domingo, 19 de agosto de 2012

Aproximar-se, permitir, apaixonar-se

Ainda deitado em sua cama, ele abriu os olhos e era dia. O Sol invadia o quarto através da janela que esqueceu aberta. Esfregou nervosamente os olhos e esperou até acostumar-se com a claridade e, um tanto zonzo, encarou duramente o relógio pendurado na parede à frente. Marcava seis horas da mais pura inconveniência e deboche. Os ponteiros se riam dele e o corpo lhe doía - o braço mais que o resto, pois teve de aguentar o peso durante todo o sono. Havia uma sensação insistente de que acabara de deitar-se para dormir e também a certeza de que o dia começava na hora errada. Tentou apenas ignorar a invasão - virou o corpo para o outro lado, cobriu a cabeça com os travesseiros e esbravejou como se o tempo pudesse ser obrigado a retroceder... nada adiantou.

Contrariado, odiou-se por ter deixado a janela aberta, e contrariado se levantou. Demorou um pouco até conseguir manter o equilíbrio e só então pôde dar passos decididos em direção àquela perturbadora com a intenção de fechá-la, voltar para a cama e continuar a dormir o sono dos merecedores e dos despreocupados - deixar as coisas como estavam, como deveriam estar. Porém desistiu assim que descansou suas mãos sobre o parapeito. Lá fora o horizonte, que aos poucos tomava cor, se expandia. A terra tomava forma à medida que o Sol se pronunciava timidamente, como se não soubesse que era rei. Não pode segurar o sorriso que, tímido como o amanhecer, crescia como se não soubesse que era possível. O sorriso amanhecia seu rosto.

Então veio o sentimento que até este momento tentou ignorar. Era aquele sentimento que espera o segundo exato para invadir, o habilidoso aproveitador das mais pequenas e inacreditáveis oportunidades. Começou ali, discreto, em um canto esquecido do peito, e a sensação entendeu o convite feito pelo sorriso e espalhou-se. O sentimento tomou-lhe conta de cada pequeno espaço e, com paciência divina, lhe conquistou o olhar. E o conquistado, entregue e rendido de bom grado, tomou o fôlego da brisa que chegava junto da luz. O vento lhe contava segredos que até então não estava disposto a ouvir, e os ouvia com carinho. E o calor do Sol lhe beijava o corpo, suspirando umas verdades que antes tomava como mentiras, e agora as acreditava com estima.

Não pôde resistir ao desejo de superar a janela e ganhar a paisagem. O Sol o convidava, chamando-o pelo nome e cantando cada sílaba - uma melodia que lhe foi conduzida pela primeira vez. Os pés descalços tocavam delicadamente o solo, que correspondia gentil ao afago. Flutuava. O olhar, preenchido com as visões do amanhecer, tinha um brilho que não existiu antes em seus olhos castanhos - uma claridade nova se evaporava deles. Resplandecia. Caminhou a passos curtos, saboreando a imensidão já velha conhecida, mas completamente nova. Talvez, se pudesse, teria percebido que era ele o que havia de novo naquela paisagem, um outro que não teve o devido tempo para reconhecer-se. Mas essa preocupação não o perturbou, pois naquele momento um desejo lhe desenhava os pensamentos. Parou e suspirou a oração ao vento e desejou. Quis que o mundo tivesse espaços mais abertos, que houvessem idéias mais soltas e corações que batessem mais alto. Desejava-o a si. Então, já desprendido, correu livremente e confidenciou segredos e pensamentos. E seu coração gritava... não se continha, não cabia mais naquele peito. Era um outro. Era novo.

E sua vida, que até então era desenhada somente de contornos não preenchidos, - arte sem suas cores - pintou-se. Seu peito, antes sem sentido, agora entendia o motivo da respiração. Seus pés, que antes desconheciam seus caminhos, agora os sabiam e o levava com diligência. Sua casa, que era vazia, encheu-se de quadros em suas paredes, tapetes pela sala, de janelas abertas e cortinas que dançavam ao vento - era maior. E agora o coração batia completo, e leve conduzia a ele todo. Era mais vivo.

Não se assustou com o dia que se desmanchava, nem com a luz que ficava distante. O Sol fazia seu caminho até detrás da colina sem pressa, escondendo sua luz e seu calor. Mas não se desesperou, pois sabia que amanheceria mais uma vez, e outra e mais outra. De volta à sua casa, arrastou a cama e a deixou bem à frente da paisagem lá fora - agora a cama lhe parecia mais aconchegante. E deitado observava esperançoso e paciente a janela aberta que assim permaneceria... esperando. Esperando.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Querida Felicidade,

Como tem passado? Há tanto tempo não a vejo que me surpreendo quando me percebo esquecendo do seu sorriso, cada dia um pedacinho mais. Hoje ele me pareceu menor. Mas deve ser apenas impressão, porque ontem mesmo falei de você na mesa daquele bar para uns amigos e eles me disseram que a viram e que continua deslumbrante o seu sorriso. Disso eu ainda tenho certeza, que ele é deslumbrante. Recordo perfeitamente que ele começava discreto no cantinho esquerdo da boca como quem não quer nada, como um segredo, e então crescia e delicadamente coloria o seu rosto com cores que eu ainda não havia visto, cores que não existiam antes do seu sorriso. Tudo a volta sorria junto a ele, e eu sorria junto também. Hoje daria um mundo para vê-lo novamente, daria o universo para dividir um com você. Mas agora você está tão distante e me odeio por tê-la deixado partir. Você e seu sorriso.

