terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O trem

―Olá. Importa-se se eu sentar aqui?
―Claro que não. O trem está lotado?
―Na verdade eu não olhei o trem todo. Esta é a primeira cabine que encontrei com um assento vazio. Mas se for um incomodo, eu procuro outro lugar.
―Imagina! Pode ficar a vontade.
―Obrigado. ... Você aceita? São morangos que eu mesmo plantei e colhi.
―Nossa, como são vermelhos! Você é agricultor ou algo assim?
―Morava num sítio. Coisa pequena, uns cinco alqueires. Agora estou justamente de mudança.
―Hum, esses morangos são deliciosos mesmo. Mas o que aconteceu? Não suportou mais morar por lá?
―Na verdade vou noivar. Pelo menos eu espero.
―Logo notei que alguém seria o motivo da mudança. É um buque de rosas vermelhas ali naquela sacola?
―É sim. Esse aqui é o anel que escolhi. E agora, reparando bem, você é uma mulher tão bonita quanto ela.
―Obrigada.
―Então pode me dar sua opinião? Acha que ela vai gostar do anel?
―É maravilhoso! Aposto que ela também vai gostar. A propósito, você está vindo de onde?
―Estou vindo da estação da cidade de Amizade. Conhece?
―Conheço sim. Sempre gostei muito daquele lugar.
―Pois bem, foi lá que conheci minha garota. Mas fiquei por aquelas bandas por muito tempo, tanto que nem tenho a conta. Aquele lugar fica tão irritante depois de uns tempos, mas eu não pude fazer muita coisa. No começo minha garota também gostava de lá, então eu precisei esperar a vontade dela de sair daquela cidade. Um dia, sem mais nem menos, ela sumiu. Foi embora sem mim. Descobri que ela tinha pegado este trem e debandado pra estação de Amor, uma cidadezinha que nunca conheci, e agora eu estou indo pra lá procurar por ela e dizer o que eu sempre senti. Você conhece essa cidade?
―Também a conheço.
―Pela expressão no seu rosto, parece que não gostou muito de lá.
―É sim. Bom... no começo achei o lugar incrível. É uma cidade bem pequena, não moram muitas pessoas por lá. Mas como ia dizendo, no começo era o lugar mais lindo que tinha conhecido. Acordava com o Sol no meu rosto todos os dias e o tempo todo uma brisa fresca soprava em todo lugar que eu ia. Aquelas casinhas antigas, todas branquinhas, as pessoas sorrindo da janela sempre que diziam um olá para mim. Até hoje não consigo esquecer o perfume daquele lugar. É difícil descrever. É um perfume que enche as narinas com um aroma morno, doce e irresistível.
―E por que, ainda assim, saiu de lá sem gostar da cidade?
―É que apesar de ser um lugar inacreditavelmente lindo e acolhedor, lá o tempo passa como em todos os outros lugares e ele é tão implacável como em qualquer outra cidade. Depois de alguns anos morando por lá parecia que meu coração já não batia no mesmo ritmo de antes e, como quando o corpo rejeita um órgão recém transplantado - mesmo sabendo que daquilo depende sua vida - meu corpo passou a rejeitar aquele lugar. Então não queria mais acordar lá, a brisa se tornou um vento frio, não suportava mais a brancura das casas velhas e aqueles sorrisos pareciam forçados para mim. Já o perfume continuava o mesmo e era a única coisa que me prendia lá. Mas depois de um tempo já não valia mais a pena e então fui embora.
―Que triste. E para onde você foi depois disso?
―Fui para Solidão. É bem longe de Amor e não é um lugar tão incrível assim, mas aquela cidade me deu espaço pra respirar e colocar algumas coisas no lugar. É da estação de Solidão que peguei este trem.
―Senti a mesma coisa em Amizade. Depois de um tempo meu corpo passou a rejeitar aquele lugar, como aconteceu a você em Amor.
―Amor e Amizade são cidades bem parecidas, para dizer a verdade. Mas Amizade não tem aquele perfume doce e que no final faz toda a diferença. É... acho que é isso mesmo. É o perfume que faz toda a diferença. Acho que, como eu, você não vai esquecer aquele perfume.
―Só irei descobrir quando chegar lá.
―Mas é bem assim. A gente só sabe quando conhece Amor. Só de falar não faz sentido, tem que conhecer mesmo.
―Espero que sim.
―Mas e se não encontrar sua garota por lá?
―Tenho certeza que ela foi parar lá. Ela ouviu sobre as coisas de Amor e não falava de outro lugar nos últimos tempos. Quando ela sumiu, tive certeza de que era para lá que foi. Ela sempre foi muito sonhadora, sabe?
―E por que você não pediu a mão dela em Amizade, antes de ela partir?
