segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Um outro lugar

Não era possível saber quanto tempo ficou ali. Talvez já tivessem passado duas semanas, ou dois meses, não sabia. Depois de um tempo não se preocupava mais com isso. O cubículo havia tirado tudo dele, a humanidade, a vontade e agora ele era o que sempre disseram que era: nada. Não sabia dizer se tinha vontade de sair daquele lugar, se iria sair, procurava não manter esperanças. Tudo o conseguia fazer era ficar deitado horas naquele pedaço de colchão, absolutamente imóvel. Suas forças já não eram mais usadas, não gritava nem se debatia quando queria e mesmo se queria, mesmo quando batiam nele sem motivo. Para ele, tudo não tinha sentido.

Naquela manhã, ou tarde, ou noite, os homens de branco entraram em seu quarto. O levaram ao banheiro, ou o que quer que fosse, mas ele não reagiu, não podia. O banho frio, a insuportável água sempre gelada e alheia aos seus gritos. Não precisava mais de amarras, porque não queria contrariar os homens de branco, mesmo que preferisse apanhar de porrete. Depois de quase se afogar, vestiram-no, uma roupa diferente do pano que costumava usar. Não se impressionou. Ao invés de o levarem de volta para o seu cubículo, os homens de branco tomaram outro rumo. Através de um imenso corredor conseguia ver o lado de fora pelas janelas. Quis sorrir, mas não conseguiu. Era dia, talvez uma linda manhã de outono. No final do corredor havia uma porta aberta, e nesta altura apenas um homem de branco o acompanhava. A porta foi aberta e depois de um tempo, que não pôde ser contado, estava do lado de fora.

A claridade o cegou por alguns instantes. Após alguns segundos conseguiu divisar um lindo jardim. Jamais conseguiria imaginar um jardim num lugar tão maldito. O homem de branco, o que geralmente o batia mais forte com o porrete, agora parecia impossivelmente gentil. Mas não ligava para isso, queria sentir a grama sob os pés, ouvir os pássaros cantarem, ver um mundo que havia sumido de seus olhos e de suas lembranças há muito tempo. Num banco distante, uma distinta senhora estava sentada. O homem de branco o levou até ela e logo em seguida se retirou. Reconheceu a senhora que tentava se manter alheia a todos os louquinhos que perambulavam pelo jardim. Era sua mãe. Ela parecia tão diferente da mulher que ele sempre conheceu, mas não se impressionou com isso, não podia.

Ele sentou-se ao lado dela e não falou. Sua mãe também permaneceu em silêncio e muitos minutos se passaram assim, sem se olharem. “O médico disse que você teve uma recuperação muito rápida”, disse a mãe, com uma doçura que não lhe era típica. “Graças a Deus encontrei este lugar para você, é o melhor de todos, veja este recorte”, ela abriu a bolsa e tirou uma pequena revista que parecia meio gasta, talvez de tanto ser lida, e datava três de julho de 1972, e na capa a foto do jardim em que se encontrava com os dizeres “Excelência no tratamento de demências”. Devolveu a revista à mãe, “Ainda mês passado receberam um prêmio”, retorquiu ela enquanto ele voltava a admirar o jardim, as rosas, os botões de cravos, queria deitar sobre uma jabuticabeira e beber a água que escorria numa fontezinha ali perto. “Se está preocupado com os boatos sobre o seu estado, fique tranquilo, eu disse para todos que você precisou se ausentar para se especializar em outro país, todos acreditaram. Ainda bem que a primeira coisa que fiz foi te mandar pra esta ‘casa de repouso’. Ninguém desconfiará que você perdeu o juízo”. A habitual frieza da mãe havia voltado.

Naquele momento não se importava mais com o que a mãe dizia, estava tão extasiado com o jardim, tão fascinado que as palavras dela voavam com a brisa que passava por entre os dois. “O médico disse que você pode ter alta a qualquer momento, pois se recuperou como o esperado”, ainda completou, como que esperando uma reação do filho. “Você parece tão melhor!”, quando a mãe disse isso ele se virou rapidamente para fitá-la. A mãe se assustou, achando que ele fosse reagir como fez antes de ela interná-lo. Ele não fez nada, apenas sorriu. “Acho que deixarei você aqui mais alguns dias, já que parece gostar daqui, e quando sair...” Neste momento a mãe não soube como completar a frase. Nunca em sua vida planejou alguma coisa com o filho. Tudo o que fez foi... Ela nunca fez coisa alguma com ele. Sentiu-se encabulada, então levantou: “Espero que esteja ainda melhor quando voltar para te buscar”, disse com a mesma dureza que sempre lhe foi particular, a doçura havia sumido sem deixar qualquer rastro. Ainda assim ele não esboçou qualquer reação. Ele se levantou, olhou para a mãe e estendeu a mão. “Até mais tarde” ele disse. A mãe não conseguiu esconder o incômodo, mas apertou a mão do filho, mesmo porque jamais teve coragem ou vontade de abraçá-lo, mesmo que fosse a coisa certa a se fazer naquele momento, ou em todos os outros momentos da vida dos dois. Virou-se sem se despedir e o filho ficou olhando por um tempo até ela desaparecer dentro do prédio. Ela sentiu o olhar do filho a cada passo que dava.

Ele aproveitou cada momento que passou naquele jardim. Colheu jabuticabas e as comeu, nunca havia comido jabuticabas. E como o gosto era maravilhoso. Colheu cada flor, explorou cada canto. Molhou o rosto na fonte com água fresca e sentiu-se novo. Um homem de branco veio em sua direção, mas não se assustou. Pegou-o pelo braço e com a mesma rudeza de sempre o levou através do jardim, através do corredor, e esperou que fosse entrar no cubículo novamente, mas dessa vez o levaram para um quarto de verdade, com todas as coisas que um quarto deveria ter. Depois que o homem de branco saiu, sentou-se perto da janela e continuou a passear com o olhar pelo jardim, a colher as flores, a comer jabuticabas.

Estava fora do cubículo, ninguém mais o batia, sem mais banhos frios. Ainda assim não gostaria de passar o resto da vida naquele lugar. Agora conseguia desejar, e queria uma vida pra ele. Não uma vida melhor, porque ele nunca teve uma vida. Iria viver a partir de agora. Sua mãe, como disse, voltou para tirá-lo de lá. Como não trouxe coisa alguma, apenas a roupa do corpo, saiu sem nada. Sua mãe trouxe outras roupas. Assinado alguns papéis, saíram do maldito prédio e entraram no carro, onde o motorista olhava estranhamente para os dois. Não ligava. A certa altura da viagem a mãe pediu para que o motorista parasse o veículo. A mãe e o filho desceram do carro e surpreendentemente ela propôs uma ‘saudável caminhada’ pela cidade. Então caminharam, mas não lado a lado. Ele ia a frente, enquanto a mãe ia logo atrás. Mas ele não se importava.