de volta. Não tenho certeza se deveria ter me escondido tanto do mundo, fechado todas as minhas portas e todas as minhas janelas, se deveria ter expulsado todos que tentaram entrar outra vez na minha vida desde que você se foi. A verdade é que eu tenho tentado te deixar partir da minha mente, assim como você fez quando saiu por aquela porta. Parece que aqui dentro você insiste em ficar.

É engraçado como a gente tenta consertar as coisas dentro da nossa mente. Lá dentro, escondida de todos os nossos erros, a vida encontra um caminho mais seguro e não se desvia das pequenas coisas que não prestamos muita atenção. Mas isso só acontece depois que tudo já foi perdido, como agora. E parando pra pensar, existiram tantos pequenos detalhes que simplesmente ficaram fora das nossas prioridades, tantos sonhos e expectativas que nunca conseguiram ganhar o mundo e foram condenadas a me assombrar pelo resto dos meus dias, desde o momento em que você saiu por aquela porta. Mas é imprudência achar que tudo pode tomar um caminho diferente se tivéssemos prestado mais atenção a essas pequeninas coisas que ficaram pelo caminho, e é idiotice achar que se pode retomar o passado e continuar com as coisas boas que existiram. De qualquer maneira, não é possível retomar o passado a não ser aqui dentro, onde todos os dias são nublados e todas as janelas estão fechadas pro mundo lá fora. E acho que é nessas horas que precisamos nos esforçar e lembrar que o passado também é feito de momentos ruins, aqueles em que você ficou sozinho quando queria companhia, ou chorou quando queria ser consolado, ou simplesmente foi embora quando queria ter ficado.

Você foi embora, mas deixou seu coração preso ao parapeito da janela. E agora, toda vez que tento abri-la lá está ele, batendo e sangrando, tirando minha atenção do que acontece lá fora. Me perco tentando entender como ele foi parar lá, porque ele ficou ali enquanto você ficava cada vez mais longe de todo nosso passado. Mas talvez a culpa não seja sua. Você sempre foi tão prudente e cuidadosa com tudo. Já eu não era. Sempre desastrado, sempre deixando tudo pro tempo resolver enquanto esquecia que o tempo não sabe o que fazer com as coisas que deixamos pra trás. O tempo apenas assiste a tudo e não se preocupa com as coisas que tiram o nosso sono. Eu te deixei pra trás na esperança de que dessa vez o tempo pudesse abrir uma exceção, que tivesse piedade de mim e que mantivesse o passado intocável e indolor. Exigi que o tempo apagasse você, como quando erramos um traço do desenho que não saía como imaginamos. E é claro que isso não aconteceu. O traço permaneceu e o desenho ficou preso a janela e me atormentou desde o momento em que você passou por aquela porta.

Mas não fiquei pensando isso o tempo todo, porque é impossível estar na companhia da tristeza por tanto tempo. Em algum momento ela se cansa da gente e vai embora. Também é impossível sentir saudade do mesmo passado o tempo todo e, quando parei de tentar entender porque você partiu e de quem foi a culpa, percebi que nada do que eu fizesse ou pensasse poderia mudar todas essas pequenas coisas. Eu não poderia te impedir se você decidiu ir embora. Não poderia te fazer me amar se você escolheu o contrário. Não poderia mudar nada que já tivesse sido feito, pois nenhum erro, pequeno ou grande, poderia ter um outro fim. Quando você saiu por aquela porta, saiu já sem nenhum amor, mas eu tive que aprender a deixar de te amar. E isso leva muito tempo.

Então levei o tempo que precisei levar, colocando as coisas no lugar, peça por peça, até que tudo tivesse encontrado seu caminho. E por último deixei seu coração, que até então estava preso a janela. Naquele momento percebi que fui eu quem o deixou ali, fui eu quem quis sofrer daquele jeito e quis que o mundo visse o meu sofrimento aqui do lado de dentro. Então, tomando fôlego, o peguei em minhas mãos com um pouco de medo, confesso, medo de ser afetado por ele, mas não fui. Então, cheio de esperança, o dobrei várias vezes e escrevi um recado em uma de suas asas. Joguei janela afora e tão rápido ele ganhou o céu que depois de um tempo não pude mais vê-lo. E agora espero pacientemente que ele chegue até seu destino para que você leia, em uma de suas asas, o pequeno recado com os dizeres: "Por favor, não volte mais".

