O seguinte estudo tem como objetivo analisar o desenvolvimento do espécime Guilermu campesius, cujo habitat encontra-se em distantes terras esquecidas pela humanidade e pelo bom senso. Pertencente ao reino dos tolos, filo dos esperançosos, classe dos puros, ordem dos fracos, família dos nômades e gênero dos listrados, os de sua espécie atualmente encontram-se em iminente extinção. De fato, os integrantes de seu bando, apesar de numerosos, possuem hábitos fora do comum se comparados com os de outros bandos da mesma espécie. Os machos abandonam fêmea e filhote antes do nascimento. Parece comum às fêmeas a escolha de machos expulsos de outros bandos. O bando apresenta rituais de confraternização sazonais, geralmente a cada ciclo lunar, e todos os seus membros parecem conhecer os hábitos uns dos outros. Geralmente estão em disputas, principalmente por território e por comida, mas, apesar desse tipo de comportamento, são visíveis os laços que mantém esse grupo tão incomum unido.
Há quatro anos o espécime partiu sozinho, separando-se de seu bando natal e agregando-se a outros espécimes incontáveis que, por motivos parecidos, encontram-se na mesma situação. Num ambiente completamente estranho, alheio e hostil, tentam criar algo que os diferencie do bando em que nasceram e cresceram, numa tentativa de auto-afirmação e talvez como forma de, futuramente, estarem aptos para liderar seus próprios bandos. De acordo com as observações feitas nesse novo habitat, os efeitos causados em campesius são diversos e controversos, ora manifestando comportamentos de euforia, ora momentos de desagrado e visível incômodo. Várias vezes tentou retornar ao seu ambiente original, mas por alguma razão, ainda não observada e compreendida, o espécime em estudo sempre volta para o segundo habitat. Esse movimento é repetido incontáveis vezes ao longo dos meses. Fica difícil elencar possíveis motivos para que o espécime apresente tal comportamento.
Descrita a origem e a atual situação do espécime, chegamos ao impasse em que este estudo se encontra. Nas últimas semanas foram observados comportamentos anormais que nunca surgiram durante todo o período em que este estudo foi executado. Campesius tem preferido o isolamento, passando boa parte do tempo em um estado contemplativo e distante. Nas suas atividades diárias é observável uma mudança qualitativa na forma como desempenha tais funções, sendo observado uma perda de interesse nas coisas que antes o deixavam em um estado de prazer. É recorrente uma expressão muito característica e curiosa e, na maioria das vezes, um líquido cristalino e salgado escorre pelo seu rosto. E o fato ainda mais curioso: quando na presença de um determinado espécime, há extremas mudanças de comportamento, tanto físicas como psíquicas. Campesius apresenta taquicardia, aumento da pressão arterial e da temperatura corporal. Através de análises foi possível comprovar um aumento muito significativo do hormônio ocitocina no sangue de campesius, e ao mesmo passo uma atividade fora do normal é observada no seu sistema nervoso, especificamente na amígdala. Literalmente, campesius é um, quando longe deste espécime em especial, e outro completamente diferente quando este específico espécime está por perto. É um fenômeno extremamente curioso e interessante.
Desse modo, o presente estudo foi concluído, pois, devido às limitações que a técnica científica apresenta, não é possível concluir o que estes fenômenos observados no espécime Guilermu campesius realmente significam. Estudos futuros, talvez, consigam decifrar este enigma intrigante. Mas para nós, como seres humanos, fica claro o que se passa com ele.
