Ainda deitado em sua cama, ele abriu os olhos e era dia. O Sol invadia o quarto através da janela que esqueceu aberta. Esfregou nervosamente os olhos e esperou até acostumar-se com a claridade e, um tanto zonzo, encarou duramente o relógio pendurado na parede à frente. Marcava seis horas da mais pura inconveniência e deboche. Os ponteiros se riam dele e o corpo lhe doía - o braço mais que o resto, pois teve de aguentar o peso durante todo o sono. Havia uma sensação insistente de que acabara de deitar-se para dormir e também a certeza de que o dia começava na hora errada. Tentou apenas ignorar a invasão - virou o corpo para o outro lado, cobriu a cabeça com os travesseiros e esbravejou como se o tempo pudesse ser obrigado a retroceder... nada adiantou.
Contrariado, odiou-se por ter deixado a janela aberta, e contrariado se levantou. Demorou um pouco até conseguir manter o equilíbrio e só então pôde dar passos decididos em direção àquela perturbadora com a intenção de fechá-la, voltar para a cama e continuar a dormir o sono dos merecedores e dos despreocupados - deixar as coisas como estavam, como deveriam estar. Porém desistiu assim que descansou suas mãos sobre o parapeito. Lá fora o horizonte, que aos poucos tomava cor, se expandia. A terra tomava forma à medida que o Sol se pronunciava timidamente, como se não soubesse que era rei. Não pode segurar o sorriso que, tímido como o amanhecer, crescia como se não soubesse que era possível. O sorriso amanhecia seu rosto.
Então veio o sentimento que até este momento tentou ignorar. Era aquele sentimento que espera o segundo exato para invadir, o habilidoso aproveitador das mais pequenas e inacreditáveis oportunidades. Começou ali, discreto, em um canto esquecido do peito, e a sensação entendeu o convite feito pelo sorriso e espalhou-se. O sentimento tomou-lhe conta de cada pequeno espaço e, com paciência divina, lhe conquistou o olhar. E o conquistado, entregue e rendido de bom grado, tomou o fôlego da brisa que chegava junto da luz. O vento lhe contava segredos que até então não estava disposto a ouvir, e os ouvia com carinho. E o calor do Sol lhe beijava o corpo, suspirando umas verdades que antes tomava como mentiras, e agora as acreditava com estima.
Não pôde resistir ao desejo de superar a janela e ganhar a paisagem. O Sol o convidava, chamando-o pelo nome e cantando cada sílaba - uma melodia que lhe foi conduzida pela primeira vez. Os pés descalços tocavam delicadamente o solo, que correspondia gentil ao afago. Flutuava. O olhar, preenchido com as visões do amanhecer, tinha um brilho que não existiu antes em seus olhos castanhos - uma claridade nova se evaporava deles. Resplandecia. Caminhou a passos curtos, saboreando a imensidão já velha conhecida, mas completamente nova. Talvez, se pudesse, teria percebido que era ele o que havia de novo naquela paisagem, um outro que não teve o devido tempo para reconhecer-se. Mas essa preocupação não o perturbou, pois naquele momento um desejo lhe desenhava os pensamentos. Parou e suspirou a oração ao vento e desejou. Quis que o mundo tivesse espaços mais abertos, que houvessem idéias mais soltas e corações que batessem mais alto. Desejava-o a si. Então, já desprendido, correu livremente e confidenciou segredos e pensamentos. E seu coração gritava... não se continha, não cabia mais naquele peito. Era um outro. Era novo.
E sua vida, que até então era desenhada somente de contornos não preenchidos, - arte sem suas cores - pintou-se. Seu peito, antes sem sentido, agora entendia o motivo da respiração. Seus pés, que antes desconheciam seus caminhos, agora os sabiam e o levava com diligência. Sua casa, que era vazia, encheu-se de quadros em suas paredes, tapetes pela sala, de janelas abertas e cortinas que dançavam ao vento - era maior. E agora o coração batia completo, e leve conduzia a ele todo. Era mais vivo.
Não se assustou com o dia que se desmanchava, nem com a luz que ficava distante. O Sol fazia seu caminho até detrás da colina sem pressa, escondendo sua luz e seu calor. Mas não se desesperou, pois sabia que amanheceria mais uma vez, e outra e mais outra. De volta à sua casa, arrastou a cama e a deixou bem à frente da paisagem lá fora - agora a cama lhe parecia mais aconchegante. E deitado observava esperançoso e paciente a janela aberta que assim permaneceria... esperando. Esperando.
