Estava escuro, devia ser noite. Abriu os olhos e estava num quarto, pelo menos era o que parecia. Havia um colchão jogado num canto, uma pequena janela com grades e apenas isso. Não havia cobertores, apenas frio. Desesperado, tentou de várias maneiras sair dali. Gritando, se debatendo contra as paredes, jogando as poucas coisas que haviam por ali. Depois de várias tentativas aqueles homens de branco invadiram o cubículo e bateram com pedaços de pau, seguraram firmemente até ele não conseguir mais se mover e então uma picada. Apagou. Não sonhou com muitas coisas, apenas escuridão, vazio, medo.
Quando acordou, havia alguém no cubículo, um homem de branco com comida. Estava com fome, mas a comida não tinha gosto, não tinha vontade de comê-la, mas estava com fome. Comeu o mais rápido que pôde para não sentir nojo, precisava comer. Lambuzou-se todo, perdendo todos os modos que sua mãe lhe ensinara debaixo de muitos tapas e maldizeres. Ao ver a porta aberta quis fugir. Tentou, mas os homens de branco eram mais rápidos, mais espertos, mais inumanos.
Durante vários dias a única coisa que conheceu foi aquele cubículo e os homens de branco. Não queria falar com ninguém, na verdade não podia, não conseguia, pois algo o impedia. Passava o tempo olhando o mesmo ponto. Fazia tudo nas calças. O mundo se resumia àquele cubículo, e nada mais. Por isso sentia aquela necessidade de gritar, bater, derrubar, cuspir pra então os homens de branco virem e apagá-lo. Preferia assim, pois não conseguia dormir. A única coisa de que tinha certeza era de que aquele não era o seu lugar. Tudo era vazio e desconhecido. Agora até preferia estar com a mãe, ouvir suas indelicadezas, queria ouvir o chefe gritar com ele, queria por o mesmo terno todos os dias. Ali não podia fazer coisa alguma, tudo fugia de seu controle.
Havia dias em que os homens de branco o tiravam de seu cubículo e o levavam para um banheiro, ou algo parecido com um. Amarravam suas mãos e ele não podia se mover. Sem roupas, uma torrente de água muito fria caía de um cano na parede. Gritava, afogava-se. Em outros dias ligavam-no a fios e sentia uma corrente passar por todo o seu corpo, que ficava rígido. Depois destes cuidados não conseguia se mover, não conseguia pensar, não conseguia ver nem sentir coisa alguma. Alternavam-se dias de lucidez e de escuridão. Havia momentos em que preferia ser apagado. Não tentava mais fugir, nem reagir. Apenas obedecia, agia como os homens de branco queriam que agisse. Sentia-se como se estivesse vestindo o terno de todas as manhãs.
No cubículo não existia tempo, não existiam dias nem noites. Isso era enlouquecedor. Mas já tinha aprendido que não podia gritar, mesmo se a vontade fosse maior que suas forças. Não podia bater, cuspir, xingar... Se essas coisas todas fossem feitas os homens de branco com certeza bateriam nele novamente, o xingariam novamente, gritariam com ele. Agora se limitava a comer, e deitar-se. Depois de algumas semanas já havia se esquecido de como era estar sob o Sol da manhã e ouvir os pássaros cantarem. Já havia esquecido do orvalho, da chuva e das nuvens que imitavam todas as coisas do mundo. Porém não podia sentir falta disso, porque sua vida medíocre se limitava ao escritório e almoçar e jantar com a mãe. Mas ali não podia gritar, não podia ficar com raiva, não podia porque doía. E como odiava os banhos frios, mais do que apanhar. Mesmo assim tinha vontade de Sol, de chuva e de orvalho.