Lembra daquele dia no parque? Eu estava caminhando pela grama e olhava o céu, completamente desorientado, zanzando e perdido. Então, de repente, você me apareceu e mudou aquele dia. Você sempre teve essa mania deliciosa de aparecer quando eu menos te esperava, me surpreendendo sempre e enchendo de sol aqueles dias nublados, de cor esses dias cinzentos e de vida a minha vida morta. E que sabor enebriante teve aquela sua conversa naquele parque. Era hipnotizador assistir à seus lábios se movimentando tão docemente. Era como se eles inventassem uma palavra nova toda vez que as ouvia, como se eu as tivesse ouvido pela primeira vez. Naquele dia todas as conversas invejaram os seus lábios gentis e desejaram serem ditas por eles. Mas agora é triste perceber que há tempos esses meus ouvidos não dividem uma dança com a sua doce voz. E com essa distância toda, me odeio por tê-la deixado partir. Você e seus lábios.

Você ainda usa aquele mesmo perfume? Espero que sim, porque aquele aroma está impregnado em minha memória. Ele se instalou em seu trono e reina minha imaginação desde o dia em que o senti pela primeira vez. Suave e marcante. Único. Perco o compasso da respiração e suspiro lentamente toda vez que me lembro da maneira gentil que seu perfume ganhava os ares e planava até mim. E era como se pedisse licença para que eu pudesse senti-lo e, com a permissão, gentilmente invadia meu fôlego, ocupando cada pequeno espaço e deixando minha respiração solta, levíssima. Jamais desejei respirar tanto o ar quanto aquele que você banhava com seu perfume delicado e perfeitamente delicioso. E agora não há mais lugar em que seu perfume passeie distraidamente e nem pessoa em quem seu aroma suavemente descanse desde quando você se foi. Me odeio por tê-la deixado partir. Você e seu perfume.

Mas há apenas uma pergunta da qual preciso ouvir a resposta, antes mesmo de todas as outras. Há apenas uma questão não respondida que me toma parte de mim todos os dias, quando me levanto pela manhã. Responda-me, quando você voltará? Como um pai que procura o filho, perdido na multidão por descuido, por um pequeno segundo que não recebeu a atenção merecida, a minha pergunta procura a resposta. E como este pai, me culpo pela falta, pelo espaço vazio. Eu a perdi em meio a multidão. Diga-me então quando você irá voltar e me perdoar por tê-la deixado partir, pois tudo o que preciso agora é do seu sorriso deslumbrante, iluminando tudo e a mim. Preciso da sua doce voz, dos seus lábios gentis. Preciso do seu perfume, respirar o seu ar. Preciso de você. Somente você.

Saudades,

Aquele Que A Deixou Partir.

PS: O inverno começa em breve. Não demore a voltar.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Cidadezinha

Há uma pequena cidade, num lugar de gente pequena. Pequenas são as casas, são os sonhos, os medos e pequena é a vida naquele canto esquecido. Aqueles que lá moram sempre moraram e não conseguem imaginar como pode ser um outro lugar fora dali - se é que existe. Ninguém jamais saiu daquela cidadezinha e nem pensam sair. Se perguntados sobre o motivo de morarem lá e há quanto tempo, seus moradores não sabem como responder e tudo o que pensam e dizem é que sempre foi deste jeito e que sempre será. Não existe espaço para grandes mudanças naquela cidadezinha.

Mas aconteceu que, num tempo muito pequeno, alguns poucos habitantes começaram a adoecer e um após o outro caiam de cama. E logo todos os moradores estavam doentes. Tudo começava com um desconforto discreto nas pontas dos pés, mas até aí o doente não desconfiava porque todos costumavam andar com os pés nus, e então pensavam: "Devem estar cansados estes pés descalços". Depois o desconforto começava numa dor lá pela boca do estômago e tudo o que entrava saía no mesmo instante, e então os moradores só podiam tomar uma sopa rala e sem graça. Mas ainda não desconfiavam que algo estava errado e logo pensavam: "Deve ser aquela safra de abobrinha que não vingou bem". E quando nada parecia poder piorar, então subia um peso pelas costas como se tivessem derrubado uns dois ou três sacos de milho sobre os ombros, e o peso ia aumentado e aumentando até o doente não conseguir ficar mais em pé por muito tempo. Só aí os moradores começaram a desconfiar de que algo não ia bem. A esta altura já metade da população não podia mais andar direito e ninguém entendia de onde isso vinha. Uns diziam que era pecado contra o Divino, e alguns afirmavam que os males vieram das cidades vizinhas, daquele amontoado de gente doente. Mas, por mais que tentassem entender, a situação continuava a piorar.

