Vinha caminhando pela rua, sua mãe logo atrás como que assistindo cada passo que dava. O Sol parecia mais quente e os passos mais conscientes; todo o resto era mais vibrante. De alguma maneira fazer aquilo parecia novo para ele: um pé, depois o outro, cuidado com as irregularidades da calçada, olhar para os lados, atravessar a rua. De alguma maneira ele era uma pessoa nova.
Descendo a ladeira, rapidamente reparou um louquinho que subia a rua, vindo na sua direção, cumprimentando compulsivamente cada pessoa em seu caminho. A essa medida o louco estava tão perto que seria impossível mudar o rumo, voltar para trás ou atravessar a rua. O louquinho se aproximava, apertando mãos alheias; algumas correspondiam, outras nem tanto, outras o ignoravam. Um frio perpassou o corpo, aquele louquinho com certeza o cumprimentaria, apertaria sua mão e repetiria o mesmo “cê tá bom?”. O frio transformou-se em medo e o louco estava a alguns passos de distância. Agora era impossível qualquer evasão, pois o louco estava logo a sua frente. O louco estendeu a mão, fixou o olhar, um olhar perdido e desvairado, e pronunciou as mesmas três palavras que havia repetido umas sete vezes pelo caminho. A respiração parou, suas mãos começaram a suar. Não sabia como reagir. O louquinho repetiu: “cê tá bom, bom, cê tá bom?”.
Meio encabulado, ele cumprimentou o louquinho e com um sorriso perguntou: “E como você está?”. O louquinho respondeu “bom tamém!” e esboçou algo parecido com um sorriso. Despediram-se e o louquinho foi em direção à mãe, que com um sutil desvio de olhar, passou direto pelo louquinho e segurou firmemente o braço do filho. O louquinho pareceu não se importar e continuou seu caminho, cumprimentando todas as outras pessoas que caminhavam por ali. A mãe continuou a segurar o braço do filho e ele não protestou nem estranhou o repentino contato. Tudo lhe foi tirado quando estava naquele cubículo da melhor "casa de repouso" daquele lado do país e agora tudo o que pensava era em ter uma vida, a vida que nunca teve, a vida que nunca o permitiram ter.
Dois meses passaram tão rápido depois de ter saído da casa de repouso e da ilustre bondade dos homens de branco que lá cuidavam dele. Durante este tempo ele tentou construir por si mesmo algo que pudesse lhe dar felicidade. A primeira coisa que fez foi deixar o emprego, tinha dinheiro e tempo para decidir como conduzir a própria vida. Ignorou todas as reclamações da mãe, que agora não eram tão mais cortantes como antes, na verdade ele nem dava mais ouvidos a elas. Deixou a casa da mãe em seguida e comprou uma pequena fazenda distante da cidade, e ele próprio construiu o imenso jardim que ocupava a maior parte da propriedade. Ele plantou cada jabuticabeira, cada árvore, cada flor, cada fonte de água. Ali, distante de tudo, distante de todos, ele plantou sozinho a própria vida. Não havia a interferência de ninguém, e estava completamente seguro de tudo. Não havia mais medo nem repressão, mais ninguém pra cobrar coisas, ninguém mais pra dizer que futuro deveria escolher ou com quem deveria se parecer, quem deveria ser seu herói, seu espelho. Sua vida se esvaziou de tudo aquilo e encheu-se de Sol, de jabuticabas... adorava jabuticabas.
A mãe foi visitá-lo algumas poucas vezes, e com o tempo ela própria desistiu de fazer o filho desistir de toda aquela bobageira. Ele não cederia, nem pelo melhor futuro pré-programado. Aos poucos ela percebeu o quanto o filho tinha certeza daquilo tudo, e aos poucos a vida dela própria encheu-se de Sol, de jabuticabas e de flores. Alguma coisa naquele jardim invadiu seu interior, antes intransponível, e nela germinou coisas que nunca antes ela havia deixado crescer. E é claro que ela nunca percebeu que algo estava crescendo dentro dela, o filho nunca esperou que ela fosse notar que ela também havia mudado, assim como também ele mudou. Talvez fosse melhor assim. E ele pensou em como seria bom se as pessoas pudessem transformar a si mesma e as coisas ao seu redor, ou pelo menos passassem a enxergar o mundo de uma forma diferente sem precisarem de um cubículo, de banhos gelados ou de um jardim. Mas logo afastou este pensamento. Imaginar um mundo assim seria loucura.