E agora, na esperança de que alguma brisa renove o ar que ficou preso aqui dentro por tanto tempo, eu deixo a janela aberta.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O jardim

Vinha caminhando pela rua, sua mãe logo atrás como que assistindo cada passo que dava. O Sol parecia mais quente e os passos mais conscientes; todo o resto era mais vibrante. De alguma maneira fazer aquilo parecia novo para ele: um pé, depois o outro, cuidado com as irregularidades da calçada, olhar para os lados, atravessar a rua. De alguma maneira ele era uma pessoa nova.

Descendo a ladeira, rapidamente reparou um louquinho que subia a rua, vindo na sua direção, cumprimentando compulsivamente cada pessoa em seu caminho. A essa medida o louco estava tão perto que seria impossível mudar o rumo, voltar para trás ou atravessar a rua. O louquinho se aproximava, apertando mãos alheias; algumas correspondiam, outras nem tanto, outras o ignoravam. Um frio perpassou o corpo, aquele louquinho com certeza o cumprimentaria, apertaria sua mão e repetiria o mesmo “cê tá bom?”. O frio transformou-se em medo e o louco estava a alguns passos de distância. Agora era impossível qualquer evasão, pois o louco estava logo a sua frente. O louco estendeu a mão, fixou o olhar, um olhar perdido e desvairado, e pronunciou as mesmas três palavras que havia repetido umas sete vezes pelo caminho. A respiração parou, suas mãos começaram a suar. Não sabia como reagir. O louquinho repetiu: “cê tá bom, bom, cê tá bom?”.

Meio encabulado, ele cumprimentou o louquinho e com um sorriso perguntou: “E como você está?”. O louquinho respondeu “bom tamém!” e esboçou algo parecido com um sorriso. Despediram-se e o louquinho foi em direção à mãe, que com um sutil desvio de olhar, passou direto pelo louquinho e segurou firmemente o braço do filho. O louquinho pareceu não se importar e continuou seu caminho, cumprimentando todas as outras pessoas que caminhavam por ali. A mãe continuou a segurar o braço do filho e ele não protestou nem estranhou o repentino contato. Tudo lhe foi tirado quando estava naquele cubículo da melhor "casa de repouso" daquele lado do país e agora tudo o que pensava era em ter uma vida, a vida que nunca teve, a vida que nunca o permitiram ter.

Dois meses passaram tão rápido depois de ter saído da casa de repouso e da ilustre bondade dos homens de branco que lá cuidavam dele. Durante este tempo ele tentou construir por si mesmo algo que pudesse lhe dar felicidade. A primeira coisa que fez foi deixar o emprego, tinha dinheiro e tempo para decidir como conduzir a própria vida. Ignorou todas as reclamações da mãe, que agora não eram tão mais cortantes como antes, na verdade ele nem dava mais ouvidos a elas. Deixou a casa da mãe em seguida e comprou uma pequena fazenda distante da cidade, e ele próprio construiu o imenso jardim que ocupava a maior parte da propriedade. Ele plantou cada jabuticabeira, cada árvore, cada flor, cada fonte de água. Ali, distante de tudo, distante de todos, ele plantou sozinho a própria vida. Não havia a interferência de ninguém, e estava completamente seguro de tudo. Não havia mais medo nem repressão, mais ninguém pra cobrar coisas, ninguém mais pra dizer que futuro deveria escolher ou com quem deveria se parecer, quem deveria ser seu herói, seu espelho. Sua vida se esvaziou de tudo aquilo e encheu-se de Sol, de jabuticabas... adorava jabuticabas.