E as discussões se seguiram desta maneira, não tão acaloradas porque poucos ainda tinham forças para falar. O falatório continuou até que um morador teve uma pequena ideia: "Precisamos de um doutor". Todos pararam as pequenas discussões e, com um aceno discreto de cabeça, concordaram. E assim foi feito. Os que ainda tinham foças colocaram uma pequena placa na entrada da cidade e um tempo depois apareceu um tal doutor. Era todo de branco, com uma cara velha e amarrada. Uns achavam que se parecia muito com a cara do cavalo xucro do Seu Miguel. O doutor foi chegando, achou um canto numa casinha e começou a fazer seu trabalho.

O primeiro atendido foi o próprio Seu Miguel, que ficou de pé na sala de atendimento enquanto o doutor, sem olhar, pediu para ele tirar a camisa e o chapéu e deitar numa cama ali ao lado. O doutor despendurou alguma coisa do pescoço, colocou nos ouvidos e a outra ponta colocou no peito do paciente. O objeto tinha um toque gelado, e Seu Miguel, se tivesse mais forças, iria rir da cara de cavalo xucro do doutor. "É problema de coração.", saiu da boca do doutor com uma voz grave e sem emoção. "Mas, Seu doutor, não é meu peito que dói. Tem uma coisa nos pés, na boca do estômago e nas costas, mas não tem nada no peito.", retorquiu o Seu Miguel numa voz mirrada. "Veja bem, Meu senhor, a minha especialidade é o coração. Passei metade da minha vida dedicada a esta parte do corpo e agora tenho certeza quando digo que o problema é neste coração velho! Tome estes remédios e diminua a quantidade de gordura, e então tudo vai ficar bem.", decretou com aquela voz que não se alterava com o passar das palavras, monótona e sem vida. Seu Miguel se levantou, colocou novamente a camisa e o chapéu, pegou os remédios e saiu cabisbaixo. Lá fora a fila era grande, e todos olharam para Seu Miguel e comentaram: "Ele já parece mais saudável! Este doutor é dos bons".

E com os outros moradores foi a mesma história. Quanto mais insistissem que não havia dor nenhuma no peito, mais o doutor respondia da mesma maneira, passando os mesmos cuidados com voz inalterada e a mesma cara velha e amarrada. Quando todos já haviam sido tratados, o doutor partiu da cidade com a certeza de que o tratamento seria eficiente. "Mais um trabalho muito bem feito.", dizia para si mesmo. Porém, alguns dias depois da partida, o primeiro tratado morreu. Os familiares não sabiam explicar, pois o ex-vivo havia parado de reclamar do incômodo nos pés, da dor na boca do estômago e do peso nas costas. Mas numa manhã, meio de chuva e de Sol, o Seu Miguel havia deixado a cidadezinha da única maneira que algum morador poderia deixa-la. E depois dele, outros moradores também tomaram o mesmo destino e as discussões novamente ganharam um pouco mais daquela lenha mirrada: "É pecado!" falavam uns, "É castigo do Divino!" tentavam gritar outros, "São males das outras cidades!" diziam vozes sumidas. Até que um morador, muito do esperto, ponderou: "Acho que agora precisamos de um outro doutor. Mas um que não fale só de coração". Os moradores no começo pareciam mais resistentes, mas como ideia melhor não apareceu, então assim foi feito.

E dessa vez a placa na entrada da cidade pedia por outro doutor, um que não entendia apenas de coração. E outro doutor logo apareceu e arrumou um canto para fazer seu trabalho. Mas a história não foi muito diferente, pois este doutor insistia que o problema era na cabeça. E quanto mais tentassem explicar que tinha uma coisa nos pés, no estômago e nas costas, mais o outro doutor afirmava: "É na cabeça, meu Senhor! Estudei por anos esta parte do corpo, o que me autoriza e dá certeza em dizer que o problema é nesta cabeça velha.", dizia com a voz inalterada e tediosa, prescrevendo seus remédios e cuidados que os doentes deveriam tomar. E mais a frente, quando todos estavam convencidos do problema de cabeça, o outro doutor partiu com a certeza de que o tratamento correto foi dado aos moradores. "Mais um trabalho excelentemente guiado!", pensava consigo mesmo o outro doutor, enquanto saía da cidade. Mas não demorou muito para que mais pessoas saíssem da cidade da única maneira que um habitante poderia sair. Morreram a dona Maria, o seu Geraldo, o Mané da esquina, o Zé, o doidinho da goiabeira, a Florinda boleira, a Florinda costureira, o seu Manoel, a Zefinha do seu Manoel, a dona Aparecida, o padeiro Pedro, o pedreiro Pedro, o padre...

