sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A quebra

O despertador tocou, eram seis e meia da manhã. Olhou por algum tempo o teto, talvez com a esperança de que o dia não precisasse começar ou que ele não precisasse ir trabalhar. Porém isso não aconteceu. Levantou, tomou banho, colocou o terno, amarrou a gravata, tudo muito sistemático. E depois de alguns anos isso se tornara tão inconsciente pra ele, tão fora de sua vontade e automatizado que nem percebia que estava tudo errado, com o cabelo mal penteado, o terno amarrotado e a gravata fora de linha. Então agarrou a maleta, ajeitou os óculos e ajeitou a gravata pela última vez. Comeu qualquer coisa e saiu antes que alguém resolvesse reclamar que estava todo desleixado.

No carro, o rádio ligado com as notícias da manhã e lá fora estava insuportavelmente quente. Não se impressionava mais com o monte de asneiras que o radialista comentava entre uma notícia e outra, o mais eram os mesmos acidentes, as mesmas mortes, os mesmos roubos, o mesmo congestionamento. Como a cidade havia mudado naquelas poucas décadas. Trânsito parado e nada mais a se fazer, mas ainda bem que acordou mais cedo. O barulho das buzinas era tão alto que ultrapassavam o vidro do sedan. Seus dias sempre começavam assim.

Quando chegou ao escritório sua secretária já o abordava, ditando todos os compromissos do dia que mal acabara de começar. Ele a ouvia e ao mesmo tempo a ignorava. Aliás, ele era assim com todas as pessoas com quem conversava. Ele era uma presença ausente. Finalmente sentou em sua cadeira e puxou para si a imensa pilha de processos que deveriam ser analisados, carimbados e encaminhados até o fim do dia. E a cada amontoado de papéis grampeados ele repassava cada momento passado na faculdade de advocacia. Ele nunca soube ao certo porque quis ser advogado, na verdade ele nem queria esta profissão. “A profissão é quem escolheu você”, repetia várias vezes sua mãe com o mesmo olhar implacável e ela fazia questão de lembrá-lo da tradição familiar de advogados respeitáveis. Seus avós, seus tios e primos eram advogados, todos tinham um nome e um escritório próprio. Ele foi o único que quis trabalhar como servidor público, na verdade fora a única coisa que conseguira. E o barulho das máquinas de escrever era tão insuportável quanto o das buzinas no trânsito.

Como não gostava da profissão que o escolheu, tudo que fazia parecia insuficiente. Insuficiente para o chefe, para a mãe e especialmente para ele próprio. Tudo o que fazia naquele escritório com cheiro de naftalina carecia de sentido para ele, assim como também sua vida não possuía sentido algum. Parecia destinado àquilo, e realmente nunca almejara qualquer outro emprego; a única coisa que vinha a sua lembrança era ter de ser advogado. Não quis ser astronauta, muito menos bombeiro, não teve tempo pra isso, pois só conhecera a advocacia e a advocacia o escolhera, como repetia sua mãe todos os dias. Seu pai foi um dos advogados mais renomados do país, e foi porque não é mais. Morreu há uns vinte anos. As lembranças do pai não eram muitas, a única coisa que fortemente lembrava era de sua mãe dizendo: “Você tem de ser igual ao seu pai, ser um advogado melhor do que ele, o que eu acho muito difícil”.

Como queria que o tempo passasse depressa, mas o tempo nunca o obedecia. Os minutos iam se arrastando junto com cada folha de processo lido, com cada carimbo, cada assinatura. A hora do almoço não chegava. O telefone tocava a cada dez minutos. Era seu chefe, que das férias cobrava o serviço. Era como se o velho soubesse cada processo não lido ou mal avaliado, sem contar o jogo de interesses com determinadas papeladas. Era um estorvo. Era uma tortura.