A mãe foi visitá-lo algumas poucas vezes, e com o tempo ela própria desistiu de fazer o filho desistir de toda aquela bobageira. Ele não cederia, nem pelo melhor futuro pré-programado. Aos poucos ela percebeu o quanto o filho tinha certeza daquilo tudo, e aos poucos a vida dela própria encheu-se de Sol, de jabuticabas e de flores. Alguma coisa naquele jardim invadiu seu interior, antes intransponível, e nela germinou coisas que nunca antes ela havia deixado crescer. E é claro que ela nunca percebeu que algo estava crescendo dentro dela, o filho nunca esperou que ela fosse notar que ela também havia mudado, assim como também ele mudou. Talvez fosse melhor assim. E ele pensou em como seria bom se as pessoas pudessem transformar a si mesma e as coisas ao seu redor, ou pelo menos passassem a enxergar o mundo de uma forma diferente sem precisarem de um cubículo, de banhos gelados ou de um jardim. Mas logo afastou este pensamento. Imaginar um mundo assim seria loucura.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um outro lugar

Não era possível saber quanto tempo ficou ali. Talvez já tivessem passado duas semanas, ou dois meses, não sabia. Depois de um tempo não se preocupava mais com isso. O cubículo havia tirado tudo dele, a humanidade, a vontade e agora ele era o que sempre disseram que era: nada. Não sabia dizer se tinha vontade de sair daquele lugar, se iria sair, procurava não manter esperanças. Tudo o conseguia fazer era ficar deitado horas naquele pedaço de colchão, absolutamente imóvel. Suas forças já não eram mais usadas, não gritava nem se debatia quando queria e mesmo se queria, mesmo quando batiam nele sem motivo. Para ele, tudo não tinha sentido.

Naquela manhã, ou tarde, ou noite, os homens de branco entraram em seu quarto. O levaram ao banheiro, ou o que quer que fosse, mas ele não reagiu, não podia. O banho frio, a insuportável água sempre gelada e alheia aos seus gritos. Não precisava mais de amarras, porque não queria contrariar os homens de branco, mesmo que preferisse apanhar de porrete. Depois de quase se afogar, vestiram-no, uma roupa diferente do pano que costumava usar. Não se impressionou. Ao invés de o levarem de volta para o seu cubículo, os homens de branco tomaram outro rumo. Através de um imenso corredor conseguia ver o lado de fora pelas janelas. Quis sorrir, mas não conseguiu. Era dia, talvez uma linda manhã de outono. No final do corredor havia uma porta aberta, e nesta altura apenas um homem de branco o acompanhava. A porta foi aberta e depois de um tempo, que não pôde ser contado, estava do lado de fora.

A claridade o cegou por alguns instantes. Após alguns segundos conseguiu divisar um lindo jardim. Jamais conseguiria imaginar um jardim num lugar tão maldito. O homem de branco, o que geralmente o batia mais forte com o porrete, agora parecia impossivelmente gentil. Mas não ligava para isso, queria sentir a grama sob os pés, ouvir os pássaros cantarem, ver um mundo que havia sumido de seus olhos e de suas lembranças há muito tempo. Num banco distante, uma distinta senhora estava sentada. O homem de branco o levou até ela e logo em seguida se retirou. Reconheceu a senhora que tentava se manter alheia a todos os louquinhos que perambulavam pelo jardim. Era sua mãe. Ela parecia tão diferente da mulher que ele sempre conheceu, mas não se impressionou com isso, não podia.

Ele sentou-se ao lado dela e não falou. Sua mãe também permaneceu em silêncio e muitos minutos se passaram assim, sem se olharem. “O médico disse que você teve uma recuperação muito rápida”, disse a mãe, com uma doçura que não lhe era típica. “Graças a Deus encontrei este lugar para você, é o melhor de todos, veja este recorte”, ela abriu a bolsa e tirou uma pequena revista que parecia meio gasta, talvez de tanto ser lida, e datava três de julho de 1972, e na capa a foto do jardim em que se encontrava com os dizeres “Excelência no tratamento de demências”. Devolveu a revista à mãe, “Ainda mês passado receberam um prêmio”, retorquiu ela enquanto ele voltava a admirar o jardim, as rosas, os botões de cravos, queria deitar sobre uma jabuticabeira e beber a água que escorria numa fontezinha ali perto. “Se está preocupado com os boatos sobre o seu estado, fique tranquilo, eu disse para todos que você precisou se ausentar para se especializar em outro país, todos acreditaram. Ainda bem que a primeira coisa que fiz foi te mandar pra esta ‘casa de repouso’. Ninguém desconfiará que você perdeu o juízo”. A habitual frieza da mãe havia voltado.

