Acordei pensando em você. Tenho feito muito isto. Confesso. Existem manhãs em que dói menos que de costume. Há outras em que é especialmente doloroso e até perco o fôlego tentando segurar. Parece que isso tem acontecido pra todo mundo agora que você não está aqui. Esta dor ao invés de você. Mas também existiram algumas vezes em que sorri logo que pensei em você. Desse jeito parece que ainda tem este poder sobre mim. É um dom, sabia? Fazer rir de graça. Então tento me apegar a isto pra não perder o fôlego naquelas manhãs. Pensar em como você me fazia rir tem me ajudado a respirar nos dias em que dói demais pensar em você. Dias como hoje. E por isso quis escrever sobre você. Mas ainda é difícil. Então vou escrevendo aos poucos porque preciso dizer estas palavras. Aí vem a dor mais uma vez. Lembro da sua risada. Respiro. Escrevo mais uma linha. Agora fico sem fôlego e então volto outro dia. Outras palavras vão aparecer amanhã. E desta maneira desajeitada eu consigo.
Eu percebi agora o quanto você fazia parte da minha vida. Da vida de todos aqui. Sem exagero. Não entendo como você arranjava tanto tempo pra cuidar de nós. Esta roupa que estou usando agora foi você quem me ajudou a escolher. Aliás, as cobertas e lençóis e travesseiros e panos de prato e talheres e tudo em casa você ajudou a escolher também. Porque você fazia isto? Não sei. Mas que bom que fazia. Minha vida seria um caos sem você. Sou meio distraído, você sabe. Algumas destas linhas foram escritas enquanto eu andava por aí. Um perigo, você iria dizer. Se deixasse, eu seria atropelado na próxima esquina. Mas que bom que você não deixava. Tenho boas roupas e tenho coisas em casa porque você não deixava eu ser atropelado. E isso era apenas a parte que me cabia, até porque você inventava tempo pra cuidar de todos. Sem exagero. E talvez por isso seja mais doloroso não te ter por aqui. Parece que estou mal vestido e que minha casa está uma zona. Parece que serei atropelado na próxima esquina. Parece que minha vida virou aquele caos. Acho que a de todos. E vamos ter que viver assim por um tempo. Por enquanto tento me acostumar com o caos e a olhar antes de atravessar. Até que isso ajuda a distrair. Prestar atenção nessas coisas ajuda a não pensar naquilo. Mas pensei agora. Não tive como evitar.
Pensei naquele dia. Aquele dia ainda sem nome. Desde aquele dia ficou o vazio. E é tão grande. Não existiu vazio como esse que você deixou aqui. Não só em mim. Tem muita gente ainda tentando recolher os caquinhos. Eu não estou melhor. Mas é porque você sempre foi muito espaçosa. Não a toa ficou esse vazio sem medida. Dá até pra ouvir um eco quando eu choro aqui dentro. Sim, eu choro. Confesso também. Mas nem me olha daquele seu jeito debochado. Você chorava muito também. Vai ver era a falta daquele amor que você vivia reclamando que não tinha. Que bobagem. Se esperasse mais alguns anos talvez pudesse notar que era a mais amada. Mas não daquele amor do filme que a gente viu aquele dia. Eu falo de Amor. O nosso Amor. E desse jeito você era a mais amada de todos. Quem sabe isto tenha te estragado um pouco. Mas você insistia em querer aquele amor do filme. Que besteira. Porque o Amor que temos pra você dava de sobrar. Era muito mesmo. Ainda tem, aliás. E ainda sobra. É nosso presente pra você. Continuar sendo amada o mesmo tanto do vazio que deixou. E é todo seu. Espero que baste.
Mas já adianto que não me basta te Amar de longe. Tem muita saudade. E saudade é uma dor exigente. Só passa com a pessoa certa. Não é que nem desânimo que passa com uma volta na cidade. Ou tristeza que passa com uma dose (ou cinco) de tequila. Saudade não sai desse jeito. Ela fica. Adere à pele como aquele perfume que você usava. É profunda. É insistente. E agora que você foi embora só existe este aroma no ar. Está em todos os lugares, me lembrando o tempo todo que algo não está no lugar. Que alguém não está aqui. Só ficou o perfume da lembrança. Ficou a saudade de você.
Eu sei que você não queria ir. Mas esta é uma das poucas coisas que não escolhemos na vida e, de uma certa maneira, une à todos numa coisa só. E então agora terei que pedir desculpas à todos que já passaram por isto. Desculpem-me aqueles que algum dia tiveram que ficar aqui enquanto aqueles que ama partiram, porque eu sinto que esta dor é apenas minha. É como se fosse sentida pela primeira vez no mundo. Algum dia irei me juntar à vocês. Mas por enquanto ficarei aqui sozinho. Respirando. E lembrando. Ao menos agora eu pude escrever sobre a saudade que ficou. E agora, minha amiga, você pode ficar tranquila sabendo que já escrevi sobre você. E eu posso ficar em paz por um tempo. Só até precisar escrever outra vez. Existem mais coisas pra dizer porque tem ainda muito Amor sobrando. Esta era a reserva pro resto da vida. É o que ficou de você pra gente. E isto, por si só, já é tudo.
Obrigado pela companhia. Até mais tarde.
Lindo o texto, li duas vezes... Você continua escrevendo muito bem!!!
ResponderExcluirFazia muito tempo que não escrevia. Espero poder escrever mais :) faz bem
ExcluirLindo texto!
ResponderExcluirQuanta força!!
Ela sempre permanecerá viva em seu coração.
O tempo passa e, a saudade do que vivemos parece ser dois lembretes... estamos envelhecendo e relembrar é viver aquilo, novamente... como lidar com este fato? Estamos sempre mudando! É possível amar alguém, poeticamente falando, desta forma por tanto tempo?
ResponderExcluirNós mudamos e nossos sentimentos mudam conosco. O amor parece ser o que mais sofre mudanças dessa forma, mesmo porque ele é o sentimento mais duradouro (ou deveria ser). Envelhecer nos torna especialistas em lembrar e revivenciar as muitas saudades que colecionamos. Assistir ao tempo passar, às mudanças inevitáveis, não é fácil boa parte das vezes, mas é a nossa condição.
ExcluirEntão, só resta-nos aceitar essa condição (tempo×envelhecerxnossas vivências) como aceitar com maturidade este fato? Obrigada por responder-me!
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