Agora poucos moradores sentam em suas cadeiras em frente às casas, lá pelo comecinho da noite. Não há mais tanto burburinho, nem mais fofoca. Não tem mais missa, não teve a festa de São João. Nem mesmo chove naquele canto esquecido do mundo. Caem apenas umas gotas tristes, como se elas mesmas tivessem perdido a esperança de chover. E lá pelas tantas, há uma nova placa na entrada da cidadezinha, meio pendida e meio malfeita, com os seguintes dizeres: "Procura-se alguém, qualquer um, que cure".

terça-feira, 20 de março de 2012

Memória

Ele voltou para a casa de seus pais e era a mesma que podia lembrar, e o outono também era parecido com todos os outros que já havia visto em sua cidade natal. Nasceu numa manhã de outono que se parecia muito com aquela. As bagagens já haviam sido colocadas ao lado da cama do antigo quarto que ainda mantinha na parede alguns cartazes, fotos e outras lembranças de um tempo que parecia muito distante quando ele parou para olhar. Eram pedaços de um passado que ele quis deixar para trás quando foi embora, e agora estava de volta tentando reencontrar esse mesmo passado que agora lhe escapa. Deitou-se na cama com o lençol recém trocado e ali ficou por um tempo longo demais e, ao levantar, um pouco aliviado do cansaço e da longa viagem, decidiu visitar as pessoas e os amigos que havia deixado quando decidiu partir - seus pais haviam tomado o cuidado de preparar um caderno com nomes, endereços e telefones. Seus antigos amigos também eram os mesmos, a não ser pelas rugas cavadas pelo tempo e os cabelos brancos que tomavam conta ou eram escondidos. Ele tentava não parecer envergonhado quando os antigos amigos traziam as fotos e as recordações do passado que ele não conseguia relembrar. Em desespero, tentava alimentar a sensação de que tudo estava exatamente da mesma maneira, apenas um pouco mais desgastado pelo tempo. Acreditar nisso era uma maneira de fugir do pavor de estar perdendo, aos poucos, o que era seu e também a si mesmo.

Estava esfriando, e a conversa com os antigos amigos também. Então voltou para a casa, que agora parecia que nunca havia abandonado, e entregou-se a um demorado banho quente. Muito quente. E debaixo da água que caía abundantemente, não conseguia ouvir nada além das gotas batendo pesadas em seu corpo e que escorriam sem rumo até alcançarem os seus pés. Fechou os olhos e afundou-se em pensamentos, completamente imerso num oceano vazio onde o tempo passava preguiçosamente. Debaixo da água não havia mais sons e não havia mais corpo, apenas os pensamentos, e naquele vazio ele percebeu que sua vida foi tediosa e agora lhe escorria lentamente, como a água que banhava seu corpo e desaparecia logo depois, esvaziando-se lentamente até o ralo. Pelo menos a vida que podia lembrar, e essa era sem emoção, sem aventura e sem culpa. Deu-se o luxo de odiar-se e tentou desejar algo diferente para si, reconstruir-se. Quem sabe perder o medo e desencilhar-se das correntes que ele mesmo obrigou a usar. Em uma última tentativa de redenção, tentou  resgatar estórias passadas de ousadia, mas nada ocupava esse lugar. Sobraram somente as estórias de medo e de cautela. O resto eram apenas imagens desfocadas, lugares abandonados e sorrisos amarelos - era nada. Por tudo o que lutou e fez, o que realizou intensamente? Havia algum motivo - pequeno, que seja - para se orgulhar, ou mesmo dar um largo sorriso e gargalhar ao contar suas estórias para amigos na mesa de um bar qualquer? Se as escrevesse em um livro, quanto pagariam por sua vida?

Abriu os olhos, a água escondia algumas lágrimas. Com a cabeça fora da água ouviu, lá da cozinha, sua mãe cozinhando. E o aroma era delicioso. Seu pai, no escritório, gritava para a mãe onde estavam os seus óculos e ela gritava que não sabia. Com o corpo fora da água tudo pareceu ter mais sentido. Apenas pareceu, mas acreditava que era suficiente e agarrou-se a essa sensação - como quem abraça a amada no momento do reencontro - para não afundar novamente, como havia acontecido nos últimos meses. Talvez pudesse contar estórias na mesa de um bar qualquer e com um sorriso largo no rosto. Talvez pudessem comprar sua vida naquele livro esquecido no canto de uma livraria qualquer. E isso tudo bastava. Queria apenas poder lembrar, pois outra parte já havia escorrido.

Demorou um pouco mais que o prudente no banho, só para poder ouvir sua mãe gritar o seu nome e para se apressar. Logo depois ela gritava o pai da mesma maneira, alto e docemente. Já no quarto, enquanto escolhia algumas roupas, guardava as demais de volta ao antigo armário. Se fechasse os olhos, talvez pudesse recuperar os segredos que escondia ali dentro quando era adolescente, mas agora estava vazio e as lembranças ficavam cada vez mais distantes, inalcançáveis, inacessíveis. Agora quase poderia jurar que, quando saísse do quarto e encontrasse seus pais na cozinha, eles estariam exatamente como estavam há muito tempo atrás, jovens e despreocupados. Qual foi sua surpresa quando os viu muito velhos. Mas permaneceu em silêncio. Tentava ficar quito o quanto possível, porque sabia que não poderia preencher os espaços vazios da conversa com coisas do passado. Naquela conversa morna, gostava do sorriso que os pais velhos davam de vez em quando, contando velhas estórias, e tentava encontrar escondido neles alguma pequena luz que iluminasse a completa escuridão de seus pensamentos. Agora precisava acreditar em tudo o que lhe contavam sobre ele mesmo, e isso consumia toda sua sanidade. Antes estivesse enlouquecendo, desejava.

Terminou de comer e voltou ao quarto, em silêncio. Quando a noite chegava e ele deitava para dormir, sua mente era perturbada por dores terríveis - que durante o dia eram suportáveis, mas a noite eram sobrehumanas - e por um medo que tomava conta de tudo e ocupava cada espaço do seu pensamento: quando acordasse amanhã, o que mais teria desaparecido? Conseguiria ao menos se dar conta do que estava faltando, notar que algo mais havia sumido, mais um outro pedaço dele mesmo? Mesmo assombrado, caiu no sono. Talvez o sonho pudesse ser um pedaço perdido, perguntava-se isso toda manhã. Enquanto dormia, a doença o consumia, ocupava cada espaço das suas memórias. As suas lembranças amarelavam-se, desprendiam, despencavam e eram levadas pela brisa do outono, como as folhas das árvores lá fora. Lentamente. Lentamente...

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O Palhaço

Ninguém previu aquela tarde de chuva, nem mesmo aquele monte de gente da televisão e nem o Garoto que espera sob a cobertura de um ponto de ônibus no meio da grande cidade. Talvez seja por isso que ele, com a cabeça seca e pés molhados, não gosta muito daquela gente de televisão. Ao menos a chuva não era tão forte, mas mesmo assim ele tem um medo sem tamanho de pegar um resfriado, ainda mais nas suas férias. Seria muito ruim perder alguns dias preso a cama. Aquela gente de televisão nunca acerta.

O Garoto balança os pés e segura as bordas do banco com as mãos enquanto observa as gotas que caiam nas poças ali perto e quase não presta atenção numa figura que vinha andando em direção ao mesmo ponto de ônibus. Mas, enquanto olha para o chão, vê um sapato grande demais para qualquer pé pisar na poça e, subindo um pouco o olhar curioso, vê calças também muito grandes para quaisquer pernas. Eram vermelhas, cheias de lantejoulas, com pequenos círculos amarelos e presas por suspensórios que se cruzavam no peito. E a camisa, a peça mais discreta, tinha listras verdes e violetas. No rosto, a exagerada maquiagem estava escorrendo um pouco, mas o nariz vermelho tinha um brilho especial por causa da água e não se incomodava com as pequenas gotas que caiam em tempo marcado. Ao encarar o nariz vermelho, os pés do Garoto se aquietaram. O Palhaço, enquanto caminha lentamente com um pequeno guarda-chuva, pequeno mesmo, tanto que mal o cobria e tão vermelho quanto o nariz, olha por alguns instantes o Garoto sentado e de olhar curioso. Com um breve suspiro o Palhaço se senta, fecha o pequeno guarda-chuva vermelho e, como o Garoto fazia a pouco, começa a observar as gotas de água caírem nas poças ali perto. O Garoto acompanha cada movimento do Palhaço, esperando que ele fizesse alguma coisa extraordinária. Mas o Palhaço, sem tirar os olhos das gotas que se desmanchavam no chão, apenas diz:

―Você consegue ver essas gotas de água. - faz uma pausa e inclina o ouvido em direção ao Garoto, como se esperasse uma resposta, mas o Garoto permanece quieto, apenas olhando aquela figura colorida - Talvez você consiga ver, mas será que pode enxergá-las? - então o nariz vermelho do Palhaço se desvia para o olhar atento do menino.

O Garoto, que continua parado e não diz e nem pensa algo para responder, ainda espera a coisa extraordinária, que até então não havia acontecido. Os dois continuam da mesma maneira por um tempo como dois pássaros que esperam a chuva passar, empoleirado em um galho, imóveis e pacientes. O Garoto, agora com as mãos juntas sobre o colo, parece procurar alguma coisa dentro do Palhaço, mas nenhum dos dois diz alguma coisa ou faz algum movimento durante esse tempo. E então, diante do silêncio, o Palhaço continua:

―Eu vejo as gotas e você também. Todo mundo consegue ver aquelas gotas, assim como vêem tudo o que existe por aí. Eles vêem essa chuva caindo, essa rua, essas casas a nossa volta e eles vêem umas as outras. Mas eles não sabem enxergar. Tudo o que eles têm são apenas imagens, figuras que eles não sabem perceber nem entender diferenças entre elas. Eles apenas vêem e tudo é igual para eles. Para o olhar desatento dessas pessoas aquelas gotas são iguais umas as outras, a rua é a mesma que as demais e as casas também são todas parecidas. E as pessoas? Se viram uma, viram todas e não há diferença entre uma e outra. Essas pessoas não sabem enxergar.

Então o Garoto volta a observar as gotas caindo no chão, tentando descobrir se podia enxergá-las. O Palhaço sorri, um riso discreto, que se escondia atrás da tinta no seu rosto.

―Eu aposto que você pode enxergá-las. - diz o Palhaço ao perceber a preocupação do menino - Os pequenos enxergam tudo e sempre sabem como fazer isso. São os grandes que só sabem ver, porque eles esqueceram ou se cansaram de enxergar. E mais, são eles quem ensinam as crianças a apenas ver. - o Garoto volta a olhar o Palhaço, que continua - Sabe, acho que os grandes fazem isso porque tem inveja das crianças. Você não acha?

O Garoto não sabe.

