O despertador tocou, eram seis e meia da
manhã. Olhou por algum tempo o teto, talvez com a esperança de que o dia não
precisasse começar ou que ele não precisasse ir trabalhar. Porém isso não
aconteceu. Levantou, tomou banho, colocou o terno, amarrou a gravata, tudo
muito sistemático. E depois de alguns anos isso se tornara tão inconsciente
pra ele, tão fora de sua vontade e automatizado que nem percebia que estava tudo errado, com o cabelo mal penteado, o terno amarrotado e a gravata fora de linha. Então agarrou a maleta, ajeitou os
óculos e ajeitou a gravata pela última vez. Comeu qualquer
coisa e saiu antes que alguém resolvesse reclamar que estava todo desleixado.
No carro, o rádio ligado com as notícias da manhã e lá fora estava
insuportavelmente quente. Não se impressionava
mais com o monte de asneiras que o radialista comentava entre uma notícia e
outra, o mais eram os mesmos acidentes, as mesmas mortes, os mesmos roubos, o
mesmo congestionamento. Como a cidade havia mudado naquelas poucas décadas.
Trânsito parado e nada mais a se fazer, mas ainda bem que acordou mais cedo. O
barulho das buzinas era tão alto que ultrapassavam o vidro do
sedan. Seus dias sempre começavam assim.
Quando chegou ao escritório sua secretária
já o abordava, ditando todos os compromissos do dia que mal acabara de começar.
Ele a ouvia e ao mesmo tempo a ignorava. Aliás, ele era assim com todas as
pessoas com quem conversava. Ele era uma presença ausente. Finalmente sentou em
sua cadeira e puxou para si a imensa pilha de processos que deveriam ser
analisados, carimbados e encaminhados até o fim do dia. E a cada amontoado de
papéis grampeados ele repassava cada momento passado na faculdade de advocacia.
Ele nunca soube ao certo porque quis ser advogado, na verdade ele nem queria
esta profissão. “A profissão é quem escolheu você”, repetia várias vezes sua
mãe com o mesmo olhar implacável e ela fazia questão de lembrá-lo da tradição
familiar de advogados respeitáveis. Seus avós, seus tios e primos eram advogados, todos
tinham um nome e um escritório próprio. Ele foi o único que quis trabalhar como
servidor público, na verdade fora a única coisa que conseguira. E o barulho das
máquinas de escrever era tão insuportável quanto o das buzinas no trânsito.
Como não gostava da profissão que o escolheu, tudo
que fazia parecia insuficiente. Insuficiente para o chefe, para a mãe e
especialmente para ele próprio. Tudo o que fazia naquele escritório com cheiro
de naftalina carecia de sentido para ele, assim como também sua vida não
possuía sentido algum. Parecia destinado àquilo, e realmente nunca almejara
qualquer outro emprego; a única coisa que vinha a sua lembrança era ter de ser
advogado. Não quis ser astronauta, muito menos bombeiro, não teve tempo pra
isso, pois só conhecera a advocacia e a advocacia o escolhera, como repetia sua
mãe todos os dias. Seu pai foi um dos advogados mais renomados do país, e foi
porque não é mais. Morreu há uns vinte anos. As lembranças do pai não eram muitas,
a única coisa que fortemente lembrava era de sua mãe dizendo: “Você tem de ser
igual ao seu pai, ser um advogado melhor do que ele, o que eu acho muito
difícil”.
Como queria que o tempo passasse depressa,
mas o tempo nunca o obedecia. Os minutos iam se arrastando junto com cada folha
de processo lido, com cada carimbo, cada assinatura. A hora do almoço não
chegava. O telefone tocava a cada dez minutos. Era seu chefe, que das férias
cobrava o serviço. Era como se o velho soubesse cada processo não lido ou mal
avaliado, sem contar o jogo de interesses com determinadas papeladas. Era um
estorvo. Era uma tortura.
Não estava muito animado para o almoço.