―Não sei. Às vezes achava que Amizade era o lugar perfeito para nós dois. Só nos últimos tempos, quando minha garota não parava de falar de Amor, foi que cansei daquele lugar. Apesar de sempre ter gostado da minha garota, nunca tive coragem de dizer o que sinto por ela. Acho que a culpa é do lugar. Não sei explicar, mas eu me sentia mais seguro em Amizade e, como minha garota sempre esteve por lá, não me incomodava com a cidade.
―Entendo. Amizade é um lugar que faz esse tipo de coisa com a gente. Talvez em Amor, com aquele perfume inesquecível, você crie a coragem para dizer todas essas coisas que você sente.
―Vou sim. Foi falta minha não ter dito antes. Só quando soube que minha garota não queria mais estar em Amizade, que ela queria viver em Amor, foi que percebi o quanto sempre detestei aquele lugar. Agora espero encontrá-la e pedir a mão dela em casamento.
―E você não tem medo de que ela tenha ido com outro homem para lá?
―Não. Ela não... Por que ela faria isso?
―Bem. Ela nunca soube, por falta sua, que você gostava dela. Talvez ela tenha ido à Amor para encontrar um outro homem que possa dizer as coisas que sente.
―Isso não pode ser. Como ela faria isso comigo?
―Sabe como as pessoas são. Elas, por mais que esteja estampado na nossa cara o que sentimos, ainda assim exigem que a gente fale e prove que aquilo é verdade.
―Mas e agora? Não sei o que pensar direito? E se ela encontrar esse outro homem antes de eu poder lhe dizer a verdade?
―Acho que é melhor você tentar encontrá-la e ver em que as coisas vão dar. No seu lugar eu faria a mesma coisa. Bom, para falar a verdade eu fiz a mesma coisa que você tempos atrás e fui à busca de um homem que ainda não tinha conhecido. Como a sua garota, eu também era muito sonhadora. Para mim ele podia estar em qualquer lugar e eu o procurei em muitas cidades, viajando neste mesmo trem, e por fim acabei encontrando ele em Amor. Ele era o homem que eu sempre quis ter conhecido e como fui feliz. Também não tive coragem de dizer o que sentia e também acho que ele não gostava muito daquela cidade porque um dia ele foi embora e eu não tive a chance de dizer o que sinto. Mas como eu disse a você, a gente só pode saber quando conhece Amor. Não posso garantir que vá conseguir encontrar sua garota por lá e nem que ela esteja sozinha, mas com certeza vale a tentativa.
―Agora você está indo atrás desse homem pra dizer o que sente por ele?
―Não mais. Eu já o procurei em muitos lugares. Fico feliz apenas de saber que eu o encontrei, de saber que ele existe e está por aí. Mas alimento a esperança de que um dia nós dois nos encontraremos em algum outro lugar. Sabe como as coisas são: quando procuramos, perdemos, e quando paramos de procurar, encontramos. Além do mais, esse é o único trem por essas bandas e com certeza, num dia qualquer e sem esperar, nós dois vamos subir nesse mesmo trem e seguir pro mesmo lugar.
―Espero que você o encontre.
―Eu também espero que você consiga dizer o que sente para sua garota. E olha só como o tempo é implacável, mesmo dentro deste trem. Veja! Já chegamos à estação da cidade de Amor. E sinta o perfume! Ele me traz muitas lembranças, doces momentos. Posso até ouvir os sinos da igrejinha tocando lá longe.
―Não quer descer aqui também? Talvez seu homem esteja por aqui.
―Não vou descer. Como disse, eu não o estou procurando. Vou descer em outra estação. Mas boa sorte para você. Desejo que seu coração encontre o ritmo desse lugar, assim como o meu um dia encontrou, mas perdeu.
―Então me dê um abraço. Foi incrível te conhecer e conversar com você. Não sei explicar... parece que alguma coisa mudou, mas tudo continua como antes. Sinto que quero te encontrar outra vez, em outro lugar que não tenha tantas lembranças como este.
―Digo o mesmo. Só não esqueça que Amor não é a única cidade que este trem visita. Depois de um tempo esse lugar nos faz pensar isso, então nós nunca desejamos ir embora. Amor prende as pessoas que nela se perdem, portanto tome cuidado. Se não encontrar aqui o que procura, como um dia eu encontrei e perdi, lembre-se que existem outros lugares para ir e a que este mesmo trem pode levar.
―Obrigado pelo aviso. Mas a propósito, para onde você está indo agora?
―É uma estação depois da estação de Amor. Chama-se Realidade. Espero poder encontrar outra vez meu ritmo nesta nova cidade. Agora, adeus e até outra viagem!
―Adeus! E boa sorte no caminho à frente.
―O mesmo para você. Mas... veja! Você está esquecendo o buque da sua garota.
―Rosas são presentes para mulheres, então pode ficar com elas. Será uma boa lembrança e o perfume é bem parecido com o deste lugar. Espero poder te encontrar neste mesmo trem um dia.