―Tenho certeza que sim. Os grandes têm inveja dos pequenos porque esqueceram-se de como é ser um. Muitos deles tentam ser uma outra vez, mas ficam apenas na tentativa e nunca será a mesma coisa. Não é fácil não ser, sabia? E é por isso que eles sofrem. Mas os grandes têm essa mania de não reconhecer, viver e muito menos aceitar a dor. Elas preferem muito mais ocupar esse espaço com um monte de outras coisas, ocupando cada segundo da vida apressada deles com um monte de coisas que inventaram justamente para isso, para esquecer da dor. Como eles são burros. Só estão piorando tudo.

Neste momento, enquanto o Palhaço volta a observar a chuva caindo e o Garoto perde o olhar no pequeno guarda-chuva vermelho, um carro passa muito rápido por eles e faz jorrar toda a água das poças onde as gotas se desmanchavam ali perto. Depois que o carro vira a esquina, não muito longe de onde estavam, o Palhaço começa a rir uma risada diferente das que o Garoto costuma ouvir por aí. Risada de palhaço mesmo, única, contagiante e de verdade. A coisa extraordinária! O Garoto ri uma risada diferente das que costumava rir. Os dois gargalham segurando o estômago, mais molhados que antes, até doer barriga, até quando o motivo se perdeu. Algazarra, gargalhada, riso, sorriso, respiração ofegante.

―Está vendo!? - diz o palhaço com um grande sorriso - Estão sempre com pressa! E aposto que o motorista nos viu aqui.

―Mas não enxergou a gente. - diz o Garoto, com o mesmo largo sorriso no rosto ensopado.

E riram outra vez. O Garoto quase que não nota o ônibus que pára e abre as portas à sua frente e por um segundo se esqueceu que era este ônibus que esperava para voltar pra casa. O garoto olha para o grande que dirige o ônibus, que esbraveja se o menino vai subir ou não, que tem horários a cumprir, que não tem tempo para ficar esperando. O Garoto desce do banco, já sem o grande sorriso, sobe o primeiro degrau com um pouco de dificuldade e, ainda no degrau, volta a olhar o Palhaço, que continua com o mesmo grande sorriso, com as mesmas grandes roupas e com o pequeno guarda-chuva vermelho sobre o colo.

―Você é engraçado. - diz calmamente o menino com um pequeno sorriso enquanto as portas do ônibus se fecham com a mesma pressa do condutor.

E enquanto partia, o Garoto esfrega as mãos no vidro embaçado da janela e enxerga o Palhaço acompanhar com o olhar o ônibus até sumir, lá longe, atrás das gotas de chuva que escorriam pelo vidro.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A parte

Falta uma parte
Falta essa peça
Com esse vazio
o resultado é outro
Ela faz toda diferença
e o resultado é pouco
É outra coisa
Indiferente
Falta a parte

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Um parágrafo

Os sentimentos passam muito longe do que é prudente e racional. O amor tem outros caminhos, muito diferentes dos lugares que a lógica e o bom senso costumam visitar. Entender direito as coisas que aconteceram não serve para mudar tudo o que está acontecendo e é necessário muito mais do que isso, é preciso muito mais do que apenas compreender e é exigido muito mais de nós, talvez até mais do que podemos oferecer ou suportar, para que então as coisas sejam diferentes. Talvez a grande questão seja saber que, na verdade, nunca deixamos de amar aquele alguém que um dia ocupou uma parte do nosso coração. A não ser que se possa transformar o sentimento em alguma outra coisa, como raiva, indiferença ou respeito e amizade, o amor continua lá, mesmo com ordem de despejo, como se nunca tivesse saído e jamais se esquecido daquele alguém. Então, quando tudo foi perdido, fica aquela sensação de que podemos comandar nosso coração e somos senhores de nossos sentimentos, e que quaisquer outras pessoas podem tomar o lugar daquele alguém. Mas é bem verdade que o desejo não reconhece voz de comando e um espaço antes ocupado não pode ser tomado por qualquer outro. Não há mapa e nem são conhecidos os caminhos que os sentimentos escolhem, e eles simplesmente seguem, mesmo e principalmente quando não conseguimos mais continuar caminhando.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Desconserto

Bruno é um respeitável senhor com seus pesados setenta e dois anos, dos quais cinquenta foram ao lado da esposa que venera como nenhum homem de sua idade saberia venerar uma mulher. Ele acorda um pouco antes do Sol e prepara seu famoso cafezinho e seu filho chega logo depois, antes de ir ao trabalho, para tomar um copo na companhia do pai. Os dois tem uma conversa rápida e a esposa de Bruno se levanta a tempo de dar um beijo no menino antes de ele sair. É dessa maneira que todas as manhãs começam naquela casa e ainda assim Bruno tem aquela sensação de coisa boa que somente essas simplicidades podem lhe garantir. O cheiro do café fervendo na garrafa e a visão da esposa sentada a sua frente o faz lembrar da manhã em que a conheceu. Sabia, naquela desavisada manhã de chuva há mais de cinquenta anos, que tinha conhecido a mulher com quem queria estar ao lado todos os dias. Não demorou muito e a insistência do jovem Bruno levou os dois ao casamento, ao único filho e a essas manhãs com café, filho e adoração. Além dos pesados anos, Bruno carregava um amor desmedido por sua esposa. Mas ela é e sempre foi fria e altiva, nunca dando o braço a torcer e, de fato, Bruno nunca ouviu palavras carinhosas daquela boca pequena e adorada. Bruno não se importava com a falta de demonstração de amor, apesar de ele mesmo sempre dizer e fazer coisas que homens de sua idade não saberiam dizer e fazer. Por ela, aquela visão que não perde seu brilho desde aquela desavisada manhã há cinquenta anos, Bruno faria e faz qualquer coisa. É um homem bom que sabe amar como nenhum homem de sua idade saberia, mas infelizmente o motivo de seu sorriso não sabe sorrir. Bruno, com seus pesados setenta e dois anos, não sabe o que é sentir-se amado.

Maria é uma mulher que corre contra-mão das mulheres de hoje em dia e ela sabe muito bem disso. Não trabalha, pois prefere ficar em casa e cuidar de suas coisas com um zelo admirável que não existe no mundo desde quando sua avó era jovem e sonhadora. Gosta da transformação, através de suas mãos, de coisas sujas e bagunçadas em coisas limpas e em seus devidos lugares. Ama cada retrato pendurado nas paredes, imagens que contam uma história que gosta de visitar todos os dias. Ama cozinhar, e como cozinha bem! Ama cada peça de louça, tanto quanto ama lavá-las. Ama cada mobília em seu devido aposento, numa disposição que sempre foi a mesma e com a decoração que foi dela própria: cada cortina, vaso de flores, bibelôs, livros nas estantes, rendas, tapetes, mesas de centro, eletrodomésticos, pinturas, espelhos... tudo era dela, lhe pertenciam. Na verdade Maria era a própria casa e adora quando o aroma de limpeza e de boa comida invade o ar e abraça a chegada do marido depois de um cansativo dia de trabalho. Talvez Maria amasse mais a própria casa do que amava o marido, ou talvez na mesma medida, mas era certo que não poderia viver sem qualquer um dos dois. Cumpria, com louvor, as suas obrigações de casa e de cama e sente orgulho de si mesma. Maria é feliz, mas infelizmente o mundo não é mais o mesmo de quando sua avó era jovem e sonhadora. Maria fingia não ouvir os maldosos comentários de suas amigas, que eram como as mulheres de hoje em dia são, tentando esconder o quanto a dilacerava se sentir feliz por ser uma mulher que significasse pouca coisa nos dias de hoje. Dentro de casa, Maria sabia a exata medida da felicidade. Fora dela, aos olhos do mundo de hoje em dia, era uma mulher submissa, ultrapassada e burra por amar ser como era. Maria, com seu zelo desmedido ao escolher ser dona de casa, não saía para o mundo lá fora há um bom tempo.

Clara ainda mora com a mãe e visita o pai quando tem tempo sobrando, o que é raro, e há alguns anos, quando seus pais estavam se separando, a menina usava todas as forças que tinha para fingir que estava tudo bem. Conseguia isso com grande esforço e deixando uma ideia tomar conta de sua vida, a de que existiam pessoas com problemas piores por aí. Clara tentava esconder o sentimento de abandono, de quando era uma garotinha frágil e sozinha no meio de um pai que não amava sua mãe e tenta esquecer as noites em que se escondia embaixo de sua cama e tapava os ouvidos com muita força para não ouvir as brigas dos dois. E hoje a mulher Clara sabe cuidar muito bem de outras pessoas, muito mais do que sabe cuidar da sua própria vida. Sempre disposta a ajudar qualquer um que peça qualquer coisa, ela não sabe medir o tamanho dos favores e muito menos dizer não. Talvez, se cuidasse do sofrimento dos outros, ela poderia ignorar o próprio sofrimento e assim parecer forte, quando na verdade estava desmoronando. Talvez por isso escolheu fazer medicina, uma escolha que atenderia todos esses medos infantis e pudesse trazer um tanto de paz ao seu espírito perturbado por esses fantasmas do passado. Por isso todos sempre esperaram de Clara um porto seguro e conforto quando tudo o mais era desespero. Familiares, amigos e desconhecidos sempre recorrem a ela quando tudo dava errado e Clara sempre estava ali para ajudar. Mas ninguém possui tempo ou disposição em perguntar se tudo estava bem com ela. Clara, sabendo que a sua vida é um punhado de sentimentos mal resolvidos e revoltados por não receberem atenção há tanto tempo, sofre sozinha e ninguém sabe disso. Talvez nem ela mesma.

Augusto é um desprezível homem de negócios. Ama ninguém, não tem apreço por coisa alguma e nunca preocupou-se com qualquer pessoa. Seu maior orgulho é seu iate que, segundo ele mesmo diz, é para fugir dos problemas que tem.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sozinha