Naquele momento não se importava mais com o que a mãe dizia, estava tão extasiado com o jardim, tão fascinado que as palavras dela voavam com a brisa que passava por entre os dois. “O médico disse que você pode ter alta a qualquer momento, pois se recuperou como o esperado”, ainda completou, como que esperando uma reação do filho. “Você parece tão melhor!”, quando a mãe disse isso ele se virou rapidamente para fitá-la. A mãe se assustou, achando que ele fosse reagir como fez antes de ela interná-lo. Ele não fez nada, apenas sorriu. “Acho que deixarei você aqui mais alguns dias, já que parece gostar daqui, e quando sair...” Neste momento a mãe não soube como completar a frase. Nunca em sua vida planejou alguma coisa com o filho. Tudo o que fez foi... Ela nunca fez coisa alguma com ele. Sentiu-se encabulada, então levantou: “Espero que esteja ainda melhor quando voltar para te buscar”, disse com a mesma dureza que sempre lhe foi particular, a doçura havia sumido sem deixar qualquer rastro. Ainda assim ele não esboçou qualquer reação. Ele se levantou, olhou para a mãe e estendeu a mão. “Até mais tarde” ele disse. A mãe não conseguiu esconder o incômodo, mas apertou a mão do filho, mesmo porque jamais teve coragem ou vontade de abraçá-lo, mesmo que fosse a coisa certa a se fazer naquele momento, ou em todos os outros momentos da vida dos dois. Virou-se sem se despedir e o filho ficou olhando por um tempo até ela desaparecer dentro do prédio. Ela sentiu o olhar do filho a cada passo que dava.

Ele aproveitou cada momento que passou naquele jardim. Colheu jabuticabas e as comeu, nunca havia comido jabuticabas. E como o gosto era maravilhoso. Colheu cada flor, explorou cada canto. Molhou o rosto na fonte com água fresca e sentiu-se novo. Um homem de branco veio em sua direção, mas não se assustou. Pegou-o pelo braço e com a mesma rudeza de sempre o levou através do jardim, através do corredor, e esperou que fosse entrar no cubículo novamente, mas dessa vez o levaram para um quarto de verdade, com todas as coisas que um quarto deveria ter. Depois que o homem de branco saiu, sentou-se perto da janela e continuou a passear com o olhar pelo jardim, a colher as flores, a comer jabuticabas.

Estava fora do cubículo, ninguém mais o batia, sem mais banhos frios. Ainda assim não gostaria de passar o resto da vida naquele lugar. Agora conseguia desejar, e queria uma vida pra ele. Não uma vida melhor, porque ele nunca teve uma vida. Iria viver a partir de agora. Sua mãe, como disse, voltou para tirá-lo de lá. Como não trouxe coisa alguma, apenas a roupa do corpo, saiu sem nada. Sua mãe trouxe outras roupas. Assinado alguns papéis, saíram do maldito prédio e entraram no carro, onde o motorista olhava estranhamente para os dois. Não ligava. A certa altura da viagem a mãe pediu para que o motorista parasse o veículo. A mãe e o filho desceram do carro e surpreendentemente ela propôs uma ‘saudável caminhada’ pela cidade. Então caminharam, mas não lado a lado. Ele ia a frente, enquanto a mãe ia logo atrás. Mas ele não se importava.

sábado, 5 de novembro de 2011

As algemas

Estava escuro, devia ser noite. Abriu os olhos e estava num quarto, pelo menos era o que parecia. Havia um colchão jogado num canto, uma pequena janela com grades e apenas isso. Não havia cobertores, apenas frio. Desesperado, tentou de várias maneiras sair dali. Gritando, se debatendo contra as paredes, jogando as poucas coisas que haviam por ali. Depois de várias tentativas aqueles homens de branco invadiram o cubículo e bateram com pedaços de pau, seguraram firmemente até ele não conseguir mais se mover e então uma picada. Apagou. Não sonhou com muitas coisas, apenas escuridão, vazio, medo.

