Ele voltou para a casa de seus pais e era a mesma que podia lembrar, e o outono também era parecido com todos os outros que já havia visto em sua cidade natal. Nasceu numa manhã de outono que se parecia muito com aquela. As bagagens já haviam sido colocadas ao lado da cama do antigo quarto que ainda mantinha na parede alguns cartazes, fotos e outras lembranças de um tempo que parecia muito distante quando ele parou para olhar. Eram pedaços de um passado que ele quis deixar para trás quando foi embora, e agora estava de volta tentando reencontrar esse mesmo passado que agora lhe escapa. Deitou-se na cama com o lençol recém trocado e ali ficou por um tempo longo demais e, ao levantar, um pouco aliviado do cansaço e da longa viagem, decidiu visitar as pessoas e os amigos que havia deixado quando decidiu partir - seus pais haviam tomado o cuidado de preparar um caderno com nomes, endereços e telefones. Seus antigos amigos também eram os mesmos, a não ser pelas rugas cavadas pelo tempo e os cabelos brancos que tomavam conta ou eram escondidos. Ele tentava não parecer envergonhado quando os antigos amigos traziam as fotos e as recordações do passado que ele não conseguia relembrar. Em desespero, tentava alimentar a sensação de que tudo estava exatamente da mesma maneira, apenas um pouco mais desgastado pelo tempo. Acreditar nisso era uma maneira de fugir do pavor de estar perdendo, aos poucos, o que era seu e também a si mesmo.
Estava esfriando, e a conversa com os antigos amigos também. Então voltou para a casa, que agora parecia que nunca havia abandonado, e entregou-se a um demorado banho quente. Muito quente. E debaixo da água que caía abundantemente, não conseguia ouvir nada além das gotas batendo pesadas em seu corpo e que escorriam sem rumo até alcançarem os seus pés. Fechou os olhos e afundou-se em pensamentos, completamente imerso num oceano vazio onde o tempo passava preguiçosamente. Debaixo da água não havia mais sons e não havia mais corpo, apenas os pensamentos, e naquele vazio ele percebeu que sua vida foi tediosa e agora lhe escorria lentamente, como a água que banhava seu corpo e desaparecia logo depois, esvaziando-se lentamente até o ralo. Pelo menos a vida que podia lembrar, e essa era sem emoção, sem aventura e sem culpa. Deu-se o luxo de odiar-se e tentou desejar algo diferente para si, reconstruir-se. Quem sabe perder o medo e desencilhar-se das correntes que ele mesmo obrigou a usar. Em uma última tentativa de redenção, tentou resgatar estórias passadas de ousadia, mas nada ocupava esse lugar. Sobraram somente as estórias de medo e de cautela. O resto eram apenas imagens desfocadas, lugares abandonados e sorrisos amarelos - era nada. Por tudo o que lutou e fez, o que realizou intensamente? Havia algum motivo - pequeno, que seja - para se orgulhar, ou mesmo dar um largo sorriso e gargalhar ao contar suas estórias para amigos na mesa de um bar qualquer? Se as escrevesse em um livro, quanto pagariam por sua vida?
Abriu os olhos, a água escondia algumas lágrimas. Com a cabeça fora da água ouviu, lá da cozinha, sua mãe cozinhando. E o aroma era delicioso. Seu pai, no escritório, gritava para a mãe onde estavam os seus óculos e ela gritava que não sabia. Com o corpo fora da água tudo pareceu ter mais sentido. Apenas pareceu, mas acreditava que era suficiente e agarrou-se a essa sensação - como quem abraça a amada no momento do reencontro - para não afundar novamente, como havia acontecido nos últimos meses. Talvez pudesse contar estórias na mesa de um bar qualquer e com um sorriso largo no rosto. Talvez pudessem comprar sua vida naquele livro esquecido no canto de uma livraria qualquer. E isso tudo bastava. Queria apenas poder lembrar, pois outra parte já havia escorrido.
Demorou um pouco mais que o prudente no banho, só para poder ouvir sua mãe gritar o seu nome e para se apressar. Logo depois ela gritava o pai da mesma maneira, alto e docemente. Já no quarto, enquanto escolhia algumas roupas, guardava as demais de volta ao antigo armário. Se fechasse os olhos, talvez pudesse recuperar os segredos que escondia ali dentro quando era adolescente, mas agora estava vazio e as lembranças ficavam cada vez mais distantes, inalcançáveis, inacessíveis. Agora quase poderia jurar que, quando saísse do quarto e encontrasse seus pais na cozinha, eles estariam exatamente como estavam há muito tempo atrás, jovens e despreocupados. Qual foi sua surpresa quando os viu muito velhos. Mas permaneceu em silêncio. Tentava ficar quito o quanto possível, porque sabia que não poderia
preencher os espaços vazios da conversa com coisas do passado. Naquela conversa morna, gostava do sorriso que os pais velhos davam de vez em quando, contando velhas estórias, e tentava encontrar escondido neles alguma pequena luz que iluminasse a completa escuridão de seus pensamentos. Agora precisava acreditar em tudo o que lhe contavam sobre ele mesmo, e isso consumia toda sua sanidade. Antes estivesse enlouquecendo, desejava.
Terminou de comer e voltou ao quarto, em silêncio. Quando a noite chegava e ele deitava para dormir, sua mente era perturbada por dores terríveis - que durante o dia eram suportáveis, mas a noite eram sobrehumanas - e por um medo que tomava conta de tudo e ocupava cada espaço do seu pensamento: quando acordasse amanhã, o que mais teria desaparecido? Conseguiria ao menos se dar conta do que estava faltando, notar que algo mais havia sumido, mais um outro pedaço dele mesmo? Mesmo assombrado, caiu no sono. Talvez o sonho pudesse ser um pedaço perdido, perguntava-se isso toda manhã. Enquanto dormia, a doença o consumia, ocupava cada espaço das suas memórias. As suas lembranças amarelavam-se, desprendiam, despencavam e eram levadas pela brisa do outono, como as folhas das árvores lá fora. Lentamente. Lentamente...