Seria o mesmo de sempre, como era de costume. Comeria com sua mãe, sentada do
outro lado da mesa, as comidas sem gosto ditas ‘saudáveis’. Como detestava
almoçar com a mãe. Na verdade detestava qualquer coisa que a incluísse. Não deu ao menos um irmão para ele, a velha egoísta e sovina. Ouvia em
silêncio todas as reclamações dela: o jeito desleixado de ele se vestir, de
andar, de falar, de como se arrependia de tê-lo tido, “nem para ser igual a seu
pai, quando você vai me dar algum orgulho?”. Isso o destruía. Mas em
alguns dias ele tinha uma boa desculpa para almoçar fora, talvez almoçar com
os amigos, que não eram muitos, na verdade ele não tinha amigo algum, mas inventava qualquer
coisa para ficar sozinho.
Como ele gostava de ficar sozinho deitado
no chão, segurando os próprios joelhos. Nesses momentos fechava os olhos e
imaginava um mundo melhor, uma vida mais cheia de sentido. Mas não
conseguia pensar em muita coisa, não conseguia ter uma visão pois só apareciam
processos, cobranças e reclamações. A sensação de não estar em lugar algum,
na sua própria companhia, tentando enxergar alguma saída que não existia, nem
hipoteticamente, já era o suficiente para ele e, no final disso tudo, sempre voltava
pra realidade, a dura e implacável verdade de si mesmo e sentia nojo de si
mesmo.
Em todos os dias de sua vida a mesma rotina
se repetia. Não conseguia chorar, nem gritar, nem mudar
qualquer coisa que fosse; tudo continuava sendo o mesmo. Num dia como outro
qualquer acordou, tomou banho, se arrumou, foi pro trabalho, ouviu o chefe
reclamar, almoçou com a mãe... Durante todo o dia sentia os olhos pesados, como
se quisessem chorar. Sentiu o peito aberto, como se quisesse sangrar. Os
pensamentos estavam soltos e seu corpo todo dormente. Nenhuma palavra entrou,
nenhuma outra saiu de sua mente. Era como se estivesse ficando completamente
desligado, perdido, insensível. No jantar ouviu as reclamações da mãe, o ambiente hostil de sempre, e ouviu claramente ela dizer: “Me arrependo
profundamente de ter um filho fracassado como você”. Talvez tenha sido a única coisa que conseguiu ouvir naquele dia, e depois dessas poucas palavras tudo o que conseguia distinguir era um zumbido na sua cabeça que começou discreto e distante e ia aumentando, se aproximando, deixando ele cada vez mais apavorado, mais perdido. Entrou no quarto, jogou as
coisas no chão, tirou o terno que o parecia sufocar, perdeu o controle de si
mesmo. Parecia que alguma coisa estava prestes a explodir seu peito, sair sem pedir
licença. Alguma coisa estava invadindo sua mente, ou simplesmente se
manifestando, não teve tempo de cogitar a possibilidade de que essa coisa
sempre esteve dentro dele e que agora queria finalmente sair.
Permaneceu por horas deitado no chão, completamente nu, mas ainda tinha a sensação do terno apertando sua pele. E o zumbido, muito mais perto e perturbador. As lágrimas escorriam como nunca, inundando seu rosto, quentes, salgadas, e, sem rumo, alcançavam o chão. No dia
seguinte, o mesmo. Não conseguia se
mover, nem pensar, nem entender o que a empregada gritava repetidamente ao
entrar no quarto ao encontra-lo daquele jeito. Em pânico ela gritou pela mãe
que logo entrou no quarto de pijamas e cabelo desgrenhados e, de longe, sem
tocar nele, correu para a sala e pegou o telefone. Um tempo depois uns homens
de branco invadiram o quarto e o tiraram do chão. Ele não sabia o que estava
acontecendo, mas o contato foi agressivo e inesperado pra ele. Começou a se
debater querendo se livrar dos homens de branco, mas eles eram mais fortes,
mais agressivos do que ele. Rapidamente colocaram algumas roupas nele, mas
aquelas roupas não eram dele, mas eram tão insuportavelmente apertadas quanto o
terno que era obrigado a vestir todos os dias. Sentiu uma pequena dor e então
tudo começou a ficar escuro e não conseguia mais se debater. O aperto contra a pele diminuiu. O zumbido foi se dissolvendo, se distanciando, sumindo... Caiu.