terça-feira, 6 de setembro de 2011

Odiar

É insuportável ver você do outro lado, tão distantemente próximo de mim. Não tenho coragem de atravessar e a pior sensação é de ficar um milímetro mais longe de você, dos seus passos. Como eu queria que os caminhos fossem os mesmos, mas, além de não serem, um dia os dois terão direções opostas e não sei se vão voltar para o mesmo lugar onde estamos agora. Muito provavelmente nunca irão. Eu preciso entender que são caminhos diferentes, mais do que qualquer outra coisa que vem acontecendo nos últimos tempos. Mas te ver caminhando aí do meu lado me faz pensar de um jeito muito errado, faz pensar que o caminho é o mesmo, que você está comigo e não apenas perto de mim. Como eu odeio isso. 

Não consigo ficar bravo pelas coisas odiáveis que você faz. Não consigo não rir das suas piadas sem graça. Não sei te dizer adeus quando você precisa partir. Não sei não sorrir quando te vejo por aí, mesmo que nem te diga um "olá". Apenas por saber que você existe e está em algum lugar por aí me faz sorrir. Não sei dizer não, mesmo que isso seja tudo o que você precisa ouvir de mim. Odeio isso tudo.

Sei que você quer que eu entenda, que eu saia por aí tentando me distrair ou simplesmente esqueça tudo isso. Mas já deve ter ficado bem claro, pelo menos pra mim, que não sei fazer nenhuma dessas coisas. Eu sou minha pior decepção. Ficam apenas tentativas, e todas mais cedo ou mais tarde se tornam  frustradas, sem sentido ou eu canso facilmente delas. Você sabe que odeio isso.

Te quero sempre por perto, e quando está perto quero mais perto ainda e mais. Quero aquela sensação incômoda de proximidade, aquele medo de não saber o que pode acontecer estando tão perigosamente próximo de alguém. A pior parte é que sei que nada acontece e nada acontecerá por mais perigosamente próximo eu esteja de você, por mais que eu odeie isso tudo.

Tenho que aprender que isso tudo pode ser uma incrível mentira que disse pra mim, numa noite longa e divertida onde é mais fácil de se acreditar nesse tipo de verdade. É um sonho, apesar de na maior parte do tempo ele causar muito mais medo e angústia que o mais terrível pesadelo noturno de verão, numa cama qualquer, em qualquer lugar. Alguém, por favor, faça isso tudo parar ou torne tudo verdade. Já não consigo caminhar com todo esse peso nas costas. E pro meu desespero você está ganhando velocidade, tão rápido me deixando pra trás, como se não se importasse. Não me estende a mão, não chama ajuda, apenas me vê diminuir o passo e ir definhando, tombando, caindo. Odiei isso mais que todas as outras coisas.

Agora você consegue enxergar o grande problema? Não consigo te odiar. Tudo o que odeio são coisas que eu mesmo faço ou que eu mesmo provoquei ou quis que acontecessem. Você tem razão, e nunca me prometeu coisa alguma. Nunca me disse que ia estar sempre por perto. Nunca prometeu que me faria sorrir, que queria me ouvir. Nunca me prometeu que se importa com o que faço ou penso. Nunca prometeu que me ajudaria quando eu precisasse. Mas eu sim. Eu prometi todas essas coisas e disse com cada palavra. Parece que eu fui impulsionado por uma força que não estava fora de mim, era uma força que vinha de dentro e que me escravizou, me flagelou e me obrigou a te dizer tudo o que te disse, desde o primeiro dia em que ouvi sua voz. Me fez te prometer todas essas coisas que você nunca quis fazer por mim. Eu te prometi estar por perto e te ouvir. Prometi te fazer rir, sonhar. Prometi te levantar quando caísse no meio do caminho, no meio da tempestade e da solidão. Prometi secar as suas lágrimas e dividir o seu fardo ou carregá-lo todo para você. Infelizmente pra mim, você nunca precisou de todas essas coisas e agora estou aqui, caído no meio do meu caminho, com uma carga insuportavelmente além das minhas forças, me sentindo um inútil, ultrapassado, sendo sozinho, perdido no meio do meu caminho enquanto você ganha o mundo à sua frente. Te vejo cada vez mais distante, mais profundamente distante, pra nunca mais voltar. Ainda me pergunto se vou te ver outra vez, mas essa é outra daquelas mentiras que conto pra mim.

Você se foi, mas eu não te perdi justamente porque você nunca me pertenceu. Você nunca deitou sobre o meu peito. Nunca dividiu a minha cama. Nunca tivemos uma história pra ser contada, pelo menos não a que eu sempre quis contar pra todo mundo que pudesse ouvir. Nunca tivemos nada, não juntos, como eu tanto quis. Somos nada, um sonho, uma loucura minha. Já isso eu adoro.

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