quarta-feira, 2 de maio de 2012

Cidadezinha

Há uma pequena cidade, num lugar de gente pequena. Pequenas são as casas, são os sonhos, os medos e pequena é a vida naquele canto esquecido. Aqueles que lá moram sempre moraram e não conseguem imaginar como pode ser um outro lugar fora dali - se é que existe. Ninguém jamais saiu daquela cidadezinha e nem pensam sair. Se perguntados sobre o motivo de morarem lá e há quanto tempo, seus moradores não sabem como responder e tudo o que pensam e dizem é que sempre foi deste jeito e que sempre será. Não existe espaço para grandes mudanças naquela cidadezinha.

Mas aconteceu que, num tempo muito pequeno, alguns poucos habitantes começaram a adoecer e um após o outro caiam de cama. E logo todos os moradores estavam doentes. Tudo começava com um desconforto discreto nas pontas dos pés, mas até aí o doente não desconfiava porque todos costumavam andar com os pés nus, e então pensavam: "Devem estar cansados estes pés descalços". Depois o desconforto começava numa dor lá pela boca do estômago e tudo o que entrava saía no mesmo instante, e então os moradores só podiam tomar uma sopa rala e sem graça. Mas ainda não desconfiavam que algo estava errado e logo pensavam: "Deve ser aquela safra de abobrinha que não vingou bem". E quando nada parecia poder piorar, então subia um peso pelas costas como se tivessem derrubado uns dois ou três sacos de milho sobre os ombros, e o peso ia aumentado e aumentando até o doente não conseguir ficar mais em pé por muito tempo. Só aí os moradores começaram a desconfiar de que algo não ia bem. A esta altura já metade da população não podia mais andar direito e ninguém entendia de onde isso vinha. Uns diziam que era pecado contra o Divino, e alguns afirmavam que os males vieram das cidades vizinhas, daquele amontoado de gente doente. Mas, por mais que tentassem entender, a situação continuava a piorar.

E as discussões se seguiram desta maneira, não tão acaloradas porque poucos ainda tinham forças para falar. O falatório continuou até que um morador teve uma pequena ideia: "Precisamos de um doutor". Todos pararam as pequenas discussões e, com um aceno discreto de cabeça, concordaram. E assim foi feito. Os que ainda tinham foças colocaram uma pequena placa na entrada da cidade e um tempo depois apareceu um tal doutor. Era todo de branco, com uma cara velha e amarrada. Uns achavam que se parecia muito com a cara do cavalo xucro do Seu Miguel. O doutor foi chegando, achou um canto numa casinha e começou a fazer seu trabalho.

O primeiro atendido foi o próprio Seu Miguel, que ficou de pé na sala de atendimento enquanto o doutor, sem olhar, pediu para ele tirar a camisa e o chapéu e deitar numa cama ali ao lado. O doutor despendurou alguma coisa do pescoço, colocou nos ouvidos e a outra ponta colocou no peito do paciente. O objeto tinha um toque gelado, e Seu Miguel, se tivesse mais forças, iria rir da cara de cavalo xucro do doutor. "É problema de coração.", saiu da boca do doutor com uma voz grave e sem emoção. "Mas, Seu doutor, não é meu peito que dói. Tem uma coisa nos pés, na boca do estômago e nas costas, mas não tem nada no peito.", retorquiu o Seu Miguel numa voz mirrada. "Veja bem, Meu senhor, a minha especialidade é o coração. Passei metade da minha vida dedicada a esta parte do corpo e agora tenho certeza quando digo que o problema é neste coração velho! Tome estes remédios e diminua a quantidade de gordura, e então tudo vai ficar bem.", decretou com aquela voz que não se alterava com o passar das palavras, monótona e sem vida. Seu Miguel se levantou, colocou novamente a camisa e o chapéu, pegou os remédios e saiu cabisbaixo. Lá fora a fila era grande, e todos olharam para Seu Miguel e comentaram: "Ele já parece mais saudável! Este doutor é dos bons".

E com os outros moradores foi a mesma história. Quanto mais insistissem que não havia dor nenhuma no peito, mais o doutor respondia da mesma maneira, passando os mesmos cuidados com voz inalterada e a mesma cara velha e amarrada. Quando todos já haviam sido tratados, o doutor partiu da cidade com a certeza de que o tratamento seria eficiente. "Mais um trabalho muito bem feito.", dizia para si mesmo. Porém, alguns dias depois da partida, o primeiro tratado morreu. Os familiares não sabiam explicar, pois o ex-vivo havia parado de reclamar do incômodo nos pés, da dor na boca do estômago e do peso nas costas. Mas numa manhã, meio de chuva e de Sol, o Seu Miguel havia deixado a cidadezinha da única maneira que algum morador poderia deixa-la. E depois dele, outros moradores também tomaram o mesmo destino e as discussões novamente ganharam um pouco mais daquela lenha mirrada: "É pecado!" falavam uns, "É castigo do Divino!" tentavam gritar outros, "São males das outras cidades!" diziam vozes sumidas. Até que um morador, muito do esperto, ponderou: "Acho que agora precisamos de um outro doutor. Mas um que não fale só de coração". Os moradores no começo pareciam mais resistentes, mas como ideia melhor não apareceu, então assim foi feito.

E dessa vez a placa na entrada da cidade pedia por outro doutor, um que não entendia apenas de coração. E outro doutor logo apareceu e arrumou um canto para fazer seu trabalho. Mas a história não foi muito diferente, pois este doutor insistia que o problema era na cabeça. E quanto mais tentassem explicar que tinha uma coisa nos pés, no estômago e nas costas, mais o outro doutor afirmava: "É na cabeça, meu Senhor! Estudei por anos esta parte do corpo, o que me autoriza e dá certeza em dizer que o problema é nesta cabeça velha.", dizia com a voz inalterada e tediosa, prescrevendo seus remédios e cuidados que os doentes deveriam tomar. E mais a frente, quando todos estavam convencidos do problema de cabeça, o outro doutor partiu com a certeza de que o tratamento correto foi dado aos moradores. "Mais um trabalho excelentemente guiado!", pensava consigo mesmo o outro doutor, enquanto saía da cidade. Mas não demorou muito para que mais pessoas saíssem da cidade da única maneira que um habitante poderia sair. Morreram a dona Maria, o seu Geraldo, o Mané da esquina, o Zé, o doidinho da goiabeira, a Florinda boleira, a Florinda costureira, o seu Manoel, a Zefinha do seu Manoel, a dona Aparecida, o padeiro Pedro, o pedreiro Pedro, o padre...

Agora poucos moradores sentam em suas cadeiras em frente às casas, lá pelo comecinho da noite. Não há mais tanto burburinho, nem mais fofoca. Não tem mais missa, não teve a festa de São João. Nem mesmo chove naquele canto esquecido do mundo. Caem apenas umas gotas tristes, como se elas mesmas tivessem perdido a esperança de chover. E lá pelas tantas, há uma nova placa na entrada da cidadezinha, meio pendida e meio malfeita, com os seguintes dizeres: "Procura-se alguém, qualquer um, que cure".