E com um sorriso discreto e escondido no meio de seu rosto, ele passou pela porta e desceu na estação. Um letreiro ao alto indicava o destino em letras exageradamente vermelhas: Estação da Cidade de Amor. O perfume era realmente incrível.

Ela olhava para o mesmo letreiro, com o destino que um dia também foi o seu, e sentia o perfume das flores exageradamente vermelhas que descansavam em seu colo. E agora o aroma trazia com ele uma nova, doce e incrível lembrança.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Presente

Como é difícil encarar o fato de que você nunca esteve aqui. Você foi embora e nem me deu ao menos a chance de saber o seu nome, de conhecer o seu rosto, de saber dos seus gostos e das coisas que você odeia. Não me deram a mínima chance de conhecer seu endereço, de saber dos seus medos, qual o seu prato favorito, se gosta da manhã, da tarde ou da noite. Eu não conheço o seu time, os empregos que você teve, se você gosta de andar de carro ou a pé. Não sei qual a sua estação favorita, o dia do seu aniversário e nem quantos anos você tem agora. Mas acho que não me importaria de saber todas essas coisas se ao menos eu soubesse o motivo de você nunca ter estado aqui do meu lado. Adoraria saber, mesmo se fosse um motivo bobo ou se fossem aquelas coisas pequenas as quais os adultos dão importância demais. Adoraria saber que a culpa não foi minha, mesmo que eu não pudesse fazer coisa alguma naquela época. Queria que fosse um mal entendido, uma brincadeira de mal gosto ou um dia ruim. Mas o que eu tenho é nada. Nenhum nome e nenhum motivo. Apensa silêncio e um vazio.

