segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Olhar

Fiquei parado na sua frente e não sabia se dizia alguma coisa ou te deixava sair. Tudo o que fiz foi te olhar, mas não como sempre olhava pra você, não com os mesmos olhos. Eram outros, que guardei comigo por muito tempo e esse olhar não perdeu sequer um pouco do brilho que teve desde o começo. A minha esperança é que meus olhos pudessem falar, que você pudesse entendê-los e que você pudesse olhar tudo aquilo que eu não fui e não sou capaz de te dizer. O meu maior medo é de o brilho não ser suficiente e eu ser obrigado a dizer exatamente as palavras que nunca puderam ganhar o ar e encontrar descanso em seus ouvidos. Mas não houve um dia em que eu não desejasse que você pudesse ouvi-las, para que eu pudesse então ouvir as suas. E agora penso que o meu desejo de te ouvir é mais urgente do que o meu desejo de ser ouvido.

Agora tudo o que quero é que você fique parado aí na minha frente e tente entender o que eu não consigo e não posso te dizer. Mas não fomos ensinados a ouvir o silêncio e não entendemos os olhares. E mesmo se soubéssemos essas coisas, ainda assim seria exigido dizer e mais ainda provar que tudo é verdade. Para o meu desespero, é exatamente isso que foge do meu controle. Seria tudo tão mais simples se você pudesse me entender, mas tudo o que ouço de você é um "não consigo entender porque você tá tão quieto". Mal consigo respirar quando escuto o seu "foi alguma coisa que eu fiz?". Como queria poder dizer "sim, a culpa é toda sua". Mas não posso, me falta ar. Não quero dizer coisa alguma pra você.

O que eu quero é que você estivesse aoi meu lada desde o começo, naquela tarde quente e apressada em que eu vi, pela primeira vez, a razão de todo esse silêncio. Queria que você soubesse, com apenas um ohar, toda a incrível admiração e desejo que sinto. E como quero que aquele dia fosse apagado, destruído ou ao menos esquecido como um sonho conturbado de uma longa e quente noite de sono. Essas coisas não são mais possíveis. 

Esse silêncio é enlouquecedor. E apesar de você ser o motivo da minha loucura, essa foi uma loucura que eu mesmo quis pra mim e não posso ser trancado num sanatório qualquer onde eu pudesse estar distante da minha humanidade, longe de toda vontade que sempre me quer levar de volta pra você. Você me fez prisioneiro, mas eu sou meu próprio carcereiro, meu próprio punidor e fui eu mesmo quem me algemou. Não há nenhuma vontade de fugir.

Ainda assim te deixo partir e espero pela mesma tarde quente e apressada em que você entenderá e assim eu poderei me libertar e finalmente dizer que você foi, é e sempre será o mais bonito e intenso motivo do meu sofrimento. Então continue parado aí enquanto me vê dizer "te amo".

Nenhum comentário:

Postar um comentário