Quando acordou, havia alguém no cubículo, um homem de branco com comida. Estava com fome, mas a comida não tinha gosto, não tinha vontade de comê-la, mas estava com fome. Comeu o mais rápido que pôde para não sentir nojo, precisava comer. Lambuzou-se todo, perdendo todos os modos que sua mãe lhe ensinara debaixo de muitos tapas e maldizeres. Ao ver a porta aberta quis fugir. Tentou, mas os homens de branco eram mais rápidos, mais espertos, mais inumanos.

Durante vários dias a única coisa que conheceu foi aquele cubículo e os homens de branco. Não queria falar com ninguém, na verdade não podia, não conseguia, pois algo o impedia. Passava o tempo olhando o mesmo ponto. Fazia tudo nas calças. O mundo se resumia àquele cubículo, e nada mais. Por isso sentia aquela necessidade de gritar, bater, derrubar, cuspir pra então os homens de branco virem e apagá-lo. Preferia assim, pois não conseguia dormir. A única coisa de que tinha certeza era de que aquele não era o seu lugar. Tudo era vazio e desconhecido. Agora até preferia estar com a mãe, ouvir suas indelicadezas, queria ouvir o chefe gritar com ele, queria por o mesmo terno todos os dias. Ali não podia fazer coisa alguma, tudo fugia de seu controle.

Havia dias em que os homens de branco o tiravam de seu cubículo e o levavam para um banheiro, ou algo parecido com um. Amarravam suas mãos e ele não podia se mover. Sem roupas, uma torrente de água muito fria caía de um cano na parede. Gritava, afogava-se. Em outros dias ligavam-no a fios e sentia uma corrente passar por todo o seu corpo, que ficava rígido. Depois destes cuidados não conseguia se mover, não conseguia pensar, não conseguia ver nem sentir coisa alguma. Alternavam-se dias de lucidez e de escuridão. Havia momentos em que preferia ser apagado. Não tentava mais fugir, nem reagir. Apenas obedecia, agia como os homens de branco queriam que agisse. Sentia-se como se estivesse vestindo o terno de todas as manhãs.

No cubículo não existia tempo, não existiam dias nem noites. Isso era enlouquecedor. Mas já tinha aprendido que não podia gritar, mesmo se a vontade fosse maior que suas forças. Não podia bater, cuspir, xingar... Se essas coisas todas fossem feitas os homens de branco com certeza bateriam nele novamente, o xingariam novamente, gritariam com ele. Agora se limitava a comer, e deitar-se. Depois de algumas semanas já havia se esquecido de como era estar sob o Sol da manhã e ouvir os pássaros cantarem. Já havia esquecido do orvalho, da chuva e das nuvens que imitavam todas as coisas do mundo. Porém não podia sentir falta disso, porque sua vida medíocre se limitava ao escritório e almoçar e jantar com a mãe. Mas ali não podia gritar, não podia ficar com raiva, não podia porque doía. E como odiava os banhos frios, mais do que apanhar. Mesmo assim tinha vontade de Sol, de chuva e de orvalho.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A quebra

O despertador tocou, eram seis e meia da manhã. Olhou por algum tempo o teto, talvez com a esperança de que o dia não precisasse começar ou que ele não precisasse ir trabalhar. Porém isso não aconteceu. Levantou, tomou banho, colocou o terno, amarrou a gravata, tudo muito sistemático. E depois de alguns anos isso se tornara tão inconsciente pra ele, tão fora de sua vontade e automatizado que nem percebia que estava tudo errado, com o cabelo mal penteado, o terno amarrotado e a gravata fora de linha. Então agarrou a maleta, ajeitou os óculos e ajeitou a gravata pela última vez. Comeu qualquer coisa e saiu antes que alguém resolvesse reclamar que estava todo desleixado.

No carro, o rádio ligado com as notícias da manhã e lá fora estava insuportavelmente quente. Não se impressionava mais com o monte de asneiras que o radialista comentava entre uma notícia e outra, o mais eram os mesmos acidentes, as mesmas mortes, os mesmos roubos, o mesmo congestionamento. Como a cidade havia mudado naquelas poucas décadas. Trânsito parado e nada mais a se fazer, mas ainda bem que acordou mais cedo. O barulho das buzinas era tão alto que ultrapassavam o vidro do sedan. Seus dias sempre começavam assim.