Como é difícil esperar por alguém que nem ao menos tem um rosto, que é apenas uma idéia. É como se  fosse uma tela em branco que eu pudesse pintar com as cores que eu quiser, fazendo os traços da minha maneira e preenchendo os espaços vazios com um pouco dos sonhos e das expectativas que tive em noites longas demais. Isso é muito perigoso e tenho medo de o meu quadro não ser nada como realmente você é. Com certeza não é. Mas apesar disso é engraçado as coisas serem desse jeito porque aqui dentro, onde tudo é possível, você pode ser um tanto mais alto e em outros momentos um tanto baixinho. Às vezes você têm bigodes e às vezes é careca. Um senhor azedo sentado num banco de praça, ou um jovem sonhador demais. Rico, ou pobre. Cheio de amigos, ou sozinho. Um homem íntegro, um malandro. E me perco muitas vezes montando um quebra cabeças que sempre tem um resultado diferente, que sempre tem peças faltando, sempre com espaços vazios.

Quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho de altura, subia no galho mais alto da árvore mais alta onde eu pudesse ver o horizonte e tentava encontrar ao menos a direção que você tomou há tanto tempo. Aquilo era incrivelmente divertido pra mim. Não sentia medo, por mais alto que eu estivesse ou por mais distante que você estivesse. Não sabia me sentir triste por você não estar lá e não saber que direção você tomou, talvez porque não me ensinaram que a sua ausência fosse algo triste ou inaceitável. Na verdade me parecia que era uma coisa comum você não estar ali, como se acontecesse com todo mundo, e com pouco mais de um metro e pouquinho a sua ausência não doía. E além do mais, naquele tempo, pra mim você poderia ter ido em direção a uma aventura. Talvez você fosse um pirata, ou um homem de negócios. Poderia ser um bombeiro ou um detetive. Você podia ser aqueles homens que buscam ruínas no meio de grandes florestas, podia ser um médico nos campos de batalha espalhados pelo mundo. Você podia ser qualquer coisa. E você era tudo, inclusive o vazio. Talvez esse seja o único grande presente que você tenha me dado porque lá em cima, no último galho, a imaginação ficava mais perto do céu, mais perto dos ventos que desciam até onde eu estava e levavam as grandes idéias pra bem longe, talvez pra mais perto de você. Eu enchia o vento com bons e incríveis pensamentos só sobre você. Ficava muito feliz quando percebia que todo mundo tinha pessoas que eram apenas uma coisa só na vida, enquanto que eu tinha alguém que era tudo. Eu sempre tentei te fazer presente, mesmo sendo um grande vazio. Você era um segredo, ninguém podia saber que você existia aqui dentro de mim fazendo coisas inacreditáveis mundo afora. Parecia que a sua partida incomodava mais as pessoas a minha volta do que a mim mesmo, então por isso te escondia em cima daquela árvore.

Naquele tempo jamais passou pela minha cabeça despreocupada o quanto seria doloroso o vazio que, por descuido ou egoísmo, você deixou. E agora me pergunto o que faria se você me aparecesse e abraçasse e dissesse olhando nos olhos que sentiu a minha falta, que teve saudade de alguém que você nunca conheceu. Talvez eu falasse de todas as coisas que você perdeu, de todos os anos que saíram voando por aí e eu nem percebi. Falaria dos primeiros passos, do primeiro dente a crescer e a cair. Da primeira professora, do primeiro amigo, da primeira surra, da última despedida. Da primeira bronca e da última cintada. Do primeiro amor, da primeira briga, da primeira desilusão. Do primeiro porre, da primeira burrada, do último lugar em que estive.  Falaria do primeiro e do último sonho. Talvez te falasse de todas as coisas que você era e fazia quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho. Talvez quisesse apenas te ouvir ou talvez simplesmente pedisse pra você ir embora. Não sei se diria que você perdeu tempo demais porque na verdade não existiu tempo pra nós dois. Nunca senti a sua falta e só hoje percebi o porque. Os espaços que eram para serem seus foram preenchidos por outras pessoas tão incríveis quanto as coisas que escondi no galho mais alto da árvore mais alta. Essas pessoas fizeram apenas uma coisa que eu não consegui imaginar pra você: elas cuidaram de mim. E hoje não sobrou nada de mim pra você. Não há espaço, está tudo preenchido. Não perdemos tempo, mas nós nos perdemos e agora é tarde demais. Tempo é tudo o que não tivemos.