Sentada sozinha numa romântica mesa do restaurante que ela conhecia bem. Há muitos anos morava na casa em frente e sempre assistia pela sua janela aquelas cenas que só se viam nos filmes. Muitos casamentos começaram ali, bem a sua frente, quando era apenas um criança sonhadora. Cresceu pendurada a antiga janela, sonhando com o dia em que um rapaz fizesse o mesmo pedido a que estava tão habituada, e mesmo quando não morava mais na antiga casa em frente ao restaurante, continuava sonhando com o dia em que esse amedrontado rapaz pedisse algo que ela já saberia a resposta, pois a ensaiou durante toda a sua infância. E era nesses momentos, quando estava meio perdida no mundo dos sonhos, que ouvia a voz de sua mãe pedindo que ela saísse daquela janela e fosse brincar lá fora e que voltasse um pouquinho pra realidade. Mas ela não ouvia, e agora ela achava engraçado olhar a sua antiga casa pela janela do restaurante, imaginando se deste ponto de vista ela poderia ver a vida que seus pais tinham juntos - as brigas frequentes, as lágrimas e as decepções que aconteciam bem ao seu lado, mas estava ocupada demais sonhando com o rapaz amedrontado que lhe faria um pedido. Eles eram ótimos pais, mas não eram um bom casal e não sabiam estar próximos um do outro sem discutir sobre qualquer coisa. Quando seus pais se separaram ela já era crescida, quase uma mulher, e alguns anos depois foi para a faculdade, para o emprego dos seus sonhos e para a sua nova casa. Sozinha.

Talvez ela não soubesse de início porque ainda estava sentada ali, naquela mesa do restaurante, quando tudo o queria era ir pra casa e terminar aquela noite. Talvez mais tarde se arrependesse de ter saído, mas isso não iria acontecer ali, pois naquele momento tudo o que queria era ir para casa. Pagou a conta do jantar e levantou-se bem devagar e, andando sozinha pela rua, talvez ela não tivesse percebido que o tempo passava rápido. Talvez não tivesse percebido que estava tarde demais para se andar por aí sem companhia, mas não foi sua culpa. Se dependesse de sua vontade, agora estaria segurando o braço direito de alguém e teria no rosto um lindo e indiscreto sorriso, mas a vida é escritora sádica e irônica. Ela sempre sonhou com o homem que pediria sua mão e que os dois pudessem ter aquela vida de cinema com o "felizes para sempre", mas esse homem, até aquele momento, não havia chegado. Talvez ela não pudesse perder as esperanças, mas com certeza estava cansando daquilo tudo. Há um bom tempo já não via os filmes com seus forçados "felizes para sempre", que aliás era o único lugar onde via tal coisa. Da janela de sua antiga casa ela sempre via o começo, que era o que estava em todos os filmes, mas o durante e o depois ela nunca conseguiu ver, pois a história sempre acabava nessa parte. Talvez se tivesse olhado com mais atenção para dentro da antiga casa onde morava poderia ter visto o depois do pedido de seus pais, a continuação, o que acontece depois do "felizes para sempre", mas estava ocupada demais assistindo apenas o começo de tudo isso. Essa noite ela pensava nessas coisas mais do que quando apenas se preocupava com o pedido, quando era apenas uma criança e morava na antiga casa, em frente ao restaurante.

Parecia que, por enquanto, Alguém permitiu que nada de ruim lhe acontecesse e talvez esse mesmo Alguém não tivesse permitido, apenas por enquanto, que um amedrontado rapaz lhe fizesse o pedido que ela ainda estava esperando. A longa caminhada chegava a seu destino e ela ficou alguns longos minutos parada em frente a casa que conseguiu com o próprio trabalho. Ela a admirava por fora e tentava se imaginar como um desconhecido qualquer que parasse em frente à uma bela casa, e que este desconhecido se colocasse a imaginar as pessoas que moravam lá dentro. Quem sabe esse desconhecido imaginasse um casal de sorte por morar em uma casa tão admirável e que eles tivessem um casal de filhos de sorte por terem pais tão agradáveis. E, sem querer, ela sorriu diante de seu devaneio e entrou em sua casa com a sensação de que realmente alguém estaria ali dentro a esperando e que perguntaria a ela como foi o dia, e que entraria nos quartos com paredes coloridas e estantes cheias de brinquedos e daria um pequeno beijo no rosto de duas lindas crianças. A sensação passou assim que abriu a porta. Ela estava sozinha.

Deitada sozinha na cama de uma casa que ela conhecia bem. Ela nem se incomodava mais com as discussões constantes do casal que morava bem ao lado de sua janela e nem tentava mais entender o que poderia ter dado de errado no meio do caminho deles - apesar de o começo ter sido perfeito, pois ela o havia assistido de sua janela na antiga casa. Há muitos anos morava um tanto longe dali, onde existiam dores que ela nem se dava conta, e agora a companhia na cama era seu próprio sofrimento. Depois de um tempo esse ilustre companheiro não mais a incomodava, pois sabia que os sofreres não podem se acumular infinitamente. Um novo sofrer ocupa o lugar de uma antiga ferida, alguns menores e outros mais espaçosos. E assim a vida segue em frente, aos tropeços. Mesmo que às vezes ela tenha desejado ardentemente que as coisas parassem de acontecer tão rapidamente e que tivesse tempo para respirar. Mas ainda assim o vento continuava a soprar, seus pais continuavam a envelhecer, mais um dia vinha depois da noite ou mais uma noite depois do dia. Ela teve de se habituar ao curto fôlego que lhe foi permitido respirar. E assim a vida segue a arrastando, mas ela já está acostumada. Estava sozinha e, apenas por enquanto, aquilo lhe parecia suficiente.