terça-feira, 22 de novembro de 2011

Janela

Agora penso em você com mais frequência do que pensava antes de você partir. Às vezes tenho que me esforçar pra lembrar que você foi pra não voltar mais, e às vezes tenho que me convencer de que fui eu quem deixou você ir. Não tenho certeza se foi imprudência minha permitir você passar por aquela porta. Não tenho certeza se eu deveria ter dito alguma coisa que pudesse te trazer de volta. Não tenho certeza se deveria ter me escondido tanto do mundo, fechado todas as minhas portas e todas as minhas janelas, se deveria ter expulsado todos que tentaram entrar outra vez na minha vida desde que você se foi. A verdade é que eu tenho tentado te deixar partir da minha mente, assim como você fez quando saiu por aquela porta. Parece que aqui dentro você insiste em ficar.

É engraçado como a gente tenta consertar as coisas dentro da nossa mente. Lá dentro, escondida de todos os nossos erros, a vida encontra um caminho mais seguro e não se desvia das pequenas coisas que não prestamos muita atenção. Mas isso só acontece depois que tudo já foi perdido, como agora. E parando pra pensar, existiram tantos pequenos detalhes que simplesmente ficaram fora das nossas prioridades, tantos sonhos e expectativas que nunca conseguiram ganhar o mundo e foram condenadas a me assombrar pelo resto dos meus dias, desde o momento em que você saiu por aquela porta. Mas é imprudência achar que tudo pode tomar um caminho diferente se tivéssemos prestado mais atenção a essas pequeninas coisas que ficaram pelo caminho, e é idiotice achar que se pode retomar o passado e continuar com as coisas boas que existiram. De qualquer maneira, não é possível retomar o passado a não ser aqui dentro, onde todos os dias são nublados e todas as janelas estão fechadas pro mundo lá fora. E acho que é nessas horas que precisamos nos esforçar e lembrar que o passado também é feito de momentos ruins, aqueles em que você ficou sozinho quando queria companhia, ou chorou quando queria ser consolado, ou simplesmente foi embora quando queria ter ficado.

Você foi embora, mas deixou seu coração preso ao parapeito da janela. E agora, toda vez que tento abri-la lá está ele, batendo e sangrando, tirando minha atenção do que acontece lá fora. Me perco tentando entender como ele foi parar lá, porque ele ficou ali enquanto você ficava cada vez mais longe de todo nosso passado. Mas talvez a culpa não seja sua. Você sempre foi tão prudente e cuidadosa com tudo. Já eu não era. Sempre desastrado, sempre deixando tudo pro tempo resolver enquanto esquecia que o tempo não sabe o que fazer com as coisas que deixamos pra trás. O tempo apenas assiste a tudo e não se preocupa com as coisas que tiram o nosso sono. Eu te deixei pra trás na esperança de que dessa vez o tempo pudesse abrir uma exceção, que tivesse piedade de mim e que mantivesse o passado intocável e indolor. Exigi que o tempo apagasse você, como quando erramos um traço do desenho que não saía como imaginamos. E é claro que isso não aconteceu. O traço permaneceu e o desenho ficou preso a janela e me atormentou desde o momento em que você passou por aquela porta.

Mas não fiquei pensando isso o tempo todo, porque é impossível estar na companhia da tristeza por tanto tempo. Em algum momento ela se cansa da gente e vai embora. Também é impossível sentir saudade do mesmo passado o tempo todo e, quando parei de tentar entender porque você partiu e de quem foi a culpa, percebi que nada do que eu fizesse ou pensasse poderia mudar todas essas pequenas coisas. Eu não poderia te impedir se você decidiu ir embora. Não poderia te fazer me amar se você escolheu o contrário. Não poderia mudar nada que já tivesse sido feito, pois nenhum erro, pequeno ou grande, poderia ter um outro fim. Quando você saiu por aquela porta, saiu já sem nenhum amor, mas eu tive que aprender a deixar de te amar. E isso leva muito tempo.

Então levei o tempo que precisei levar, colocando as coisas no lugar, peça por peça, até que tudo tivesse encontrado seu caminho. E por último deixei seu coração, que até então estava preso a janela. Naquele momento percebi que fui eu quem o deixou ali, fui eu quem quis sofrer daquele jeito e quis que o mundo visse o meu sofrimento aqui do lado de dentro. Então, tomando fôlego, o peguei em minhas mãos com um pouco de medo, confesso, medo de ser afetado por ele, mas não fui. Então, cheio de esperança, o dobrei várias vezes e escrevi um recado em uma de suas asas. Joguei janela afora e tão rápido ele ganhou o céu que depois de um tempo não pude mais vê-lo. E agora espero pacientemente que ele chegue até seu destino para que você leia, em uma de suas asas, o pequeno recado com os dizeres: "Por favor, não volte mais".

E agora, na esperança de que alguma brisa renove o ar que ficou preso aqui dentro por tanto tempo, eu deixo a janela aberta.