quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Presente

Como é difícil encarar o fato de que você nunca esteve aqui. Você foi embora e nem me deu ao menos a chance de saber o seu nome, de conhecer o seu rosto, de saber dos seus gostos e das coisas que você odeia. Não me deram a mínima chance de conhecer seu endereço, de saber dos seus medos, qual o seu prato favorito, se gosta da manhã, da tarde ou da noite. Eu não conheço o seu time, os empregos que você teve, se você gosta de andar de carro ou a pé. Não sei qual a sua estação favorita, o dia do seu aniversário e nem quantos anos você tem agora. Mas acho que não me importaria de saber todas essas coisas se ao menos eu soubesse o motivo de você nunca ter estado aqui do meu lado. Adoraria saber, mesmo se fosse um motivo bobo ou se fossem aquelas coisas pequenas as quais os adultos dão importância demais. Adoraria saber que a culpa não foi minha, mesmo que eu não pudesse fazer coisa alguma naquela época. Queria que fosse um mal entendido, uma brincadeira de mal gosto ou um dia ruim. Mas o que eu tenho é nada. Nenhum nome e nenhum motivo. Apensa silêncio e um vazio.

Como é difícil esperar por alguém que nem ao menos tem um rosto, que é apenas uma idéia. É como se  fosse uma tela em branco que eu pudesse pintar com as cores que eu quiser, fazendo os traços da minha maneira e preenchendo os espaços vazios com um pouco dos sonhos e das expectativas que tive em noites longas demais. Isso é muito perigoso e tenho medo de o meu quadro não ser nada como realmente você é. Com certeza não é. Mas apesar disso é engraçado as coisas serem desse jeito porque aqui dentro, onde tudo é possível, você pode ser um tanto mais alto e em outros momentos um tanto baixinho. Às vezes você têm bigodes e às vezes é careca. Um senhor azedo sentado num banco de praça, ou um jovem sonhador demais. Rico, ou pobre. Cheio de amigos, ou sozinho. Um homem íntegro, um malandro. E me perco muitas vezes montando um quebra cabeças que sempre tem um resultado diferente, que sempre tem peças faltando, sempre com espaços vazios.

Quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho de altura, subia no galho mais alto da árvore mais alta onde eu pudesse ver o horizonte e tentava encontrar ao menos a direção que você tomou há tanto tempo. Aquilo era incrivelmente divertido pra mim. Não sentia medo, por mais alto que eu estivesse ou por mais distante que você estivesse. Não sabia me sentir triste por você não estar lá e não saber que direção você tomou, talvez porque não me ensinaram que a sua ausência fosse algo triste ou inaceitável. Na verdade me parecia que era uma coisa comum você não estar ali, como se acontecesse com todo mundo, e com pouco mais de um metro e pouquinho a sua ausência não doía. E além do mais, naquele tempo, pra mim você poderia ter ido em direção a uma aventura. Talvez você fosse um pirata, ou um homem de negócios. Poderia ser um bombeiro ou um detetive. Você podia ser aqueles homens que buscam ruínas no meio de grandes florestas, podia ser um médico nos campos de batalha espalhados pelo mundo. Você podia ser qualquer coisa. E você era tudo, inclusive o vazio. Talvez esse seja o único grande presente que você tenha me dado porque lá em cima, no último galho, a imaginação ficava mais perto do céu, mais perto dos ventos que desciam até onde eu estava e levavam as grandes idéias pra bem longe, talvez pra mais perto de você. Eu enchia o vento com bons e incríveis pensamentos só sobre você. Ficava muito feliz quando percebia que todo mundo tinha pessoas que eram apenas uma coisa só na vida, enquanto que eu tinha alguém que era tudo. Eu sempre tentei te fazer presente, mesmo sendo um grande vazio. Você era um segredo, ninguém podia saber que você existia aqui dentro de mim fazendo coisas inacreditáveis mundo afora. Parecia que a sua partida incomodava mais as pessoas a minha volta do que a mim mesmo, então por isso te escondia em cima daquela árvore.

Naquele tempo jamais passou pela minha cabeça despreocupada o quanto seria doloroso o vazio que, por descuido ou egoísmo, você deixou. E agora me pergunto o que faria se você me aparecesse e abraçasse e dissesse olhando nos olhos que sentiu a minha falta, que teve saudade de alguém que você nunca conheceu. Talvez eu falasse de todas as coisas que você perdeu, de todos os anos que saíram voando por aí e eu nem percebi. Falaria dos primeiros passos, do primeiro dente a crescer e a cair. Da primeira professora, do primeiro amigo, da primeira surra, da última despedida. Da primeira bronca e da última cintada. Do primeiro amor, da primeira briga, da primeira desilusão. Do primeiro porre, da primeira burrada, do último lugar em que estive.  Falaria do primeiro e do último sonho. Talvez te falasse de todas as coisas que você era e fazia quando eu não tinha mais que um metro e pouquinho. Talvez quisesse apenas te ouvir ou talvez simplesmente pedisse pra você ir embora. Não sei se diria que você perdeu tempo demais porque na verdade não existiu tempo pra nós dois. Nunca senti a sua falta e só hoje percebi o porque. Os espaços que eram para serem seus foram preenchidos por outras pessoas tão incríveis quanto as coisas que escondi no galho mais alto da árvore mais alta. Essas pessoas fizeram apenas uma coisa que eu não consegui imaginar pra você: elas cuidaram de mim. E hoje não sobrou nada de mim pra você. Não há espaço, está tudo preenchido. Não perdemos tempo, mas nós nos perdemos e agora é tarde demais. Tempo é tudo o que não tivemos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário