sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Sozinha

Sentada sozinha numa romântica mesa do restaurante que ela conhecia bem. Há muitos anos morava na casa em frente e sempre assistia pela sua janela aquelas cenas que só se viam nos filmes. Muitos casamentos começaram ali, bem a sua frente, quando era apenas um criança sonhadora. Cresceu pendurada a antiga janela, sonhando com o dia em que um rapaz fizesse o mesmo pedido a que estava tão habituada, e mesmo quando não morava mais na antiga casa em frente ao restaurante, continuava sonhando com o dia em que esse amedrontado rapaz pedisse algo que ela já saberia a resposta, pois a ensaiou durante toda a sua infância. E era nesses momentos, quando estava meio perdida no mundo dos sonhos, que ouvia a voz de sua mãe pedindo que ela saísse daquela janela e fosse brincar lá fora e que voltasse um pouquinho pra realidade. Mas ela não ouvia, e agora ela achava engraçado olhar a sua antiga casa pela janela do restaurante, imaginando se deste ponto de vista ela poderia ver a vida que seus pais tinham juntos - as brigas frequentes, as lágrimas e as decepções que aconteciam bem ao seu lado, mas estava ocupada demais sonhando com o rapaz amedrontado que lhe faria um pedido. Eles eram ótimos pais, mas não eram um bom casal e não sabiam estar próximos um do outro sem discutir sobre qualquer coisa. Quando seus pais se separaram ela já era crescida, quase uma mulher, e alguns anos depois foi para a faculdade, para o emprego dos seus sonhos e para a sua nova casa. Sozinha.

Talvez ela não soubesse de início porque ainda estava sentada ali, naquela mesa do restaurante, quando tudo o queria era ir pra casa e terminar aquela noite. Talvez mais tarde se arrependesse de ter saído, mas isso não iria acontecer ali, pois naquele momento tudo o que queria era ir para casa. Pagou a conta do jantar e levantou-se bem devagar e, andando sozinha pela rua, talvez ela não tivesse percebido que o tempo passava rápido. Talvez não tivesse percebido que estava tarde demais para se andar por aí sem companhia, mas não foi sua culpa. Se dependesse de sua vontade, agora estaria segurando o braço direito de alguém e teria no rosto um lindo e indiscreto sorriso, mas a vida é escritora sádica e irônica. Ela sempre sonhou com o homem que pediria sua mão e que os dois pudessem ter aquela vida de cinema com o "felizes para sempre", mas esse homem, até aquele momento, não havia chegado. Talvez ela não pudesse perder as esperanças, mas com certeza estava cansando daquilo tudo. Há um bom tempo já não via os filmes com seus forçados "felizes para sempre", que aliás era o único lugar onde via tal coisa. Da janela de sua antiga casa ela sempre via o começo, que era o que estava em todos os filmes, mas o durante e o depois ela nunca conseguiu ver, pois a história sempre acabava nessa parte. Talvez se tivesse olhado com mais atenção para dentro da antiga casa onde morava poderia ter visto o depois do pedido de seus pais, a continuação, o que acontece depois do "felizes para sempre", mas estava ocupada demais assistindo apenas o começo de tudo isso. Essa noite ela pensava nessas coisas mais do que quando apenas se preocupava com o pedido, quando era apenas uma criança e morava na antiga casa, em frente ao restaurante.

Parecia que, por enquanto, Alguém permitiu que nada de ruim lhe acontecesse e talvez esse mesmo Alguém não tivesse permitido, apenas por enquanto, que um amedrontado rapaz lhe fizesse o pedido que ela ainda estava esperando. A longa caminhada chegava a seu destino e ela ficou alguns longos minutos parada em frente a casa que conseguiu com o próprio trabalho. Ela a admirava por fora e tentava se imaginar como um desconhecido qualquer que parasse em frente à uma bela casa, e que este desconhecido se colocasse a imaginar as pessoas que moravam lá dentro. Quem sabe esse desconhecido imaginasse um casal de sorte por morar em uma casa tão admirável e que eles tivessem um casal de filhos de sorte por terem pais tão agradáveis. E, sem querer, ela sorriu diante de seu devaneio e entrou em sua casa com a sensação de que realmente alguém estaria ali dentro a esperando e que perguntaria a ela como foi o dia, e que entraria nos quartos com paredes coloridas e estantes cheias de brinquedos e daria um pequeno beijo no rosto de duas lindas crianças. A sensação passou assim que abriu a porta. Ela estava sozinha.

Deitada sozinha na cama de uma casa que ela conhecia bem. Ela nem se incomodava mais com as discussões constantes do casal que morava bem ao lado de sua janela e nem tentava mais entender o que poderia ter dado de errado no meio do caminho deles - apesar de o começo ter sido perfeito, pois ela o havia assistido de sua janela na antiga casa. Há muitos anos morava um tanto longe dali, onde existiam dores que ela nem se dava conta, e agora a companhia na cama era seu próprio sofrimento. Depois de um tempo esse ilustre companheiro não mais a incomodava, pois sabia que os sofreres não podem se acumular infinitamente. Um novo sofrer ocupa o lugar de uma antiga ferida, alguns menores e outros mais espaçosos. E assim a vida segue em frente, aos tropeços. Mesmo que às vezes ela tenha desejado ardentemente que as coisas parassem de acontecer tão rapidamente e que tivesse tempo para respirar. Mas ainda assim o vento continuava a soprar, seus pais continuavam a envelhecer, mais um dia vinha depois da noite ou mais uma noite depois do dia. Ela teve de se habituar ao curto fôlego que lhe foi permitido respirar. E assim a vida segue a arrastando, mas ela já está acostumada. Estava sozinha e, apenas por enquanto, aquilo lhe parecia suficiente.