Quando chegou ao escritório sua secretária já o abordava, ditando todos os compromissos do dia que mal acabara de começar. Ele a ouvia e ao mesmo tempo a ignorava. Aliás, ele era assim com todas as pessoas com quem conversava. Ele era uma presença ausente. Finalmente sentou em sua cadeira e puxou para si a imensa pilha de processos que deveriam ser analisados, carimbados e encaminhados até o fim do dia. E a cada amontoado de papéis grampeados ele repassava cada momento passado na faculdade de advocacia. Ele nunca soube ao certo porque quis ser advogado, na verdade ele nem queria esta profissão. “A profissão é quem escolheu você”, repetia várias vezes sua mãe com o mesmo olhar implacável e ela fazia questão de lembrá-lo da tradição familiar de advogados respeitáveis. Seus avós, seus tios e primos eram advogados, todos tinham um nome e um escritório próprio. Ele foi o único que quis trabalhar como servidor público, na verdade fora a única coisa que conseguira. E o barulho das máquinas de escrever era tão insuportável quanto o das buzinas no trânsito.

Como não gostava da profissão que o escolheu, tudo que fazia parecia insuficiente. Insuficiente para o chefe, para a mãe e especialmente para ele próprio. Tudo o que fazia naquele escritório com cheiro de naftalina carecia de sentido para ele, assim como também sua vida não possuía sentido algum. Parecia destinado àquilo, e realmente nunca almejara qualquer outro emprego; a única coisa que vinha a sua lembrança era ter de ser advogado. Não quis ser astronauta, muito menos bombeiro, não teve tempo pra isso, pois só conhecera a advocacia e a advocacia o escolhera, como repetia sua mãe todos os dias. Seu pai foi um dos advogados mais renomados do país, e foi porque não é mais. Morreu há uns vinte anos. As lembranças do pai não eram muitas, a única coisa que fortemente lembrava era de sua mãe dizendo: “Você tem de ser igual ao seu pai, ser um advogado melhor do que ele, o que eu acho muito difícil”.

Como queria que o tempo passasse depressa, mas o tempo nunca o obedecia. Os minutos iam se arrastando junto com cada folha de processo lido, com cada carimbo, cada assinatura. A hora do almoço não chegava. O telefone tocava a cada dez minutos. Era seu chefe, que das férias cobrava o serviço. Era como se o velho soubesse cada processo não lido ou mal avaliado, sem contar o jogo de interesses com determinadas papeladas. Era um estorvo. Era uma tortura.

Não estava muito animado para o almoço. Seria o mesmo de sempre, como era de costume. Comeria com sua mãe, sentada do outro lado da mesa, as comidas sem gosto ditas ‘saudáveis’. Como detestava almoçar com a mãe. Na verdade detestava qualquer coisa que a incluísse. Não deu ao menos um irmão para ele, a velha egoísta e sovina. Ouvia em silêncio todas as reclamações dela: o jeito desleixado de ele se vestir, de andar, de falar, de como se arrependia de tê-lo tido, “nem para ser igual a seu pai, quando você vai me dar algum orgulho?”. Isso o destruía. Mas em alguns dias ele tinha uma boa desculpa para almoçar fora, talvez almoçar com os amigos, que não eram muitos, na verdade ele não tinha amigo algum, mas inventava qualquer coisa para ficar sozinho.

Como ele gostava de ficar sozinho deitado no chão, segurando os próprios joelhos. Nesses momentos fechava os olhos e imaginava um mundo melhor, uma vida mais cheia de sentido. Mas não conseguia pensar em muita coisa, não conseguia ter uma visão pois só apareciam processos, cobranças e reclamações. A sensação de não estar em lugar algum, na sua própria companhia, tentando enxergar alguma saída que não existia, nem hipoteticamente, já era o suficiente para ele e, no final disso tudo, sempre voltava pra realidade, a dura e implacável verdade de si mesmo e sentia nojo de si mesmo.