Não estava muito animado para o almoço. Seria o mesmo de sempre, como era de costume. Comeria com sua mãe, sentada do outro lado da mesa, as comidas sem gosto ditas ‘saudáveis’. Como detestava almoçar com a mãe. Na verdade detestava qualquer coisa que a incluísse. Não deu ao menos um irmão para ele, a velha egoísta e sovina. Ouvia em silêncio todas as reclamações dela: o jeito desleixado de ele se vestir, de andar, de falar, de como se arrependia de tê-lo tido, “nem para ser igual a seu pai, quando você vai me dar algum orgulho?”. Isso o destruía. Mas em alguns dias ele tinha uma boa desculpa para almoçar fora, talvez almoçar com os amigos, que não eram muitos, na verdade ele não tinha amigo algum, mas inventava qualquer coisa para ficar sozinho.

Como ele gostava de ficar sozinho deitado no chão, segurando os próprios joelhos. Nesses momentos fechava os olhos e imaginava um mundo melhor, uma vida mais cheia de sentido. Mas não conseguia pensar em muita coisa, não conseguia ter uma visão pois só apareciam processos, cobranças e reclamações. A sensação de não estar em lugar algum, na sua própria companhia, tentando enxergar alguma saída que não existia, nem hipoteticamente, já era o suficiente para ele e, no final disso tudo, sempre voltava pra realidade, a dura e implacável verdade de si mesmo e sentia nojo de si mesmo.

Em todos os dias de sua vida a mesma rotina se repetia. Não conseguia chorar, nem gritar, nem mudar qualquer coisa que fosse; tudo continuava sendo o mesmo. Num dia como outro qualquer acordou, tomou banho, se arrumou, foi pro trabalho, ouviu o chefe reclamar, almoçou com a mãe... Durante todo o dia sentia os olhos pesados, como se quisessem chorar. Sentiu o peito aberto, como se quisesse sangrar. Os pensamentos estavam soltos e seu corpo todo dormente. Nenhuma palavra entrou, nenhuma outra saiu de sua mente. Era como se estivesse ficando completamente desligado, perdido, insensível. No jantar ouviu as reclamações da mãe, o ambiente hostil de sempre, e ouviu claramente ela dizer: “Me arrependo profundamente de ter um filho fracassado como você”. Talvez tenha sido a única coisa que conseguiu ouvir naquele dia, e depois dessas poucas palavras tudo o que conseguia distinguir era um zumbido na sua cabeça que começou discreto e distante e ia aumentando, se aproximando, deixando ele cada vez mais apavorado,  mais perdido. Entrou no quarto, jogou as coisas no chão, tirou o terno que o parecia sufocar, perdeu o controle de si mesmo. Parecia que alguma coisa estava prestes a explodir seu peito, sair sem pedir licença. Alguma coisa estava invadindo sua mente, ou simplesmente se manifestando, não teve tempo de cogitar a possibilidade de que essa coisa sempre esteve dentro dele e que agora queria finalmente sair.

Permaneceu por horas deitado no chão, completamente nu, mas ainda tinha a sensação do terno apertando sua pele. E o zumbido, muito mais perto e perturbador. As lágrimas escorriam como nunca, inundando seu rosto, quentes, salgadas, e, sem rumo, alcançavam o chão. No dia seguinte, o mesmo.  Não conseguia se mover, nem pensar, nem entender o que a empregada gritava repetidamente ao entrar no quarto ao encontra-lo daquele jeito. Em pânico ela gritou pela mãe que logo entrou no quarto de pijamas e cabelo desgrenhados e, de longe, sem tocar nele, correu para a sala e pegou o telefone. Um tempo depois uns homens de branco invadiram o quarto e o tiraram do chão. Ele não sabia o que estava acontecendo, mas o contato foi agressivo e inesperado pra ele. Começou a se debater querendo se livrar dos homens de branco, mas eles eram mais fortes, mais agressivos do que ele. Rapidamente colocaram algumas roupas nele, mas aquelas roupas não eram dele, mas eram tão insuportavelmente apertadas quanto o terno que era obrigado a vestir todos os dias. Sentiu uma pequena dor e então tudo começou a ficar escuro e não conseguia mais se debater. O aperto contra a pele diminuiu. O zumbido foi se dissolvendo, se distanciando, sumindo... Caiu.