Em todos os dias de sua vida a mesma rotina se repetia. Não conseguia chorar, nem gritar, nem mudar qualquer coisa que fosse; tudo continuava sendo o mesmo. Num dia como outro qualquer acordou, tomou banho, se arrumou, foi pro trabalho, ouviu o chefe reclamar, almoçou com a mãe... Durante todo o dia sentia os olhos pesados, como se quisessem chorar. Sentiu o peito aberto, como se quisesse sangrar. Os pensamentos estavam soltos e seu corpo todo dormente. Nenhuma palavra entrou, nenhuma outra saiu de sua mente. Era como se estivesse ficando completamente desligado, perdido, insensível. No jantar ouviu as reclamações da mãe, o ambiente hostil de sempre, e ouviu claramente ela dizer: “Me arrependo profundamente de ter um filho fracassado como você”. Talvez tenha sido a única coisa que conseguiu ouvir naquele dia, e depois dessas poucas palavras tudo o que conseguia distinguir era um zumbido na sua cabeça que começou discreto e distante e ia aumentando, se aproximando, deixando ele cada vez mais apavorado,  mais perdido. Entrou no quarto, jogou as coisas no chão, tirou o terno que o parecia sufocar, perdeu o controle de si mesmo. Parecia que alguma coisa estava prestes a explodir seu peito, sair sem pedir licença. Alguma coisa estava invadindo sua mente, ou simplesmente se manifestando, não teve tempo de cogitar a possibilidade de que essa coisa sempre esteve dentro dele e que agora queria finalmente sair.

Permaneceu por horas deitado no chão, completamente nu, mas ainda tinha a sensação do terno apertando sua pele. E o zumbido, muito mais perto e perturbador. As lágrimas escorriam como nunca, inundando seu rosto, quentes, salgadas, e, sem rumo, alcançavam o chão. No dia seguinte, o mesmo.  Não conseguia se mover, nem pensar, nem entender o que a empregada gritava repetidamente ao entrar no quarto ao encontra-lo daquele jeito. Em pânico ela gritou pela mãe que logo entrou no quarto de pijamas e cabelo desgrenhados e, de longe, sem tocar nele, correu para a sala e pegou o telefone. Um tempo depois uns homens de branco invadiram o quarto e o tiraram do chão. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas o contato foi agressivo e inesperado pra ele. Começou a se debater querendo se livrar dos homens de branco, mas eles eram mais fortes, mais agressivos do que ele. Rapidamente colocaram algumas roupas nele, mas aquelas roupas não eram dele, mas eram tão insuportavelmente apertadas quanto o terno que era obrigado a vestir todos os dias. Sentiu uma pequena dor e então tudo começou a ficar escuro e não conseguia mais se debater. O aperto contra a pele diminuiu. O zumbido foi se dissolvendo, se distanciando, sumindo... Caiu.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O louco

Vinha caminhando pela rua, sua mãe logo atrás como que assistindo cada passo que dava. O Sol parecia mais quente, os passos mais conscientes e todo o resto era mais vibrante. De alguma maneira fazer aquilo parecia novo para ele: um pé, depois o outro, cuidado com as irregularidades da calçada, olhar para os lados, atravessar a rua. De alguma maneira ele era uma pessoa nova.

Descendo a ladeira, rapidamente reparou um louquinho que subia a rua, vindo na sua direção, cumprimentando compulsivamente cada pessoa em seu caminho. A essa medida o louco estava tão perto que seria impossível mudar o rumo, voltar para trás ou atravessar a rua. O louquinho se aproximava, apertando mãos alheias. Algumas correspondiam, outras nem tanto, outras o ignoravam. Um frio perpassou seu corpo, aquele louquinho com certeza o cumprimentaria, apertaria sua mão e repetiria o mesmo “cê tá bom?”. O frio transformou-se em medo e o louco estava a alguns passos de distância. Agora era impossível qualquer evasão, pois o louco estava logo a sua frente. O louco estendeu a mão, fixou o olhar, um olhar perdido e desvairado, e pronunciou as mesmas três palavras que havia repetido umas sete vezes pelo caminho. A respiração parou, suas mãos começaram a suar. Não sabia como reagir. O louquinho repetiu: “cê tá bom, bom, cê tá bom?”.